Gabriela Albergaria – O cultivo da arte

on Apr 1, 2015 in Embarque Imediato | No Comments

A viver há quatro anos em Nova Iorque, Gabriela Albergaria cria plataformas de relações entre o homem e a natureza. Representada pela Galeria Vera Cortês, em Lisboa, e pela Vermelho, em São Paulo, o trabalho da artista está em vários museus nacionais internacionais e é um work in progress onde as questões ambientais também se manifestam.  

Gabriela Albergaria por/by Vasco Colombo

Ter nascido e crescido em Vale de Cambra (entre Douro e Vouga) no tempo em que a cidade ainda era campo, talvez seja determinante na relação de Gabriela Albergaria com a natureza. A artista escolheu partir dos jardins e dos parques porque são fruto direto da relação do homem com o meio ambiente. “Os jardins eram o acesso mais fácil para perceber o que é a natureza neste contexto cultural. Já a fotografia digital surgiu [tem formação em Belas Artes – Desenho e Pintura] como uma espécie de continuação do que é o trabalho de desenho.” Isto tudo aconteceu nos anos 90. “Queria uma coisa que fosse a continuação da mão e do olhar. Com a câmara digital podia tirar meia centena de fotografias e no fim escolher apenas uma.” Em 1995 faz uma primeira série de fotos digitais a que chama: Tenho sete anos e o buxo dá-me pelos ombros. Inicia um novo processo de trabalho. E começa a fazer maquetes. “Transformei a sala no jardim da minha infância. Feito de memória. Era o jardim onde jardinava com o meu pai.” Estas recordações são sobretudo importantes enquanto experiência. “Quando comecei a fazer estes trabalhos não tinha consciência de ter começado a jardinar com o meu pai, é intuitivo. Não tive noção de que havia ali elementos da minha experiência pessoal.”

A sua aproximação à natureza coincide com uma aproximação à fotografia digital. “As fotos das maquetes com esse ambiente mais noturno, relaciono-as mais com uma ideia de memória”, dirá a Sérgio Mah num documentário sobre o seu trabalho.

O desenho só entrará na equação artística mais tarde. Gabriela estuda, visita, fotografa e desenha o objeto de estudo, depois leva esse material para o ateliê e em seguida elabora uma série de peças tentando misturar as várias linguagens. “Interessa-me aprender as várias linguagens da natureza, seja da agricultura, da jardinagem ou da biologia.”

A primeira vez que montou uma escultura a partir de árvores foi no Centro Cultural de Belém (2004) com Collect, transplantar, coloniser. “Quis trabalhar com a árvore e modificar-lhe a morfologia. Apercebi-me da existência de várias técnicas de manipulação das plantas, nomeadamente uma que é o enxerto. Aprendi a técnica com agricultores e depois importei essa linguagem para a escultura.”

A árvore da vida

Nunca desenhou árvores simplesmente pelo facto de serem bonitas: “há um sentido qualquer, são árvores que estudei. É a árvore ou o lugar que me chamam à atenção por qualquer razão”. O mesmo acontece com a escolha da temática dos parques. “Para mim é mais interessante perceber como controlas o mundo através da natureza, do que através de processos políticos. Por outro lado, passear por estes lugares permite-me uma certa reflexão, o isolamento, andar ou fazer trilhos nas montanhas.” Todas estas motivações estavam lá quando se propôs fazer uma residência artística no jardim de Wave Hill, no Bronx, em Nova Iorque, ou quando quis conhecer os parques históricos em Paris. “O teor político influi na escolha dos parques. Ao trabalhar a natureza, não são as questões românticas do século XVIII que me interessam, mas as questões sociais e de poder. Quero também perceber como é que uma árvore se altera ao longo de um ano. Então fiz uma peça que representa as quatro estações do ano.Gabriela fala do “Catálogo de cores das folhas de árvores recolhidas no Jardim Botânico de Brooklyn” que integrava a última exposição na galeria lisboeta Vera Cortês, intitulada Time Scales. “Foi esse estudo que me levou a trabalhar de uma forma abstrata com as cores do tempo que passa.”

