Frankie Chavez em Caldas da Rainha – Da noite para o dia

on Aug 1, 2015 in Embarque Imediato | No Comments

Duas noites fora da caixa numa terra pacata. Levámos o músico Frankie Chavez a viver o Caldas Late Night, um evento cultural atípico numa das cidades mais tradicionais do Oeste. O resultado? Uma vontade imensa de repetir tudo. De fio a pavio.

Frankie Chavez no Parque Dom Carlos I

Ele diz que as suas músicas são “histórias de quando a mente vai viajar”. “És um poeta?” “Sim, um poeta do Dafundo”, responde a rir Frankie Chavez, músico de Lisboa com um pé no mundo.

Se a viagem que estamos prestes a encetar vai inspirar algum novo tema musical, ainda está por descobrir. Para já, uma certeza: estamos a caminho das Caldas da Rainha para assistir a um dos eventos mais insólitos do país, aproveitando para revisitar a cidade termal que é um dos mais importantes centros artísticos do Oeste.

Antes de nos perdermos pelas ruas, deixamos as malas no Rio do Prado, o nosso refúgio para estes dias. E que refúgio! Camuflado pela vegetação que lhe cobre fachadas e telhados, este eco-resort é uma declaração de amor à natureza e ao design. Daqui saltamos para o Meia Tigela, restaurante de Isabel Claro e Pedro Calado, parceiros nos negócios mas, sobretudo, na vida. Neste lugar, comida e cerâmica andam de mãos dadas ou não fosse Isabel – conhecida como Bolota – ceramista de alma e coração. As peças da sua autoria enfeitam as paredes, vitrines e também as mesas. “Convívio e partilha são os lemas da casa”, diz ela enquanto nos apresenta a carta onde, além dos costumeiros pratos para um, existem tábuas pensadas para ser divididas por duas (ou mais) pessoas.

Partilhamos os queijos e as compotas, as entradas crocantes, a salada à moda do Meia, as lapas que sabem ao mar dos Açores e a tábua que tem o travo exótico da Índia. E ao sabor delas Frankie vai partilhando o que tem sido o seu caminho, antes e depois da música. Começa por esclarecer o nome de palco: “O meu nome é Joaquim Francisco Chaves, mas os meus amigos tratam-me por França. Certo dia um amigo sugeriu que eu arranjasse um nome artístico, ‘algo que possa soar bem também lá fora’, disse ele. Na brincadeira anglicizei o meu nome e saiu Frankie Chavez. No dia seguinte esse meu amigo já tinha criado uma conta de facebook e um myspace com o nome”. Frankie toca guitarra desde os nove anos e faz surf desde miúdo. Em Itália, onde anda a dar que falar, a Rolling Stone transalpina apresenta-o como ‘músico surfista’ e de facto pode dizer-se que foi depois de “The Search”, tema lançado em 2009 para musicar o evento que marcou o regresso do circuito mundial de surf a Portugal, que a carreira musical do gestor de marketing descolou. A estocada final nos nossos já satisfeitíssimos palatos chega à mesa pelas mãos de Bolota – as suas sobremesas são a prova de que não é só na roda de oleiro que ela é artista, também o é na roda dos tachos. Agora sim, estamos prontos para o Caldas Late Night.

Noites longas

Há gente aos magotes pelas ruas. De mapa em punho, a turba vagueia de casa em casa, de largo em praça, de capela em loja. O Caldas Late Night (CLN) é o responsável pelas noites mais animadas do ano nas Caldas da Rainha. Nascido há 19 anos, pelas mãos dos estudantes da Escola Superior de Arte e Design, o evento é uma forma de os alunos mostrarem à cidade e ao país aquilo que fazem dentro e fora das salas de aula (ver caixa).

O slogan deste ano diz “O Caldas morreu. Viva o Caldas!” e há elogios fúnebres um pouco por toda a parte. Na rua das montras – a Baixa lá do sítio – um pacman projetado na calçada persegue os transeuntes. Na Glory Bound Tattoo Parlour, mais de 80 pessoas hão de gravar o símbolo do evento – uma casinha com um x ao centro – no corpo. Na Ermida de São Sebastião há desenhos e pinturas para ver ao som de um DJ set. Depois há as casas dos estudantes, que têm as portas abertas de par em par para quem quiser entrar e ver o que prepararam. Não estamos certos se é mito urbano ou não, mas diz-se que nas primeiras edições do CLN houve estudantes que venderam obras que nem pãezinhos quentes.

