Fernando Pimenta – Sem parar

on Jan 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Fernando Pimenta, o mais galardoado canoísta português, rema em direção ao ouro olímpico, pronto para conquistá-lo em Tóquio em 2020. É a única medalha que lhe falta.

Não interessa se estamos em pleno verão ou no pico do inverno, nem a temperatura que marca o termómetro, porque se é dia de treino o mais certo é encontrar Fernando Pimenta sentado no caiaque com a pagaia na mão nas geladas águas do rio Lima, no norte de Portugal, ou no Centro de Alto Rendimento de Montemor-o-Velho, perto de Coimbra, ou nas águas mais temperadas do centro de treinos na Cidade do México. E se não estiver no caiaque, estará a andar de bicicleta, a dar braçadas numa piscina, a correr em estrada ou a fazer preparação física no ginásio. “A canoagem é uma modalidade muito exigente, é uma modalidade outdoor que é praticada o ano todo e para se conseguir ter o melhor desempenho necessitamos de enfrentar as condições rigorosas, quer de inverno quer de verão”, diz o campeão do mundo, tricampeão da Europa e medalhado olímpico em canoagem. São 11 meses de treino por ano, com mais de 200 dias de estágios, fazendo entre dois e quatro treinos diários, com direito a duas tardes de descanso por semana. “Às vezes dá-me vontade de chorar, mas é de [chorar a] rir, porque vê-se claramente que as pessoas não têm noção do que é desporto, do que é passar um inverno completo dentro de um rio, acordar às sete para fazer treinos de natação, ir para o rio com dois ou três graus de temperatura”, disse durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, citado pela Agência Lusa. “É duro? É, mas vale a pena”, reforça agora numa entrevista concedida por e-mail a partir do México, onde está a fazer um dos primeiros estágios de preparação para os Mundiais de 2019, em Szeged, na Hungria. Será mais um dos seus momentos de tudo ou nada: o resultado que conseguir ditará a presença ou afastamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Aos 29 anos, o atleta sabe que “é impossível estar na alta competição sem sacrifícios”, ainda que já encare alguns “como um modo de vida”: alimentação variada e cuidada, respeitar e ter horas de descanso certas. Mas o pior é estar longe da família e amigos “durante longos períodos”. “Toda a rotina que envolve os treinos leva-nos a ter de abdicar em grande parte da vida social. Custa muito, mas estou focado nos meus objetivos e sei que tudo tem o seu tempo.” Para já, é notório que a renúncia a uma vida normal compensa. Em agosto, o presidente da Federação Portuguesa de Canoagem reconhecia que Fernando Pimenta é “o expoente máximo da nossa geração dourada da canoagem”.

 

Objetivo: Tóquio

Em casa, em Ponte de Lima, tem as 82 medalhas que já conquistou por Portugal, as últimas das quais nos Mundiais de 2018, que aconteceram em Agosto em Montemor-o-Velho, onde se sagrou pela primeira vez campeão do mundo em K1 1000 metros e repetiu o ouro em K1 5000. Tem “um sabor especial por terem sido obtidas em Portugal”. Foi, aliás, um “momento único”, que o deixou “a tremer das pernas” quando subiu ao pódio e nas bancadas milhares de pessoas gritavam o seu nome. Fernando está habituado a ser mimado pelo público. Em 2012, depois de vencer a medalha de prata com Emanuel Silva em K2 1000, o povo saiu às ruas de Ponte de Lima para receber o atleta vindo de Londres.

Nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro viu fugir o pódio devido às condições da prova realizada na Lagoa Rodrigo de Freitas, naquele que reconhece ter sido “o pior momento de sempre”. “Terminei a prova e não queria acreditar no que tinha acontecido, fiquei sem saber o que fazer e como reagir, fiquei como que em estado de choque”, recorda, acrescentando que, apesar de lhe ter custado “muito ultrapassar esse momento”, acabou por fazer o que faz sempre: “Normalmente a seguir a uma prestação menos conseguida colocamos novos objetivos… Começo logo a trabalhar para os conseguir concretizar sem baixar os braços e seguindo em frente.” No Rio de Janeiro seguir em frente significou começar a pensar em Tóquio 2020.

