Fundação Calouste Gulbenkian – O grande mecenas

on Jul 1, 2010 in Sucesso em Português | No Comments

Com um investimento de 110 milhões de euros em mecenato no ano de 2009, a Fundação Calouste Gulbenkian já leva 50 anos a fazer a diferença no panorama cultural, científico, educacional e assistencial português. Apesar disso, a maior fundação nacional tem uma vocação para “toda a humanidade”.

Mrs. Harrison e Cecil deixam-se embalar pelo movimento da barcaça ao sabor das águas calmas do Tamisa. O salgueiro ameniza o calor que se faz sentir nesta tarde de Verão. Os ramos frondosos e delicados curvam-se como que abraçando amorosamente mãe e filho. Dir-se-ia que a luz esplendorosa que emana do quadro de John Singer Sargent rasga novos horizontes, qual metáfora da Fundação que é sua guardiã.

No coração de Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian é um marco de modernidade, cultura, ciência, educação e beneficência. Estas quatro áreas estatutárias são os pilares de uma estratégia enquadrada na contemporaneidade.

“Aquilo que procuro nesta instituição, além do respeito pela sua matriz, é mais agilidade e mais atenção aos sinais dos tempos”, diz Emílio Rui Vilar, presidente da Fundação desde 2001, detendo o seu olhar nos ramos flexíveis do salgueiro.

O ambiente, o diálogo intercultural e as migrações são áreas transversais à  matriz da Fundação que têm vindo a crescer de importância nos tempos mais recentes. “A nossa preocupação perante a natureza dos problemas contemporâneos é intervir em áreas que, no fundo, têm a ver com a ciência e com a educação, mas também têm a ver com o desenvolvimento humano e até com a criação e a criatividade, visto que a inovação é hoje um factor a que a própria economia atribui importância primordial nos ganhos de competitividade”.

No cumprimento da sua vasta missão em prol do desenvolvimento da arte, da ciência, da educação, da integração e do desenvolvimento humano, a Fundação promove anualmente programas de apoio à investigação, exposições, concertos, edições, estudos, actividades pedagógicas, subsídios, prémios, bolsas de estudo, colóquios, conferências e dezenas de outras actividades.

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O estilo de pincelada rápida em vírgula e o tratamento da luz marcadamente impressionista de John Singer Sargent como que inspiram a gestão firme e criativa da Fundação. Contemplando esta obra da sua admiração, exposta num recanto junto à saída do Museu Gulbenkian, Emílio Rui Vilar, discretamente, prossegue: “As fundações têm o especial dever de procurar antecipar o futuro. Por isso, penso que cabe em especial à Fundação Gulbenkian dar atenção à profunda mudança que está a operar-se no mundo e que implica que a sociedade civil contribua com respostas para os problemas, visto que não podemos esperar que as soluções venham todas do Estado”.

Este homem de cultura, de perfil humanista, detentor de obra feita na gestão pública, nomeadamente na presidência da Caixa Geral de Depósitos, o maior banco nacional, investe na gestão da maior Fundação privada portuguesa todo o seu capital de saber. “Quer ao nível da responsabilidade individual, quer ao nível da responsabilidade colectiva das instituições da sociedade civil, as fundações têm um contributo a dar, porque são independentes, porque estão mais viradas para o médio prazo, porque não estão sujeitas ao ciclo do mercado nem ao ciclo político, e por isso estarão mais aptas a projectos de continuidade e de proximidade junto das pessoas”.

O fundador

O quadro impressionista de John Singer Sargent, do último quartel do século XIX, é uma das mais de seis mil peças do Museu Calouste Gulbenkian. Construído para receber a colecção de arte do grande financeiro arménio Calouste Sarkis Gulbenkian, foi inaugurado em 2 de Outubro de 1969.

O ecletismo da colecção, o refinamento e a perseverança na arte de coleccionar espelham o arménio culto e abastado que cresceu a olhar Istambul e que, desta porta do Oriente para o Ocidente, foi conduzido ao Reino Unido e, mais tarde, a Paris, onde aprimorou o gosto e o conhecimento das artes e do mercado internacional.

A cabeça do Faraó  Sesóstris III é um fragmento de uma estátua de corpo inteiro produzida há quatro mil anos. Feita em obsidiana, vidro vulcânico de grande dureza e fragilidade (muito difícil de talhar) é uma obra-prima do génio egípcio e uma das peças mais admiradas por Emílio Rui Vilar. “A qualidade da escultura e a capacidade de expressão são notáveis sobretudo se compararmos com o carácter estático deste baixo-relevo”, diz, apontando para a obra ao lado: um estudo para o retrato de um Faraó em calcário fino (305-200 antes de Cristo).