A música vai-se fazendo ouvir pelas ruas. É que Caldas da Rainha não é apenas uma incubadora de artes plásticas, é também uma cidade musical. Perguntamos a Frankie se por acaso se lembra de Tina and the Top Ten. “Claro que sim! Grande banda dos anos 90 liderada por João Paulo Feliciano. São daqui?”. Sim! Tal como Gomo, Red Beans, Bass-off, RIDE – o DJ que não para de somar sucessos – e os Democrash, que amanhã hão de levar ao delírio umas quantas centenas de pessoas. Para já paramos em frente a um café marroquino onde uma banda de miúdos está a rebentar com a escala do rock. Frankie demora-se a olhar pela janela, já que lá dentro não cabe nem mais uma palha. Está francamente impressionado. “É assim que tudo começa”, vaticina.

Caldas Late Night

Também nos Silos Criativos, antigos contentores de cereais transformados em espaço de co-op, há música. Ao som de um cover de “Come Together”, dos eternos Beatles, que Frankie também gravou, entramos para ver mais exposições e performances. Uivo e Carolo são alguns dos que ocupam o rés-do-chão do complexo com trabalhos de desenho e pintura. No terceiro andar, três estudantes seminus participam numa sui generis performance. Cá fora a música continua e Frankie, meio embasbacado com tudo, só consegue verbalizar: “Isto é mesmo genuíno, não consigo imaginar uma réplica disto em nenhum outro lugar”.

Dias pacatos

Acordamos cedo para tomar o pequeno-almoço com a calma que o Rio do Prado pede, escutando o coaxar das rãs e o silêncio, que aqui é de ouro. Só depois cumprimos o ritual sagrado de qualquer caldense que se preze: ir à Praça da Fruta ao sábado de manhã. Mas antes, é obrigatório tomar um café no Central sob o alto patrocínio de um mural de Júlio Pomar datado de 1955. Só então ziguezagueamos entre os toldos coloridos da praça que é o único mercado hortofrutícola diário do país e que mantém o seu espírito praticamente igual desde o começo do século XIX. De cesta ao ombro, o músico aproveita para abastecer a despensa de frescos e das tradicionais cavacas das Caldas e ainda pondera juntar mais uma boina à sua coleção.

Frankie Chavez na Praça da Fruta

A cerâmica, que apreciamos em algumas bancas, é uma das coisas que dão fama à cidade. Há a cerâmica naturalista de Rafael Bordallo Pinheiro (lá chegaremos!) e também a malandra, que mina as vitrinas das casas de artesanato tradicional. E não podemos esquecer a utilitária e a decorativa, das quais encontramos bons exemplos na “loja de coisas simples” A Venda. A loiça do projeto Estúdio reedita modelos da extinta fábrica SECLA e o ateliê Laboratório de Estórias anda nas bocas do mundo por conta de peças criativas como o Corvo Malandro. Na loja não faltam também brinquedos, boa parte deles musicais. A brincar, Frankie arrancou de uma guitarra para miúdos o famoso riff de “Thunderstruck” dos AC/DC.

Embalados pelo ritmo, seguimos para o berço da cidade, o Largo do Hospital Termal, que é um dos hospitais termais mais antigos do mundo. Diz a lenda que Dona Leonor, mulher de El Rei Dom João II, ia a caminho da Batalha quando viu várias pessoas a banharem-se numas águas de forte odor. Perguntou-lhes o porquê do banho e ao saber que o faziam para se curarem das suas maleitas, seguiu-lhes o exemplo e também ela se curou. No ano seguinte, a Rainha fundou o Hospital que apesar de agora só funcionar ocasionalmente não deixa de ser o responsável pela integração da cidade na rede europeia de cidades termais.