Ganhar a medalha de ouro na maior prova desportiva do globo é neste momento o seu principal objetivo. Até porque é a única que lhe foge. “É sabido que para qualquer atleta que esteja a competir numa modalidade olímpica e que já tenha conseguido medalhas internacionais o grande sonho e objetivo é tornar-se campeão olímpico.” Pimenta está convencido que o trabalho e sacrifício vão compensar e a fasquia está muito elevada. “Não é arrogância, mas confio muito no meu trabalho, no meu treinador. E o meu clube, o [Sport Lisboa e] Benfica, dá-me a estabilidade para que possa ter a ambição de querer ser o melhor atleta português de sempre.” E o atleta já mostrou que tem determinação, foco e disciplina para ultrapassar qualquer desafio.

Habituado a competir e a ganhar em provas individuais e coletivas, não tem preferências quanto a remar sozinho ou em equipa. “Gosto de competir individualmente pois só dependo de mim e só dependo do trabalho que fiz até aí, mas também gosto de estar nas embarcações coletivas pois motiva-me competir ao lado dos meus colegas por uma meta comum”, diz, lembrando que as provas coletivas obrigam a que todos estejam “a 100% e focados no mesmo objetivo”.

 

Desde 2001

Num mundo em que as grandes estrelas do desporto estão em modalidades que movimentam multidões, como o futebol, Fernando Pimenta sabe que é acarinhado na cidade onde nasceu e pelo país. Além das medalhas conseguidas nos eventos desportivos, tem em casa três comendas atribuídas pela Presidência da República de Portugal, entre elas a Ordem de Mérito e de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. “Se este reconhecimento não é o melhor, é certamente um dos melhores, sinal que o país respeita e valoriza o trabalho realizado.”

Há anos que é assim. Começou por brincadeira, durante as férias de verão de 2001, como uma forma de “passar o tempo” e fazer amigos. Naqueles tempos, eram mais as vezes que virara o caiaque do que mantinha o ritmo das pagaiadas, e invariavelmente ficava em último. Mas insistiu pelo prazer que tinha na companhia dos amigos e acabou “por ser convidado a integrar a equipa de competição do clube”. “A partir desse momento, o gosto pela canoagem não parou de crescer e ganhar força em mim.” O treinador do Clube Náutico de Ponte de Lima – que foi o seu até março de 2018, antes de assinar pelo Sport Lisboa e Benfica – era Hélio Lucas, que ainda hoje é a pessoa que mais tempo passa com Fernando Pimenta.

Sem nunca imaginar que poderia fazer do caiaque e da pagaia a continuidade do seu corpo, “só depois de conquistar os primeiros títulos internacionais é que [começou] a pensar mais seriamente em ser atleta de alta competição”. Estávamos em 2005 quando chegou ao ouro no Festival Olímpico da Juventude Europeia, em K4, nos 500 metros. Tinha 15 anos e cantou no pódio o hino nacional, o que voltaria a fazer dois anos depois consagrando-se campeão da Europa de juniores e Sub23, em K1, 1000 metros. Mas teria que esperar mais cinco anos para perceber que poderia fazer da canoagem um modo de vida. “Terá sido precisamente em 2010, quando consegui integrar o projeto olímpico do Comité Olímpico de Portugal”, altura em que passou a receber uma bolsa através dos resultados internacionais alcançados.

Fernando teve duas falsas partidas no ensino superior antes de perceber que o melhor era dedicar-se totalmente à alta competição. Frequentou Fisioterapia na Universidade de Coimbra, em 2008, morando na residência universitária de Montemor-o-Velho. Ficou-se pelo primeiro ano, quando tomou consciência de que não conseguia aliar os horários de estudo com os treinos e competições. Mas como não é de desistir facilmente, ainda frequentou Reabilitação Psicomotora na Universidade Fernando Pessoa, em Ponte de Lima, acabando por “colocar os estudos em pausa para [se] dedicar a 100% ao desporto”. Promete regressar aos anfiteatros da universidade, porque “gostava de tirar um curso superior e depois continuar, de certa forma, ligado ao desporto”, mas num tempo em que há canoístas “que conseguem medalhas em Jogos Olímpicos com quase 40 anos”, diz que esse futuro está distante, esperando ter ainda oito a dez anos de competição pela frente. “Ainda não é algo que que me preocupe muito, pois estou concentrado no presente, no meu treino, no meu clube, no meu país.” Está, acima de tudo, com os olhos em Tóquio, com a convicção de que regressará de lá com uma medalha de ouro.

slbenfica.pt/modalidades/canoagem

 

por Hermínia Saraiva

Arquivos

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.