Frutolândia

on Jul 30, 2010 in Sucesso em Português | No Comments

O tempo é de cerejas, mas pela moderna fábrica da Frulact, na Cova da Beira, passam todos os dias várias toneladas de frutas da época. A qualidade dos produtos transformados e o arrojo dos empresários fizeram de um negócio familiar uma empresa de sucesso além-fronteiras.

Com os olhos ainda cheios pelo verde da serra da Gardunha, a surpresa espera-nos no virar da curva: um nevão parece cobrir a Cova da Beira. As cerejeiras floriram e as suas frágeis pétalas, ao caírem lentamente para a terra, lembram a neve que vislumbramos nos picos da serra da Estrela, lá ao longe. No vale, em pleno parque industrial da vila de Tortosendo, encontra-se uma das mais modernas fábricas europeias do sector agro-industrial e alimentar: a Frulact.

“É uma fábrica modelo!”, explica João Miranda, CEO deste grupo empresarial português de vocação fortemente internacional, líder em alguns dos mercados onde actua – Península Ibérica, Norte de África e Médio Oriente – e terceiro player em França, um dos maiores mercados europeus do sector e um dos mais exigentes.

Jogando na antecipação, a fábrica foi construída em 2007 para ter capacidade instalada que permitisse fazer face às necessidades do mercado francês, que a empresa pretendia ganhar. Ocupa 12 mil m2 de área coberta e está equipada com a mais avançada tecnologia existente. Mais uma vez, o investimento foi feito antes das operações de expansão. Garantida a proximidade com o produtor, uma vez que a Cova da Beira, na Beira Baixa, é um imenso pomar, havia que garantir a proximidade com o mercado e, por isso, foi adquirido, no mesmo ano, a empresa concorrente francesa Granger Bouguet Pau.

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Em contra-corrente

Quando o montanhista sente que vai resvalar para o vale glaciar, ao escalar os 1928 metros do Cântaro Magro, na vizinha serra da Estrela, não pára nem olha para baixo, lança a corda de segurança para o grampo superior e iça-se. O mesmo fez a Frulact. Em plena crise mundial de 2009, com uma baixa de cerca de 18% no sector dos lacticínios no que respeita aos segmentos de valor acrescentado, a empresa reforçou a sua posição no mercado francês, adquirindo a divisão GR6 ao grupo Kerry. Ficou, assim, detentora de uma plataforma industrial perfeitamente adaptada aos seus objectivos, o que lhe permitiu dar um salto de 35% na facturação total. “Hoje, o mercado francês representa mais de 50% do nosso volume de negócios, sendo a Frulact a empresa que obteve, de forma destacada, o maior crescimento nos mercados onde opera”, salienta o CEO.

O empenho na inovação e na competitividade, levou os 420 trabalhadores da Frulact – distribuídos pelas suas seis unidades produtivas, três em Portugal (Maia, Ferro e Tortosendo), uma em França, uma em Marrocos e a outra na Argélia –, a facturar 45 milhões de euros em 2009 e 60 milhões em 2010. Para 2011, estimam-se cerca de 70 milhões. Por trás destes resultados está um total de 50 milhões de euros de investimento.

Projecto familiar

Em 1987, o trabalhador de lacticínios Arménio Miranda, hoje Comendador da República Portuguesa e actual presidente do grupo, teve a ousadia e a visão de identificar como oportunidade de negócio a produção de preparados à base de fruta para as indústrias de lacticínios, bebidas, gelados e pastelaria industrial, e lançou as bases desta empresa com uma pequena unidade, quase artesanal, em Matosinhos, distrito do Porto. No início não eram mais de quatro pessoas e a polivalência era requisito fundamental. Quatro anos depois foram investidos três milhões de euros numa fábrica na Maia, que hoje serve de suporte ao nível de serviços para todos os mercados e unidades industriais do grupo.

“O projecto Frulact teve como mentor o meu pai. Com o seu know-how, com a sua forte experiência técnica e conhecimento do mercado criou um projecto familiar comigo e com o meu irmão, Francisco Miranda, que, seguindo as suas pegadas, se tinha formado na área dos lacticínios em França”, conta João Miranda.

À nossa frente, o morango laminado e devidamente acondicionado enche de cor e de aroma a linha de produção, que comporta três tanques de mistura e tem capacidade para produzir 2100 quilos de preparado de fruta por hora. Ao longo das diferentes épocas de colheita suceder-se-ão os mais variados frutos dos pomares da região, ou dos campos distantes dos dois hemisférios terrestres. Assim se garante produção em quantidade e com a qualidade que a higiene e a segurança alimentar, altamente valorizadas nesta empresa, permitem atingir.

