Hamburgo – Cidade livre

on Nov 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

A importante cidade alemã apresenta-se como “Porta para o Mundo”, e é bem verdade. O planeta converge aqui, neste símbolo da Liga Hanseática, onde o corredor das águas do Elba define tudo.

Hamburgo é uma cidade aquática. Três rios, o gigante Elba, os pequenos Alster e Bille, e dezenas de canais, dão-lhe essa natureza. Defronte da Câmara Municipal, um guia turístico explica isso mesmo à assembleia reunida em seu redor. Não foi acaso o guia iniciar a sua narração sobre a cidade no enorme terreiro, o Rathausmarkt, diante da também enorme Rathaus, a sede do Senado e do Parlamento da Cidade Livre e Hanseática de Hamburgo. Apontando com uma mão à fachada, como quem faz mira a um alvo, identifica Carlos Magno, a sua estátua, atribuindo-lhe a fundação da cidade, em 808, ao levantar uma torre de defesa entre o Alster e o Elba. Um começo prosaico que não impediu o triunfo futuro. Hoje, Hamburgo intitula-se a “Porta para o Mundo.” Talvez seja uma imagem criada pelo marketing, mas é uma designação suficientemente clara para lhe capturar o forte sabor internacional. Andar por Hamburgo é encontrar o vasto mundo, é andar entre pessoas com múltiplos tons de pele, com aparências diversas, é escutar diferentes línguas, é ver chegar e partir navios de todos os mares, é encontrar negócios e instituições que só uma cidade com muito lastro pode acolher. Atingir este ponto exigiu um longo caminho, sendo que alguns passos foram decisivos. Em 1189, Frederico Barbarossa concedeu-lhe o estatuto de Cidade Livre; em 1241, Hamburgo firmou com Lubeck um acordo que daria origem à Liga Hanseática, alterando nos séculos seguintes a maneira de fazer comércio na Norte da Europa; em 1881 deu-se o estabelecimento de um porto franco, com o chá, o café, o cacau e outros produtos ultramarinos a impulsionarem o comércio local.

 

Rio afora

Sinto estas conexões com o mundo de uma forma muito viva nas minhas deambulações, nos meus encontros e conversas. Por exemplo, ao deparar com a Ernst & Brendler, “desde 1879 conhecida especialista em roupas da marinha e tropicais”. Depois de parar diante da montra – algo démodée, diga-se, mas muito mais apreciada pelos transeuntes que circulam na Große Johannisstraße do que o comércio das grandes marcas globalizadas da vizinhança – como não entrar? “A maioria das peças que vendemos são modelos nossos”, explica-me Ingrid O., bisneta do fundador, acrescentando no mesmo fôlego: “São modelos clássicos, já se usavam há muitos anos e continuar-se-ão a usar no futuro.” De seguida, já com algumas peças estendidas sobre o balcão, para exemplificar, continua a explicação: “Quando começou, a empresa produzia e vendia vestuário para marinheiros, mas, mais tarde, quando os alemães começaram a viajar para os trópicos, ou seja, no tempo do meu pai, começamos a produzir vestuário tropical. Os nossos produtos são fabricados na Alemanha; fazemos questão disso”. Como sair da loja sem nada na mão?

Foi também a abertura ao mundo que conduziu ao nascimento de uma instituição incontornável em Hamburgo. Com efeito, após o estabelecimento do porto franco, não tardou muito que se verificasse que os navios não transportavam apenas produtos exóticos, mas que neles também viajavam marinheiros afetados por doenças tropicais e assim surgiu o atualmente chamado Instituto de Medicina Tropical Dr. Bernhard Nocht. Localizado defronte ao Elba, entre outras coisas, é lá que os hamburgueses se vão vacinar quando viajam para os trópicos. Alexandru Tomatazos, a concluir um doutoramento no instituto, explicou-me tudo isto mas também me instruiu acerca de uma atividade obrigatória para quem está de visita a Hamburgo: uma viagem de barco pelo Elba e pelo porto, utilizando os ferries da carreira 62 e 72, uma estuário abaixo, a outra estuário acima. Uma alternativa, por um custo irrisório, aos passeios organizados por empresas turísticas, e, afinal, como constatei, largamente utilizada pelos visitantes de Hamburgo. Uma digressão sobre as águas tira todas as dúvidas sobre a importância do porto. O estuário do Elba é permanentemente sacudido pelas hélices de todo o tipo de embarcações. O local de partida situa-se no famoso cais Landungsbrücken, vizinho do também famoso Túnel do Elba – uma notável realização da engenharia do início do século XX, e que continua a ser a forma mais prática para peões e ciclistas efetuarem o vaivém de margem a margem.

