Felicidade extrema

on Dec 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

A indústria da auto-ajuda não passa da outra metade do neoliberalismo económico.

Estamos habituados a aceitar a procura de felicidade como objetivo de vida, mas pode ela também ser uma ideologia extremista? Segundo Edgar Cabanas e Eva Illouz em Manufacturing Happy Citizens (Polity Press) a resposta é sim. Para os autores, vivemos em sociedades onde parece não existir forma de escapar à tirania da felicidade. É o que parece indicar a indústria que vale mais de 12 mil milhões de dólares em livros de auto-ajuda, conferências, vídeos, talk-shows matinais e formações promovidas por empresas, recorrendo a especialistas em felicidade, a “psicólogos positivos”, a “economistas da felicidade” e gurus do autodesenvolvimento.

Através de fundações internacionais e grandes empresas, são cada vez mais os “especialistas” que sugerem políticas públicas, programas escolares e que mudanças devemos introduzir no quotidiano para levarmos uma vida mais bem-sucedida, mais significativa e mais saudável. Mas será esta agenda de felicidade realmente positiva? Cabanas e Illouz demonstram como isto originou uma nova e opressiva forma de mecanismos de controle social, na qual a ideia de felicidade se tornou central para uma cultura de culpa em que as desigualdades estruturais são transformadas apenas em déficites psicológicos dos cidadãos.

A indústria da felicidade fala-nos sobre as pequenas mudanças que podemos fazer para atingir uma existência feliz. No entanto, a ideia de que a única maneira de melhorar as nossas vidas é trabalhar para produzir melhores versões de nós mesmos é perigosa. Se a felicidade individual tende a centrar a culpa da falta de mobilidade social nos indivíduos e não nas políticas públicas, já os designados “índices de felicidade” aplicados a países têm funcionado, essencialmente, como cortinas de fumo para ocultar deficiências políticas e económicas estruturais. Isto é, desviar a atenção de indicadores socioeconómicos de bem-estar mais objetivos e complexos, como redistribuição de rendimentos, desigualdades materiais, segregação social, desigualdade de género, corrupção e transparência, auxílios sociais ou taxas de desemprego.

Essa ideologia funciona como a outra metade do neoliberalismo económico, isto é, um projeto para remodelar as mentes e os corações das pessoas. Pois, se estivermos infelizes a culpa não é da sociedade, mas nossa. Será apenas produto de fatores genéticos, cognitivos ou emocionais e não de fatores externos como a educação e o acesso a recursos materiais, negando a importância das condições sociais na formação da nossa felicidade.

 

por Gustavo Cardoso

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