“Temos operações que vão ao rigor farmacêutico”, salienta o director da fábrica, Arménio Arantes, 36 anos, 17 dos quais passados na Frulact, onde adquiriu experiência em todos os sectores de laboração, incluindo a qualidade e o desenvolvimento, antes de subir ao comando das operações.
Em Tortosendo, a Frulact gere 1200 matérias-primas alimentares e tem cerca de 650 referências de produto acabado. Ou seja, explica Arménio Arantes, “mesmo fazendo dez preparados aparentemente idênticos, eles serão todos diferentes, nem que seja no perfil do aroma, mais maduro, mais fresco, mais floreado….”

Em todas as unidades produtivas da Frulact foi implementado o lean manufacturing, criando oportunidades de melhoria constante e anulando as perdas e os desperdícios, acrescenta João Miranda.

Os preparados de fruta daqui saídos contribuem para o enriquecimento nutricional dos iogurtes, gelados, sumos e produtos de pastelaria que abastecem desde os expositores dos supermercados das grandes cadeias alimentares, até aos serviços de catering dos aeroportos, passando pelas pastelarias de bairro.

A secção de I & D está centralizada na unidade fabril da Maia e, através do estabelecimento de parcerias com universidades, tem desenvolvido diversos projectos, entre os quais se destacam metodologias para optimizar a qualidade dos frutos para utilização industrial, tecnologias de permuta térmica, métodos de detecção de pesticidas, desenvolvimento de corantes naturais para a indústria alimentar, preparados de fruta enriquecidos com isoflavonas, extractos de plantas e ómega 3, ou a extracção de compostos anti-oxidantes presentes no pedúnculo dos morangos.

Foi nesta vertente também, que já este ano, a Frulact apostou num novo projecto, o FRUTECH – Centro de Inovação e Tecnologia Agro-alimentar, que lidera, e no qual o Instituto Politécnico de Viana do Castelo detém uma participação de cerca de 30%. João Miranda explica: “É uma verdadeira aliança com o mundo científico, numa lógica de criação de conhecimento e consequentemente, de produtos e processos diferenciadores e inovadores, elementos fundamentais para maior criação de valor, e para nos situarmos sempre um passo à frente”.

Internacionalização

O encontro da Frulact com a Cova da Beira deu-se em 1998. Nesse ano, a empresa adquiriu a unidade industrial da Cooperativa de Fruticultores, que deu origem à sua segunda fábrica em território nacional. Ontem como hoje, pensou-se em desenvolver a relação com os produtores aumentando a segurança alimentar e melhorando a qualidade da matéria-prima. O objectivo é que o fruto das cerejeiras, agora em flor, chegue ao consumidor conservando as suas características organoléticas únicas: textura suculenta e aromática.

Esta contínua aposta na excelência permitiu a afirmação dos produtos e o ganho de mercados. A Espanha, no início de 1994, foi o primeiro passo numa estratégia de internacionalização, que prosseguiu com o objectivo de conquistar mercados no Norte de África e no Médio Oriente. Em 1998 foi instalada a primeira fábrica em Marrocos. Em 2007, a empresa reforçou e consolidou a sua posição com uma unidade na Argélia e outra em Marrocos com padrões de qualidade ao nível europeu, utilizando esta última para exportar para a Tunísia, Líbia, Egipto e outros países do Médio Oriente.

Como se isso não bastasse, integra a rede COTEC, que lhe atribuiu o prémio de Inovação 2007. “O grupo Frulact, enquanto projecto empresarial”, diz João Miranda, “assentou o seu percurso de indiscutível sucesso numa cultura em que se destaca o capital humano, uma inquestionável competência e paixão pelo que faz e uma forte cultura de inovação”.

Esta atitude valeu a João Miranda o prémio Entrepreneurship do INSEAD (2010), bem como, uma Menção Honrosa do Prémio International Entrepreneur of the Year da Ernst&Young e para a empresa, entre outros, o Troféu de Investimento da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Francesa (2007).

De olhos sempre postos no futuro, a Frulact, sem descurar a possibilidade de diversificação de produtos em mercados europeus, aponta para a expansão para lá do Atlântico: América do Norte, Centro e Sul e, rumando a sul, na continuação da sua expansão ao longo do continente africano.

“Quer no imediato quer no curto prazo, a Frulact pretende consolidar os investimentos feitos”, salienta João Miranda, adiantando que a empresa não ficará, no entanto, indiferente às janelas de oportunidade que surjam nos mercados, principalmente, nos emergentes, que são os que dão mais hipóteses e garantias de crescimento.

As orientações estratégicas de base estão definidas. Agora é necessária persistência, inovação e proactividade para alcançar a meta, virtudes válidas, tanto no mundo empresarial, como para fazer a subida sinuosa à Torre, no cimo da serra da Estrela, circundada pelas cerejeiras agora em flor, mas que dentro de alguns meses irão alimentar a linha de produção de Tortosendo, com os seus saborosos frutos vermelhos.

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por Almerinda Romeira

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