Godefroy de Virieu

on Sep 3, 2019 in Partida | No Comments

Godefroy de Virieu, o rosto por detrás do atelier Petit h da Hermès, é um designer atento e sensível, maravilhado com os mais pequenos e encantadores detalhes do mundo.

Entrar na Hermès do Chiado, no coração de Lisboa, é por si uma experiência sensorial, mas desta vez, numa sala privada transformada em loja de maravilhas, está Godefroy de Virieu, designer de produto que guarda orgulhosamente o seu tesouro. Este chama-se Petit h e é uma ideia lançada em 2010 por Pascale Mussard, tetraneta do fundador Thierry Hermès: “Pascale reparou que havia muito material que não era utilizado, sobrava da feitura de um pequeno saco, por exemplo, mas era belíssimo e ela guardava-o. Então começou a convidar designers e artistas para esse pequeno ateliê, o Petit h, para refletir nesses materiais e encontrar novas ideias. Tornou-se um laboratório de exploração criativa, que permite olhares diferentes, levar os artistas mais longe, em alguns casos ao estrangeiro, para conhecer o savoir faire de outro lugar e artistas com uma cultura e abordagens diferentes. Cria uma grande riqueza no mundo das ideias”, diz-nos, delicada e visivelmente orgulhoso enquanto nos encaminha. “É um cabinet de curiosités para um explorador que venha a Lisboa, como uma arca do tesouro”, explica, e passeamos por um verdadeiro labirinto pensado pela artista portuguesa Joana Astolfi “que lembra a própria arquitetura de Lisboa, com pequenas ruas e a ideia de descoberta, de viagem e de aventura”. Numa era em que se fala tanto de reciclagem, uma das maiores marcas de luxo reaproveita cada pedaço de material, “no seu máximo e no seu melhor. Fazemos um saco, mas também uma sardinha e uma bracelete – et voilà!”, sorri –, encontramos a tão portuguesa cortiça ou alusão a símbolos profundos da portugalidade. “Mais do que objetos de contemplação e admiração, queremos que sejam usáveis, manipuláveis, portáveis”, o que faz todo o sentido na definição de design de luxo moderno. “Sim, a máxima simplificação.”

 

Lisboa, Lisboa, Lisboa

Neste verão, o Petit h ficou na loja de Paris, na Rue des Sèvres, mas o seu diretor criativo não pára. “Viajo muito… pela Ásia, China, Hong Kong, agora Lisboa, depois Austrália e iremos a Singapura [de 22 de novembro a 15 de dezembro]. São muitas viagens, mas é muito bom”, diz num tom tranquilo. Godefroy de Virieu está no lugar certo, atento, sensível, esteta profundo. Corre mundo com este projeto, e de cada vez, em cada cidade, conta uma história diferente. Vive na capital francesa e quando sai é para ir “para um lugar muito bonito perto de Paris” ao qual é “muito apegado”, na Borgonha, ligada à história da sua família há muito tempo. Depois, como é casado com uma italiana que “tem a família toda lá, os pais são sicilianos e vieram para Parma”, leva as filhas pequenas a “Parma no Natal e à Sicília no verão [risos]”. “São um contraste, duas Itálias que funcionam de forma diferente, e isso é interessante. Aproveito para descansar, porque este projeto é superexigente, mas só aguento uma semana!”, sorri. Não é pessoa de viagens de aventura ou de subir a montanhas, mas esteve na Islândia e adorou fazer longas caminhadas. “Gosto muito de lugares onde as pessoas trabalham a terra, cuja cultura é autêntica e daquele país, seja na Ásia ou na Sicília. E adoro paisagens, estar na natureza, sem tempo, no meio do Sahara, por exemplo: és tu entre o céu e a terra, é muito poderoso. Da mesma forma que me encanta estar numa cidade – é diferente.”