Passando por um admirável céu de vidro, eis-nos no Parque Dom Carlos I. Não exageramos se dissermos que está no top dos mais belos parques urbanos do país. A sua imagem de marca são os pavilhões desenhados no século XIX por Rodrigo Berquó, que os criou como balneários do Hospital. Acabaram por servir todos os propósitos, menos esse. Foram quartel, liceu, biblioteca e até porto seguro de uma comunidade de bóeres fugida da África do Sul no início do século XX. Mas há mais tesouros neste parque. Há o lago onde se pode passear de barco a remos, campos de ténis, parque infantil, coreto e até uma área de mata. Mas não há maior bem material nos seus domínios do que o Museu Malhoa, casa forte de boa parte do espólio de José Malhoa, pioneiro da pintura naturalista em Portugal e filho pródigo da cidade.

E se Malhoa nasceu e cresceu nas Caldas, outro naturalista famoso por estas bandas tornou-se caldense honorário já homem feito. Rafael Bordallo Pinheiro, ilustrador, caricaturista e jornalista, foi também ceramista e aqui fundou a sua fábrica de faianças – sim, aquela que faz os pratos em forma de couve, o famoso Zé Povinho e também as andorinhas de loiça que esvoaçam pelos quatro cantos do mundo. Mais uma vez, Frankie não resiste a abrir os cordões à bolsa e a levar para casa algumas lembranças.

A cidade ainda tinha muito mais para nos oferecer. Museus, por exemplo, é coisa que não lhe falta. Mas o sol empurra-nos para a beira-mar. Frankie trouxe a sua fiel escudeira de fibra de vidro e está com vontade de surfar na praia que banha as Caldas. Fazemos os oito quilómetros até à Foz do Arelho enquanto o diabo esfrega um olho mas o mar não está de feição para o surf. Até podíamos ter ficar um pouco tristes, mas não quando temos a lagoa de Óbidos à mão de semear. O imenso plano de água que serve de poiso a flamingos e de parque de diversões aos entusiastas de desportos náuticos é um verdadeiro oásis. A Escola de Vela da Lagoa está à altura destes predicados. Sentamo-nos abrigados da nortada entre pinheiros e catamarãs que descansam em terra e pedimos um almoço leve. Isabel e Philippe Dabadie os pais da escola desafiam Frankie a experimentar kite, windsurf ou qualquer outra das modalidades que ensinam, mas o desafio cai em saco roto. O músico chegou ontem de uma viagem relâmpago a Barcelona que se colou a uma mini-tour em Itália. Mal aterrou trouxemo-lo para aqui e o Late Night fez com que se deitasse tarde. Preguiçar é o que mais lhe apetece.

Escola de Vela da Lagoa

Entre outras coisas, Frankie vai falando do futuro e dos temas que já tem na forja para um próximo trabalho discográfico. Conta-nos sobre as suas colaborações com bandas e músicos pouco conhecidos mas muito talentosos – como as doces vozes de Emmy Curl e Erica Buettner ou “a sonoridade única dos fantásticos Prana” – e assegura que o folk, o blues e o rock hão de continuar a ser a âncora da sua música. Pena que a guitarra tenha ficado em casa porque dias assim tão bem passados pedem sempre banda sonora à altura e a música de Frankie Chavez é daquelas que nos deixa a viajar sem sair do lugar.

por Maria Ana Ventura fotos João Carlos

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Bio

No palco, Frankie Chavez. Na vida, Joaquim Francisco Chaves – França para os amigos. Começou a tocar guitarra aos nove anos e nunca mais parou. Estudou gestão, fez Erasmus em Barcelona e um mestrado em marketing na Austrália. Chegou a integrar os Toranja no começo da banda e apresentou-se como França e os Beringela Amarela. Mas foi como one-man band que Frankie Chavez começou a dar que falar. Em 2009, já com alguns temas originais no bolso, foi convidado para desenvolver a banda sonora para o Rip Curl Search, o evento que marcou o regresso do circuito mundial de surf a Portugal. Pouco depois, a convite do radialista Henrique Amaro, gravou meia-dúzia de temas para a NOS Discos. Foi então que pôs a vida profissional em standby e se tornou músico a tempo inteiro. Escreve, compõe e interpreta os seus temas, que viajam pelos blues, o folk e o rock. Com três discos gravados – o homónimo para a NOS Discos, Family Tree e Heart and Spine – já atuou no México, EUA, Canadá, Alemanha e Itália. Adora viajar, surfar e até já deu cartas no rugby e no boxe. Se quiser vê-lo ao vivo este mês saiba que vai atuar dia 7 nas Festas do Mar, na ilha do Faial, Açores, e no dia 9 no palco do MEO Sudoeste, na Zambujeira do Mar. Siga as suas andanças no Instagram, Facebook e site oficial.

