Grupo Pestana – A história de um Império

on Aug 1, 2008 in Embarque Imediato | No Comments

No momento certo e no sítio certo. Eis a história do Grupo Pestana, cadeia de hotéis portugueses de expansão mundial. Dionísio, intrépido empresário, conta tudo.

Em 1976, aterrou na Madeira um jovem sul-africano. Com apenas 24 anos, Dionísio Pestana trazia uma missão desmesurada: salvar da falência o hotel de cinco estrelas que o pai tinha inaugurado no Funchal quatro anos antes. Apenas as origens familiares o ligavam a Portugal. Dennis, como era conhecido na África do Sul, era recém-licenciado em Gestão pela Universidade de Natal, onde praticava râguebi, não falava uma palavra de português e nunca lhe tinha passado pela cabeça vir para Portugal. Quando chegou à Madeira foi um choque: “Eu vinha do primeiro mundo, de um país já avançado, do ponto de vista industrial e económico, para um país e uma ilha onde o atraso era muito grande”.

Em Portugal vivia-se a ressaca do Verão Quente, o conturbado período que se seguiu à instauração da democracia em Portugal (1974). A economia estava em crise, com uma inflação galopante e grande agitação social. Sector dominante na economia madeirense, a hotelaria passava um muito mau bocado, com as notícias que circulavam lá fora de um país a caminho do comunismo e a braços com greves constantes a afastarem os turistas.

Para os empresários que tinham começado há pouco, como os Pestanas, a situação era catastrófica: para além da quebra na procura, os investimentos não estavam pagos e a inflação alterara as regras do jogo, com o preço do dinheiro sempre a subir em flecha, enquanto os proveitos subiam mais lentamente. “Os custos sobem de elevador, enquanto as receitas vão pela escada”, lembra-se Dionísio Pestana de ter escrito num relatório e contas da empresa nessa altura.

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O volte-face

Quando chegou à Madeira, Pestana instalou-se no hotel do pai. Só saiu de lá quando se casou, 12 anos depois, e contrafeito: “Ainda pensei continuar lá, mas a minha mulher não achou boa ideia”, ri-se ele hoje. Foram 12 anos em que praticamente não saía do hotel senão para viajar. “Era fantástico, ia para o trabalho de elevador. Tive de me adaptar a ir de carro, a preocupar-me com a casa. Não foi fácil.”

Entretanto, Pestana tornara-se num dos maiores empresários hoteleiros da Madeira. Aos poucos, tinha chegado a estabilização política, os turistas regressavam, e a oferta hoteleira madeirense mostrava-se curta. Pestana decidira ampliar o hotel com mais 300 quartos, dos quais metade vendidos em regime de time sharing. O empreendimento, concluído em 1983, foi um sucesso que permitiu a compra do Casino Park, em 1986.

O complexo do Casino Park Hotel e Casino da Madeira, um projecto de Oscar Niemeyer executado pelo veterano da Escola do Porto Alfredo Viana de Lima, estava em construção em 1974. Os donos viram-se sem meios para concluí-lo, o que levou à intervenção do Governo Regional, que entrou no capital e financiou a conclusão. Mas o complexo acaba por ser posto à venda, e Pestana compra. Um excelente negócio – além do bom preço, o Casino Park Hotel, dirigido ao mesmo segmento de mercado, deixava de ser um concorrente. “Be at the right time at the right place”, comenta hoje Pestana a propósito – uma máxima que assenta que nem uma luva em grande parte do percurso do empresário.

As origens

Manuel Pestana, pai de Dionísio, emigrou para a África do Sul pelo final da II Guerra Mundial. Oriundo da Ribeira Brava, um concelho rural no Oeste da Madeira, começou por se fazer sócio de uma cooperativa agrícola. “Muito poupado e com olho para o negócio”, como o descreve o filho, decide a certa altura estabelecer-se com uma loja de bebidas, um excelente negócio na altura, dadas as restrições à venda de álcool impostas pelo governo sul-africano. Seguem-se os negócios na bolsa e os investimentos imobiliários na África do Sul e em Moçambique, que culminam em 1961 com a construção do Prédio Funchal, um edifício no centro de Lourenço Marques com 90 apartamentos para alugar, a messe de oficiais da Força Aérea e ainda lojas e escritórios.

Foi o sucesso do Prédio Funchal que permitiu a Manuel Pestana atirar-se à construção de um grande hotel na Madeira, com a ajuda financeira do Fundo de Turismo português, uma instituição estatal que emprestava metade do capital necessário para a construção de hotéis de cinco estrelas. A oportunidade surgiu em 1966 com o Hotel Atlântico, um pequeno hotel de 20 quartos com uma localização fabulosa no topo de uma falésia na parte oeste do Funchal. Foi demolido, e, em 1972, abria o Madeira Sheraton. Os rendimentos do Prédio Funchal permitiram financiar os primeiros tempos do Sheraton, até que o edifício foi nacionalizado e transformado em hotel após a independência de Moçambique.
A expansão do grupo continua em 1992, com a compra de quatro hotéis no Algarve, sobreviventes da Torralta, outra empresa que não resistiu ao período pós-1974, e prosseguiu com um hotel em Cascais e mais investimentos em time sharing no Algarve.