 

Navegar

Noutra ocasião, Alexandru acompanhou-me ao Museu Marítimo Internacional. Diz-me que é a sua terceira visita nos dois últimos anos. Após ter percorrido os primeiros conveses – convés é o nome dado a cada um dos nove pisos do edifício, nome apropriado tendo em conta a natureza do sítio – percebi porquê. O museu abarca todos os quadrantes da vida marítima, de Zheng He a Vasco da Gama. Noutro espaço, uma embarcação vinda do fundo dos tempos, encontrada no Elba, nascida de um magnífico tronco de árvore, escavado até adquirir a forma côncava. Foi o artefacto que mais me entusiasmou, entre milhares em exposição.

O museu assenta no ponto de ligação ente HafenCity, muitas vezes descrito como o maior projeto europeu de urbanismo em curso, na verdade uma nova cidade dentro da cidade, e ainda os bairros de Speicherstadt e Kontorhaus, incluídos pela UNESCO na sua lista de Património Mundial, em 2015. Speicherstadt constitui um extenso complexo de armazéns de tijolo vermelho, separados por canais e ligados por pontes (sempre que a oportunidade se apresenta, os hamburgueses lembram que a cidade conta com o maior número de pontes do mundo). Edificados no virar do século XIX para o XX, a sua disposição espacial torna-os uma espécie de “arquipélago no rio Elba.” Já o bairro de Kontorhaus reúne edifícios construídos entre as décadas de 20 e de 50 do século XX, com o objetivo primeiro de servirem como escritórios. Cada um dos edifícios classificados tem características muito vincadas, mas é o Chilehaus, em forma de proa de navio, que causa mais admiração.

 

Em todas as direções

Mas voltemo-nos de novo em direção a HafenCity, onde brilha o grande acontecimento arquitetónico de Hamburgo. A Filarmónica do Elba é um edifício altivo e um projeto cultural com duas salas de espetáculos. A parte inferior em tijolo, a superior em vidro terminando sob a forma de uma onda encrespada. Um terraço a toda a volta separa as duas secções. Dirijo-me à bilheteira para comprar bilhete para um espetáculo mas, com o tom de voz de quem é obrigada a dar uma má notícia, a funcionária informa-me: “Todos os concertos estão esgotados para os próximos dias; é habitual isto acontecer.” Fiquei-me, pelo terraço, conhecido por Plaza. Apesar do acesso gratuito, também é necessário adquirir bilhete, a forma utilizada para controlar o constante fluxo de visitantes. O olhar pode correr em todas as direções e mostrar-nos a cidade de uma forma abrangente. Hamburgo é plana e só com o auxílio do artifício humano é possível abarcá-la na totalidade. Como tantas vezes acontece, mudar o ponto de vista é mudar a maneira como vemos um lugar. Repeti este exercício no miradouro do Memorial São Nicolau, uma lembrança das consequências trágicas da II Guerra Mundial e dos profundos danos que infligiu à cidade, e nas Torres Dançantes, também ele um edifício de arquitetura extravagante, onde, no topo, se aloja um bar apropriadamente chamado Clouds. As Torres Bailarinas, outro nome pelo qual o edifício é conhecido, localiza-se na área de St. Pauli, ao fundo da avenida Reeperbahn, a artéria maior do Red Light District. É final de tarde e eu avanço pela grande avenida. A música solta-se de alguns estabelecimentos. Há uma infinidade de néons que começam a ganhar vida porque, diz quem conhece o lugar, dizem os guias, é durante a noite que o bairro vive, mostra a sua natureza. Foi em bares daqui que os Beatles deram os primeiros passos em direção à fama global.

Já vimos, Hamburgo tem-se revelado singularmente bem sucedida no import-export. Cerca de um terço da população é estrangeira. Alexandru, o meu guia no Museu Marítimo, veio de Sulina, Roménia; já a minha guia no Kunsthalle – o excecional museu de belas-artes, criado no século XIX –, Pola Soltyska, é de Cracóvia. Além disso, conheci portugueses, brasileiros, turcos, macedónios, paquistaneses e, também, alemães. É a diversidade que esperamos de uma cidade que se afirma como a “Porta para o Mundo”.

 

texto e fotos José Luís Jorge

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