“A cabeça de Sesóstris revela o carácter e a personalidade firme do faraó”. Da mesma forma que a Fundação revela o carácter do fundador. “O senhor Gulbenkian era um homem do mundo, era uma pessoa que pela sua origem, pela cultura e pela sua intervenção fazia a ponte entre a cultura oriental e a cultura do Ocidente”.

Calouste Sarkis Gulbenkian nasce em 1869 em Scutari, Istambul, no seio de uma ilustre família arménia, com origens no século IV e cujos antepassados são os Princípes de Rechduni. Fixando-se em Cesareia da Capadócia (um dos berços do Cristianismo Oriental), adquirem o título nobiliárquico bizantino de Vart Badrik, que com a chegada dos otomanos ao poder no século XVI adquire a forma turca de Gulbenkian. Geração após geração, são mecenas das artes e dedicam-se a obra de beneficência, sempre com grande generosidade para com as comunidades arménias.

Com os primeiros estudos efectuados na Calcedónia, o jovem Calouste Sarkis Gulbenkian licencia-se em engenharia e ciências aplicadas, no Kings College de Londres, em 1889, com apenas 19 anos.

A viagem a Baku, actual capital da Arménia, aos 20 anos e os vários artigos escritos sobre o petróleo atraem a atenção do governo otomano, que o indigita para a elaboração de relatórios sobre os recursos do Império. É o início de um percurso coroadíssimo de êxito no mundo dos negócios petrolíferos e da alta finança, com importantes responsabilidades diplomáticas.

A Fundação

Emílio Rui Vilar pára agora em frente ao “Português”. “O Senhor Gulbenkian tinha um conhecimento profundo sobre tapetes orientais”, afirma. Este tapete (provavelmente) persa do século XVII em lã e algodão, com losangos concêntricos, decorado com flores, arabescos e palmetas, deve o seu nome às cenas marítimas onde se destacam uma embarcação com figuras trajando à europeia, que lembram a passagem dos portugueses pelo Oriente.

Em 1942, o Portugal onde Calouste Sarkis Gulbenkian se refugia, em busca da paz que falta numa Europa devastada pela guerra, é um país pacato e adormecido. Rendendo-se à hospitalidade com que Lisboa o rodeou, à pacatez social, ao sistema fiscal e à não interferência dos média, desiste de emigrar para os Estados Unidos da América.

A 20 de Julho de 1955 morre em Lisboa, com 86 anos. No seu testamento, escrito dois anos antes, cria uma fundação internacional com o seu nome,  sediada em Lisboa. Viria a ser instalada num edifício de notável qualidade de arquitectura moderna, rodeada por um luxuriante jardim, qual oásis para todos aqueles que o procuram descobrir.

O museu é apenas uma parte de um vasto conjunto que engloba ainda o Centro de Arte Moderna, a Biblioteca de Arte, a Orquestra e o Coro Gulbenkian, além de um parque no centro da cidade. O Instituto Gulbenkian da Ciência, classificado como um dos dez melhores espaços para investigação científica a nível europeu, situa-se em Oeiras.

“O senhor Gulbenkian certamente pensou a Fundação para toda a humanidade e por isso, nós temos uma boa parte da nossa actividade no estrangeiro, em Londres, em Paris, junto das comunidades arménias, nos países em desenvolvimento e em parcerias internacionais com outras fundações em domínios que vão da ajuda humanitária às questões da saúde global”, sublinha Rui Vilar.

O Centro Cultural Calouste Gulbenkian de Paris, o Serviço das Comunidades Arménias e a Delegação do Reino Unido são os pólos da actividade da Fundação no estrangeiro, participando na vertente internacional de temas contemporâneos.

O património

Olhando agora para o Retrato de uma Jovem (Florença 1485), Emílio Rui Vilar explica que o capital da Fundação provém do legado inicial de Sarkis Calouste Gulbenkian e das reservas que ao longo dos anos a Fundação foi constituindo. “Houve sempre uma valorização do património”, sublinha. Contas feitas pelo presidente, o património será hoje, em termos reais, três vezes maior do que o inicial.

O património activo total situa-se actualmente em 2,8 mil milhões de euros, dos quais dois terços provêm de investimentos financeiros e um terço de investimentos da indústria do petróleo e do gás.

Cumprir o seu papel de mecenas nas diversas vertentes em que está envolvida custou em 2009 à Fundação 110 milhões de euros. Com 38%, a arte colhe a maior fatia do orçamento. A educação é a segunda destinatária de verbas, com 27%. Seguem-se a ciência, com 20% e a beneficência, com 15%.

Numa época (finais do século XV) caracterizada pela penetração de valores humanistas na arte e pela difusão do retrato entre a burguesia, esta bela pintura de Domenico Ghirlandaio, exposta no Museu, revela uma vontade de fazer verdadeiro. De igual modo, a Fundação Calouste Gulbenkian é a luz que faz a diferença no panorama científico, educacional, cultural e assistencial num país europeu virado para o Atlântico e para África.

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por Almerinda Romeira

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