Expansão

O primeiro investimento fora de Portugal foi a concessão, em 1998, da exploração do Hotel Rovuma, em Maputo – nada mais nada menos do que o antigo Prédio Funchal de Lourenço Marques.

A internacionalização prossegue no ano seguinte com a compra do Rio Atlântica, no Rio de Janeiro, um emblemático hotel em plena Avenida Atlântica, em Copacabana. Curiosamente, é no Brasil que nasce a marca Pestana – o grupo usava para os cinco estrelas a marca Carlton, que no Brasil estava registada. Enquanto era ponderada a negociação para comprar a marca, um estudo de mercado mostra que a hipótese “Pestana” era mais bem aceite pelo público. Foi uma entrada em força, a que seguiram, em 2000, mais dois hotéis em Angra dos Reis e Salvador.

Em 2001 abre em Portugal, após dez anos de dificuldades burocráticas e uma classificação como monumento nacional pelo meio, o luxuoso Pestana Palace, um antigo palácio lisboeta de finais do século XIX. Outro marco importante dá-se em 2003, com a entrada no grupo de mais uma empresa em dificuldades – a Enatur, empresa estatal dona das Pousadas de Portugal, de que Pestana vence o concurso internacional para a exploração e a compra de 49 por cento, em associação com a Caixa Geral de Depósitos e a Fundação Oriente. Dois anos depois, as Pousadas de Portugal chegam ao Brasil com o Pestana Convento do Carmo – um antigo convento do século XVI convertido em hotel de luxo. Em 2006 e 2008 o grupo estreia-se fora do espaço lusófono, com hotéis em Buenos Aires e Caracas. E para finais de 2009 está prevista a abertura do Pestana Chelsea Bridge, em Londres, com a particularidade de 66 dos 218 quartos serem para venda.

Em 32 anos, Dionísio Pestana conseguiu ultrapassar a média de um novo hotel aberto por ano – são hoje 38, ou 80 se se incluir a rede Pousadas de Portugal – e tornou-se o maior empresário hoteleiro português.

No momento certo

Pestana encara a sua inexperiência inicial como uma vantagem – “Aprendi à minha custa, não tinha nenhum pré-conceito, não vinha de nenhuma família de hoteleiros, não tinha ninguém a dizer-me como fazer o negócio” – mas logo acrescenta que teve “uma boa escola, que foi a Sheraton”, cujos métodos de gestão hoteleira foi assimilando ao longo dos primeiros anos em que esteve no Madeira Sheraton, viajando muito e frequentando as conferências do grupo.

Mas o que salta à vista no seu percurso é, além de uma enorme capacidade de iniciativa, o sentido de oportunidade e o optimismo, sempre presente ao longo da conversa. No período pós-1974, “os donos dos hotéis encaravam isto como um mau negócio e não viam luz ao fundo do túnel – estavam muito ligados ao passado e viam o futuro muito negro. Eu, como cheguei depois da Revolução do 25 de Abril, não sofri as consequências, apenas em parte.” Foi com este espírito que Pestana fez os primeiros grandes negócios, primeiro com a venda de parte do Sheraton em time sharing, depois com a compra do Casino Park. E ainda com a compra dos antigos hotéis da Torralta. Ou seja, não tendo partido do zero, longe disso, Pestana teve o mérito, e o proveito, de investir quando os outros desinvestiam, o que lhe permitiu por sua vez fazer bons negócios e crescer. Uma estratégia aprendida com o pai, que comprava acções em baixa em épocas de crise social para depois as vender.

Pestana assistiu, ainda jovem, ao regresso dos turistas, primeiro, e depois ao desenvolvimento que acabou por chegar com a democracia e sobretudo com a adesão à CEE. “A partir da altura em que cheguei foi sempre a melhorar, sempre a melhorar. Eu via Portugal pela positiva, via as oportunidades, via os turistas que nos visitavam e diziam ‘que lindo que isto é, o serviço é óptimo, as pessoas são simpáticas’… enquanto os meus concorrentes diziam ‘não não, os turistas vêem isto mal, o serviço continua a ser mau’, ou seja, tínhamos duas ópticas opostas”.

Ainda hoje, o tom de Dionísio Pestana contrasta com o discurso dominante: “Sinto uma diferença muito grande em Portugal, para melhor. Quando se fala em crise agora, as pessoas não tem noção do que estão a dizer, esqueceram-se de como era muito difícil viver em Portugal nos anos 70, princípios de 80. Foram tempos muito difíceis.”

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Por Pedro Ornelas

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