Hans Christian Andersen, dinamarquês

on Sep 1, 2010 in Um Olhar Estrangeiro | No Comments

Já era bastante famoso quando veio a Portugal visitar amigos de infância. Desta viagem resultou um livro tão bonito como os seus contos de fadas, que até hoje encantam crianças e adultos de todo o mundo. Ficam aqui alguns excertos.

Foi em Copenhaga, ainda jovem, que Hans Christian Andersen conheceu José e Jorge O’Neill, cujo pai era o cônsul português na Dinamarca. Em 1866, já com 61 anos, veio rever Jorge O’Neill, que vivia na Quinta do Pinheiro, nos arredores de Lisboa, e tinha também uma bela casa para os lados de Palmela. Durante esses dias, foi a Coimbra e apaixonou-se por Sintra.

“Pouco faltava à linha de caminho-de-ferro entre Madrid e a fronteira portuguesa para ficar completa. O rei de Portugal havia-a utilizado recentemente mas ainda não estava aberta ao público e dificilmente seria, dizia-se, antes da Exposição de Paris, na próxima Primavera. Se queria, pois, ir de modo mais rápido de Madrid para Lisboa, teria de utilizar a diligência que todas as noites partia, com correio e pequenas encomendas.”

“(…) Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha! Era como sair da Idade Média para entrar no presente.”

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Quinta do Pinheiro

“(…) Por fim, virámos de uma estrada entre muros estreitos para um caminho íngreme e difícil, conduzindo a uma casa de campo de aspecto antigo e isolada, numa das elevações mais altas. Era ‘Pinheiro’, Pinietraeet, como se poderá traduzir em dinamarquês (…) Quando cheguei, o jardim estava ainda completamente florido. Abundavam as rosas e os gerânios cor de fogo, trepadeiras não muito diversas das dos nossos bosques suspendiam-se com martírios, como grandes tapeçarias sobre os muros e arbustos. As flores brancas de sabugueiro por cima, com os vermelhos das romãzeiras, combinavam-se, formando as cores dinamarquesas(…). Como tem este país todos os encantos!”

Em Lisboa

“Entre o Convento e Lisboa, mas mais próximo da cidade, há um monte com uma grande vista sobre o Tejo, um dos maiores cemitérios da capital, o cemitério do Alto de São João.”

“(…) O cemitério maior, não o vi, tem o nome de ‘Prazeres’, isto é, em dinamarquês Fornøielse, em francês plasir. Quase nos faz crer ter sido um humorista que baptizou o lugar.”

“(…) Por todas as descrições de Lisboa com que deparei, formara para mim próprio uma imagem desta cidade mas a realidade foi bem outra, mais luminosa e bela.”

“(…) As ruas são agora largas e limpas, as casas confortáveis, com as paredes cobertas por azulejos brilhantes de desenhos azuis sobre branco; as portas e janelas de sacada são pintadas a verde ou a vermelho.”

“(…) O passeio público, um jardim longo e estreito no meio da cidade, e à noite iluminado a gás e aí se ouvem concertos. As árvores em flor desprendem um perfume bastante forte; é como se estivéssemos numa loja de especiarias ou numa confeitaria que preparasse e servisse gelados de baunilha.”

“(…) A ópera esteve fechada enquanto permaneci em Lisboa. O circo ‘Prince’ onde se apresentavam pequenas óperas e operetas, bem como o Teatro de Dona Maria II, eram os mais frequentados. Este último não é muito grande, mas é um belo edifício ornado de pilares e estátuas, voltado para uma praça arborizada com um pavimento de mosaico e muito elegante. Pouco mais adiante estende-se a larga rua do Ouro. Aí estão os ourives em lojas umas atrás das outras, exibindo correntes de ouro, condecorações e outros esplendores. Por esta rua se vai à maior praça da cidade, a Praça do Comércio, que se prolonga até à margem pavimentada do Tejo, onde estão os barcos ancorados.”

“(…) Na parte alta e mais frequentada da cidade será erguido um monumento a Camões. A praça tem já árvores e flores. Não sei como virá a ser o monumento a Camões, contudo, a sua obra será sempre o seu melhor monumento, pela qual o nome de Portugal, mais do que pelas batalhas e conquistas sanguinárias, é recordado e exaltado pelas gerações de todo o mundo.”