Dos doze meses que passou em Paris, entre 2005 e 2006, resultou a exposição “Herbes Folles” (2006) na Vera Cortês e um livro homónimo. Na cidade-luz teve contacto com outra realidade artística. “Fiquei na Cité des Arts [uma residência artística] no Marais. Paris é uma cidade para andar a pé, na altura vivia na Alemanha e os pormenores climáticos são importantes para quem trabalha no exterior.”

Apesar de residir há quatro anos em Nova Iorque, Berlim continua a ser a sua cidade preferida. “É facílima. Enorme e ao mesmo tempo parece que estás numa quinta. Sentes também uma dinâmica de grande aldeia onde as pessoas se relacionam de maneira muito calma.” Foi ali que começou o nomadismo e foi ali também que descobriu um grupo de artistas cuja relação com a natureza era intensa, sem se fixarem no tema da paisagem. A aventura começou em 2000 quando, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, foi para a residência artística Künstlerhaus Bethanien, onde todas as semanas recebia a visita de galeristas e de curadores, berlinenses e dos quatro cantos do mundo. Ali, encontrou um campo muito próspero para desenvolver o seu trabalho. “Participei em vários projetos na paisagem que decorrem no Verão e que são uma espécie de sketchbook a três dimensões. Foi nessa altura que surgiram os enxertos, as ideias relacionadas com a terra e com as composições das coisas. É nesta época que se dá a mistura entre a história e as linguagens da jardinagem e da agricultura.”Do processo surgem a exposição Forking Paths, na galeria Vera Cortês, fruto de uma residência de artista no Jardim Botânico da Universidade de Oxford, a exposição Counting Seeds na Ermida Nossa Senhora da Conceição, em Lisboa,e o livro Duas Praças, Um Jardim Belém, Lisboa, que é uma espécie de guia onde sugere “várias formas de ver a natureza”.

O apelo do campo mantém-se. “Nós viajamos pelo menos duas vezes por ano para os parques nacionais que, apesar de selvagens, também são – embora não pareçam – bastante intervencionados pelo homem.”

No último ano trabalhou peças de dimensões consideravelmente pequenas que encontrou perto do estúdio em Brooklyn, para onde vai todos os dias. “Encontrei umas madeiras a flutuar no canal de Gowanus que é o mais poluído dos EUA. O contrassenso é que as casas à volta estão a ser alvo de especulação imobiliária. Este género de polémica interessa-me. Estes pedaços de madeira vêm com cimento agarrado. Há toda uma problemática de edução ambiental.” A descoberta resultou na peça “Planificações de 5 madeiras encontradas no Canal Gowanus, Brooklyn (NY)”, incluída na exposição Balanço da Árvore Exagera a Tempestade, na Galeria Vermelho, em São Paulo. Desta exposição outro trabalho que destaca é a peça “Endangered and Vulnerable”, onde, a partir de uma lista internacional de árvores em extinção, a artista criou uma xiloteca com desenhos monocromáticos de cada uma das madeiras das árvores que constam da lista.

Ultimamente Gabriela anda interessada numa temática lançada em Harvard e chamada Landscape Forensics, que consiste em “aprender a identificar na paisagem o que foi intervencionado humanamente e é impossível de descodificar a olho nu”.

A artista já não faz planos para o futuro. Sabe que, algures, um pauzinho de madeira poderá atravessar-se no seu caminho. “No início calculava o que ia fazer. Hoje o estímulo para produzir pode ser até uma pedra da calçada.” Se as considerações são fruto de uma certa maturidade perante o próprio trabalho, as temáticas acabam por vir ao seu encontro. Talvez porque esteja mais predisposta para as receber.

por Maria João Veloso foto Vasco Colombo

Arquivos

Para ver

A 18 de abril, Gabriela Albergaria inaugura uma exposição no Kunstverein Springhornhof da cidade alemã de Neuenkirchen. Trata-se de um centro de arte na paisagem que irá receber um simpósio no qual a artista terá uma peça permanente na floresta. “Uma espécie de tapete no chão que vai realçar o que foi o trabalho humano naquela paisagem no século XIX.” Em exposição estará também um conjunto de desenhos e de pequenas peças de escultura. 


 


http://springhornhof.de

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