Gorongosa – Moçambique

on Apr 1, 2010 in Lugares do mundo | No Comments

No parque que já foi conhecido como a Arca de Noé africana, Patrícia Brito não avistou nenhuma Fénix, mas viu como está a renascer um dos mais perfeitos templos mundiais da vida selvagem.

Nos álbuns de família lá de casa, algumas das minhas fotos favoritas são dos meus avós maternos, em pose de exploradores, a atravessarem um rio a vau, rodeados por crocodilos e hipopótamos. Essas fotos têm a data de 1972 e foram tiradas no Parque Nacional da Gorongosa, numas férias em Moçambique. Passados 38 anos, junto aos portões que marcam a entrada neste templo da vida selvagem, as expectativas de me cruzar com alguns dos “Big 5” (leões, rinocerontes, leopardos, elefantes e búfalos) são poucas, mas a emoção de me aventurar pelos seus habitats é tão grande como os 3700 quilómetros quadrados de floresta, savana e planície que tenho pela frente.

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Quando lhe foi atribuído o estatuto de Parque Nacional, em 1960, a Gorongosa registava 14 mil búfalos, 200 leões, 3 mil zebras e hipopótamos, 5500 gnus, 2200 elefantes e centenas de exemplares de outras espécies, entre pássaros, impalas, chitas, rinocerontes e animais cujos nomes não têm tradução no imaginário colectivo. Com mais predadores que o Parque Krueger, na vizinha África do Sul, e paisagens tão belas como as do Serengeti, na também vizinha Tanzânia, a Gorongosa recebia cerca de 20 mil visitantes por ano, incluindo estrelas de cinema como Gregory Peck ou John Wayne.

Durante a devastadora guerra civil que se seguiu à proclamação da independência da ex-colónia portuguesa (1975), e que durou 16 anos, este paraíso terrestre em estado puro foi abandonado à sua sorte e praticamente dizimado. Quando os directores do parque regressaram, 95 por cento dos mamíferos tinham sido caçados para alimentar populações famintas e extracção de marfim, ou tinham morrido de fome quando o equilíbrio de um dos mais perfeitos ecossistemas do planeta se quebrou. Para sobreviverem, os poucos elefantes que restavam tinham-se tornado noctívagos.

Renascer das cinzas

A salvação deste admirável mundo selvagem chegou com Greg Carr, milionário americano que, em 1998, criou a Gregory C. Carr Foundation, para se dedicar a actividades filantrópicas. Não muitos anos depois, em 2002, ao sobrevoar as espectaculares paisagens do parque situado no centro de Moçambique, Greg percebeu que a Gorongosa era a aposta certa para concretizar uma das suas ambições de vida: um projecto cujo maior desafio passa pela recuperação da vida selvagem, mas também pelo desenvolvimento humano das comunidades locais.

O primeiro passo deu-se em 2004, quando a fundação negociou com o governo moçambicano uma parceria – renegociada em 2008 por um prazo de 20 anos – e um investimento de 30 milhões de euros, para a co-gestão do parque e lançamento das respectivas infra-estruturas de sustentabilidade. Poucos anos depois, os frutos deste trabalho são já bem visíveis. Com a restauração da Gorongosa e a preservação dos habitats, os animais estão a voltar. Alguns foram oferecidos por parques vizinhos, outros comprados para reequilibrar o delicado ecossistema. Enquanto isso, as populações locais, cerca de 250 mil pessoas, beneficiam tanto de escolas equipadas com computador, como do ensino de técnicas agrícolas sustentáveis. O futuro, porém, está no ecoturismo. Por agora, são cerca de oito mil os visitantes anuais, mas quando o parque recuperar toda a sua biodiversidade e fizer parte obrigatória das brochuras das agências de turismo, esperam-se 100 mil visitas.

Sentada no alto da carripana com bancos em anfiteatro que me conduz pelo “quintal” de leões, gnus, pala-palas, elefantes, pelicanos ou cobras cuspideiras, quase me falta o fôlego para absorver todos os contornos, cheiros e sons que chegam ora da savana, ora da floresta, ora das planícies enlameadas que rodeiam as águas quietas do lago Urema. A contracção (estação seca) e expansão (estação das chuvas) sazonal do lago, localizado no centro do parque, é um dos elementos vitais do ecossistema, mas o que me fascina é a variedade de aves que por ali se passeiam, as cores exuberantes da savana incendiada pelo pôr-do-sol, a inexplicável sensação de solidão, os encontros ao acaso. Subitamente, o guia avista um pangolim, raridade absoluta que provoca entre os turistas suecos muitos “hus” e “has”. Já eu, na , condição dos ignorantes, julgo estar na presença de um papa-formigas viscoso.

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Por Patrícia Brito

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