Setúbal e Palmela

“(…) Partimos de carruagem da casa de campo de Jorge O’Neill para Lisboa, uma meia hora de caminho, para logo entrarmos no barco a vapor que diariamente faz a ligação com o caminho de ferro da margem sul do rio Tejo, rio que tem a largura de um grande lago, necessitando o vapor quase uma hora para fazer a travessia.”

“(…) À medida que nos afastávamos, evidenciavam-se os recortes como vagas enormes de casas e palácios. A margem sul, para a qual nos dirigíamos, exibia nas vertentes dos montes conventos, fortificações e pinhais.”

“(…) No sopé da serra de Palmela a região mostra-se mais pitoresca. Em breve teremos à nossa frente Setúbal, a St. Ybes dos ingleses, onde laranjais, seguindo-se uns aos outros, cobrem todo o vale entre Palmela, São Luís e a serra da Arrábida, para os lados do oceano.”

“(…) No laranjal anoitecia cedo. As sombras estalavam-se por entre as árvores, cujas folhas formavam como que um enorme tecido de veludo, no qual se fixavam pirilampos maravilhosamente cintilantes. Brilhavam luzes nas casas brancas de Setúbal. (…) Toda uma beleza que não podia ser reproduzida por pintura nem revelada por palavras.”

“(…) A carruagem esperava-nos, e esperavam-nos os jornais, que depois com especial interesse nos pusemos a ler para saber notícias de como ia o mundo.(…) Enquanto corria sangue e soavam gemidos de morte noutros países, a bênção da paz pairava maravilhosamente sobre Portugal, longe e afastado desses perigos. E eu sentia e gozava essa tranquilidade, essa beleza e essa paz.”

Em Coimbra

“(…) Coimbra está colocada numa colina, as ruas umas por cima das outras. (…) Lojas várias, especialmente livrarias, há na cidade uma grande quantidade. Por toda a parte se vêem estudantes… ouvem-se com frequência nas ruas guitarras e serenatas…”

“(…) Do convento e da igreja as ruas sobem para a Universidade, um edifício grande que ocupa todo o alto da cidade. Aí, por uma das portas da cidade mais ao alto, na muralha da fortaleza em ruínas, entra-se no Jardim Botânico, rico em flores e árvores raras.”

“(…) Vi depois a imponente capela, a sala do trono e a biblioteca em estilo rococó, com magníficos arcos, ouropéis e pinturas no tecto. O bibliotecário mostrou-me várias edições raras de Os Lusíadas, ilustradas com belas gravuras de cobre.”

“(…) Os grandes ciprestes junto à fonte dos amores na Quinta das Lágrimas, como foi denominada por Camões e pelo povo a quinta onde Inês foi assassinada, pareciam bastões de marechal envoltos em crepe, diante do palácio, sarcófago de recordações.”

Em Sintra

“(…) A mais bela e decantada parte de Portugal é a inigualável Sintra. ‘O novo paraíso’, denominou-a Byron. ‘Aqui a Primavera tem seu trono’, assim a cantou o poeta português Garrett. Para lá íamos agora.”

“(…) Diz-se que todo o estrangeiro poderá encontrar em Sintra um pedaço da sua pátria. Eu descobri aí a Dinamarca.”

“Tudo era de uma variedade e uma pujança maravilhosas. Estavam aí os loureiros, com seus frutos vermelhos-escuros, cresciam em grande extensão os grandes arbustos dos gerânios e do tamanho de árvores as fúchias.”

“Diferente, mais belo e pitoresco, o palácio de Verão de D. Fernando eleva-se no alto, dominando toda a região.”

“(…) Todo o caminho da serra é um jardim, onde a natureza e a arte maravilhosamente se combinam, o mais belo passeio que se pode imaginar.”

A despedida

“(…) Descemos ao porto, onde nos esperava a embarcação do capitão e onde todos tomámos lugar.” “ (..) depois do pequeno-almoço veio a despedida. Jorge O’Neill gracejava e sorria mas eu sentia-me triste. Pensava se voltaríamos a ver-nos e que certamente nunca mais visitaria este país longínquo e belo, onde me tinha sentido tão bem como na minha pátria.”

“Quando, querendo Deus, em breve passear

Nas galerias de faias do meu país natal,

Voará muitas vezes meu pensamento

Para o belo país que é Portugal.”

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por Paula Ribeiro

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