A primeira coisa que faz quando chega a um lugar novo é entrar logo num café, para ter “uma perceção imediata, contacto com as pessoas que moram naquele país, para meter-me um pouco no seu diapasão. A seguir, caminho e perco-me, sigo as coisas, adoro a chance da descoberta. Não vou onde me dizem que tenho absolutamente de ir, antecipo logo uma deceção, gosto de sentir ter descoberto alguma coisa, isso sim é importante. Depois de ver como são as pessoas, há que ir, caminhar. Foi a primeira coisa que fiz quando cheguei”, sorri. Um dia antes, fugiu do centro e foi para Belém “ver o museu extraordinário que é o MAAT, tem uma arquitetura extraordinária, e vi as exposições, gostei mesmo muito. Depois os Jerónimos, que é uma visita très tracé, mas é lindo, e reforça a ideia que tens de um país virado para o mar: construir um mosteiro ali é muito belo. E sentes essa abertura ao mar e a outras culturas que não encontras noutros países, essa é a verdade, do norte para o sul, e serve várias passagens, é extraordinário, e eu descobri-o através desta viagem por Lisboa, genial. E escutar fado nos pequenos bares, é extraordinário, a música tem uma grande importância em toda esta ligação ao mar, torna-a em algo de très doux et très beau. Estou a adorar este país, verdadeiramente, é esta a minha ideia de viajar”.

Os criativos costumam ser curiosos, por isso é natural que Godefroy goste da ideia de viagem: “As viagens são a base da criação: movimentares-te. E este projeto é formidável para mim, porque não conhecia Lisboa, é uma oportunidade e estou a adorar descobrir a cultura e as pessoas, são qualquer coisa de completamente novo para mim. Eu sonhava vir a Lisboa e vim, e conheci pessoas incríveis, é o primeiro contacto com uma cidade onde sinto que há verdadeiramente coisas a descobrir.” E para o seu métier, viajar é pesquisar. “É nas viagens que captas as coisas que abrem o teu espírito, é básico, captas muito mais coisas quando viajas, tornas-te uma célula de captação de todos os objetos e detalhes e isso reflete-se na tua cabeça” E aprendeu na Hermès o truque de observar a quinquilharia de cada lugar: “A quinquilharia é um lugar cheio de detalhes onde aprendemos como vivem as pessoas, é uma espécie de lugar antropológico: aquele desenho, aquela coisa feita daquela maneira, são objetos que te fazem sonhar porque não estás habituado a vê-los chez toi e projetas-te numa art de vivre, une façon d’être do país onde estás. Para mim, é sistemático. É tomar um café e ir”, sorri.

 

Uma mala grande

É um designer de objetos, por isso é inevitável perguntar- -lhe que coisas traz das suas viagens: “Adoro levar objetos, os que encontro, amo. Os utilizados na vida quotidiana são, para mim, fundamentais, não sei se é uma formação ou uma deformação de designer. Gosto dos objetos pensados para um país, mas que podem ser usados noutro país, mas nunca foram ali pensados. Há uma coisa de que gosto em Itália, por exemplo, as torneiras, eles abrem um buraco e põem uma torneira em qualquer lado!”, risos. Godefroy traz copos, garrafas, objetos para o jardim, “de que me quero apropriar e com que quero viver: um saco feito de um material específico que é típico, porque tem uma bela forma ou boas proporções ou podes usar de diferentes maneiras.” E vestuário, sempre, “compro muita roupa, e de trabalho também”. O resultado é um conjunto de objetos decorativos, “muito muito lindo”, sorri.

“Aqui em Lisboa apaixonei-me por um pequeno galo [de Barcelos] feito em alumínio, à mão, dos anos 60 e percebi que era uma imagem icónica, com uma pátina frágil, muito bonito.” Para ele, um bibelot só faz sentido se for mesmo muito especial, por isso pensa bem no que significa antes de comprá-lo. “Mas também posso trazer um pedaço de madeira que encontrei na praia. Em Itália existem uns seixos que rolam com o mar e ganham formas diferentes e há um designer italiano que fez um livro sobre as suas diferentes formas, até criou uma linha, construir coisas com eles, são lindos, gosto muito.” É muito intuitivo, por isso quando viaja também não faz planos, “é dia a dia”. E anda sempre muito leve, “mas com uma mala grande”, ri-se. “Eu sei que parece uma contradição com o que acabo de dizer, mas é porque gosto de ter espaço se quiser trazer coisas”, sorri. Existe algum lugar que gostasse de descobrir ou a que quisesse voltar mais vezes? “Já não tenho necessidade de partir para muito longe, a viagem pode estar na minha cabeça e eu gosto muito de viajar na minha imaginação, uma viagem imaginária que pode ir longe, c’est pas mal. Às vezes não tem de ser uma viagem, basta ser uma inspiração.”

hermes.com

 

por Patrícia Barnabé /// foto Rip Hopkins

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