www.frankiechavez.com

www.facebook.com/frankiechavezmusic

www.instagram.com/frankie_chavez

Caldas Late Night (CLN)

Evento cultural, artístico e recreativo nascido em 1997 pelas mãos dos estudantes da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, o CLN é fruto da vontade dos alunos em expor os seus trabalhos e mostrar os seus talentos. E assim, de há 19 anos para cá, sempre em maio, tomam a cidade de assalto durante dois dias e fazem dela uma imensa galeria ao ar livre onde acontecem exposições, performances, instalações, projeções de vídeo e tudo o mais que a imaginação permitir. Além de espaços públicos os visitantes são também convidados a entrar em casa dos alunos para ver os seus trabalhos e atuações.

www.caldaslatenight.com

Meia Tigela

Madeira reciclada, mobiliário restaurado, peças dignas de museu resgatadas dos baús e outras feitas à medida do lugar. O Meia Tigela é um patchwork de momentos criativos, tanto à mesa como fora dela. Destaque para as tábuas pensadas para serem divididas pelos comensais – a indiana é um delírio de cores e sabores, a de mariscos uma ode ao mar português, a vegetariana uma alternativa muito apreciada e a de hambúrgueres é talvez a que tem mais saída. Para fazer pendant com as boas surpresas que saem da cozinha, Bolota desenvolveu uma série de peças para levar à mesa, “porque os olhos também comem”. Convém acrescentar que, a pedido, podem ser preparadas refeições isentas de glúten ou adaptadas a outros regimes alimentares específicos.

Hemiciclo João Paulo II, 9ª, Caldas da Rainha \\\ +351 262 833 173 \\\ www.facebook.com/meiatigelarest

Rio do Prado

Quem o vê da rua, ou melhor, quem não o vê da rua… está longe de imaginar que mesmo à beira da lagoa de Óbidos há um hotel onde 15 suites são uma espécie de bunkers de luxo camufladas pela vegetação. Um hotel amigo do ambiente onde não faltam lagos, uma estufa onde cresce de tudo um pouco e uma piscina onde apetece ficar de molho o dia inteiro. A decoração de interiores também leva à letra a ecologia, já que quase tudo é feito a partir de lixo florestal e de materiais reutilizados – note-se que a decoração, como tudo neste hotel, é da responsabilidade das criativas mentes dos seus donos: Telmo Faria e Marta Garcia. O restaurante do hotel, o Maria Batata, presta uma ode à cozinha portuguesa e aos produtos colhidos na hora. As bicicletas para alugar, os iPads para uso dos hóspedes, as massagens de relaxamento e o flutuário do Black Spa são alguns extras de luxo. O incontrolável desejo de voltar é o único efeito secundário.

Rua das Poças, Arelho, Lagoa de Óbidos \\\ +351 262 959 623 \\\ www.riodoprado \\\ A partir de €150

Contactos úteis

Escola de Vela da Lagoa \\\ Rua do Penedo Furado, Foz do Arelho \\\ www.escoladeveladalagoa.com

Museu Malhoa \\\ Parque Dom Carlos I \\\ +351 262 831 984 \\\ www.facebook.com/museujosemalhoa

Fábrica/Museu de Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro \\\ Rua António Oliveira, 28 \\\ +351 262 839 380 \\\ www.bordallopinheiro.com

Café Central \\\ Praça da República, 69 \\\ +351 262 838 787 \\\ www.central-caldas.com

A Venda \\\ Largo Dr. José Barbosa, 8 \\\ +351 262 833 215 \\\ www.shop-avenda.com

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