Gorongosa – Moçambique
No parque que já foi conhecido como a Arca de Noé africana, Patrícia Brito não avistou nenhuma Fénix, mas viu como está a renascer um dos mais perfeitos templos mundiais da vida selvagem.
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Nos álbuns de família lá de casa, algumas das minhas fotos favoritas são dos meus avós maternos, em pose de exploradores, a atravessarem um rio a vau, rodeados por crocodilos e hipopótamos. Essas fotos têm a data de 1972 e foram tiradas no Parque Nacional da Gorongosa, numas férias em Moçambique. Passados 38 anos, junto aos portões que marcam a entrada neste templo da vida selvagem, as expectativas de me cruzar com alguns dos “Big 5” (leões, rinocerontes, leopardos, elefantes e búfalos) são poucas, mas a emoção de me aventurar pelos seus habitats é tão grande como os 3700 quilómetros quadrados de floresta, savana e planície que tenho pela frente.
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Quando lhe foi atribuído o estatuto de Parque Nacional, em 1960, a Gorongosa registava 14 mil búfalos, 200 leões, 3 mil zebras e hipopótamos, 5500 gnus, 2200 elefantes e centenas de exemplares de outras espécies, entre pássaros, impalas, chitas, rinocerontes e animais cujos nomes não têm tradução no imaginário colectivo. Com mais predadores que o Parque Krueger, na vizinha África do Sul, e paisagens tão belas como as do Serengeti, na também vizinha Tanzânia, a Gorongosa recebia cerca de 20 mil visitantes por ano, incluindo estrelas de cinema como Gregory Peck ou John Wayne.
Durante a devastadora guerra civil que se seguiu à proclamação da independência da ex-colónia portuguesa (1975), e que durou 16 anos, este paraíso terrestre em estado puro foi abandonado à sua sorte e praticamente dizimado. Quando os directores do parque regressaram, 95 por cento dos mamíferos tinham sido caçados para alimentar populações famintas e extracção de marfim, ou tinham morrido de fome quando o equilíbrio de um dos mais perfeitos ecossistemas do planeta se quebrou. Para sobreviverem, os poucos elefantes que restavam tinham-se tornado noctívagos.
Renascer das cinzas
A salvação deste admirável mundo selvagem chegou com Greg Carr, milionário americano que, em 1998, criou a Gregory C. Carr Foundation, para se dedicar a actividades filantrópicas. Não muitos anos depois, em 2002, ao sobrevoar as espectaculares paisagens do parque situado no centro de Moçambique, Greg percebeu que a Gorongosa era a aposta certa para concretizar uma das suas ambições de vida: um projecto cujo maior desafio passa pela recuperação da vida selvagem, mas também pelo desenvolvimento humano das comunidades locais.
O primeiro passo deu-se em 2004, quando a fundação negociou com o governo moçambicano uma parceria – renegociada em 2008 por um prazo de 20 anos – e um investimento de 30 milhões de euros, para a co-gestão do parque e lançamento das respectivas infra-estruturas de sustentabilidade. Poucos anos depois, os frutos deste trabalho são já bem visíveis. Com a restauração da Gorongosa e a preservação dos habitats, os animais estão a voltar. Alguns foram oferecidos por parques vizinhos, outros comprados para reequilibrar o delicado ecossistema. Enquanto isso, as populações locais, cerca de 250 mil pessoas, beneficiam tanto de escolas equipadas com computador, como do ensino de técnicas agrícolas sustentáveis. O futuro, porém, está no ecoturismo. Por agora, são cerca de oito mil os visitantes anuais, mas quando o parque recuperar toda a sua biodiversidade e fizer parte obrigatória das brochuras das agências de turismo, esperam-se 100 mil visitas.
Sentada no alto da carripana com bancos em anfiteatro que me conduz pelo “quintal” de leões, gnus, pala-palas, elefantes, pelicanos ou cobras cuspideiras, quase me falta o fôlego para absorver todos os contornos, cheiros e sons que chegam ora da savana, ora da floresta, ora das planícies enlameadas que rodeiam as águas quietas do lago Urema. A contracção (estação seca) e expansão (estação das chuvas) sazonal do lago, localizado no centro do parque, é um dos elementos vitais do ecossistema, mas o que me fascina é a variedade de aves que por ali se passeiam, as cores exuberantes da savana incendiada pelo pôr-do-sol, a inexplicável sensação de solidão, os encontros ao acaso. Subitamente, o guia avista um pangolim, raridade absoluta que provoca entre os turistas suecos muitos “hus” e “has”. Já eu, na , condição dos ignorantes, julgo estar na presença de um papa-formigas viscoso.
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Por Patrícia Brito


















