Faro – Babel do sul

on Feb 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

A capital do Algarve está em agitação cultural e turística. É uma alternativa sedutora às praias mais quentes de Portugal. Marco Lopes, diretor do museu da cidade, faz-nos companhia.

Os teatros enchem, o principal museu é um caso de sucesso, a comunidade de artistas contemporâneos expande-se, a vida musical é intensa, há um circuito irresistível de arte sacra, o centro histórico é um monumento vivo, a Baixa comercial promove bom gosto, novos restaurantes combatem lugares comuns gastronómicos. Este é o Sul de Portugal não óbvio. É a capital da região, Faro, em evolução cultural e urbana, entusiasmada com tudo o que possa acrescentar à redundante combinação sol & praia do Algarve (se quisermos mesmo ir à praia, temos de andar dez quilómetros). E tudo acontece enquanto (re)começa a paixão aquática da cidade: a ria Formosa, a vasta laguna que inunda Faro de bálsamo atlântico, disposta entre terra e mar por um cordão de ilhas e cursos de água doce. Isto só pode correr bem.

 

Em frente

O nosso deus é romano e chama-se Oceano. Vejam-no no impressionante mosaico preservado no Museu Municipal. Está classificado como Tesouro Nacional. São quase 32 metros quadrados compostos por milhares de pequenos cubos de pedra em 13 cores. A divindade está no centro, o cabelo adornado por antenas de lagosta e pinças de caranguejo, e a seu lado sopram Zéfiro, o deus do vento ocidental, e Bóreas, o do vento norte. Em baixo, o nome dos quatro cidadãos que patrocinaram a obra, feita mais ou menos há 1700 anos. Marco Lopes, diretor do museu e nosso anfitrião e guia, não se cansa de celebrar este testemunho da pujante Óssonoba – nome romano de Faro. A peça foi descoberta em 1926 durante obras na Rua Infante D. Henrique, perto da estação ferroviária, e por certo ocupava a área central de uma guilda de comerciantes marítimos. Óssonoba era a urbe mais ocidental daquele Mediterrâneo fervilhante, e de certa forma essa memória apadrinha a energia que muitos hoje dão à cidade (o site baixadefaro.pt é um ótimo guia).

É preciso dizer que Faro é candidata a Capital Europeia da Cultura 2027 (tal como outras cidades portuguesas, e o título será dividido com uma da Letónia). Bruno Inácio é o coordenador da candidatura e diz-nos isto: “Estamos a chegar a algo. Não estamos ainda lá, mas estamos a senti-lo. O Algarve tem áreas de saturação para pessoas que preferem outras coisas. Aqui há um conjunto de agentes culturais de diversas áreas e origens que escolheu o recato de Faro para se instalar, gerando conexões entre artistas, uma rede”. A Universidade do Algarve, às portas da cidade, tem provavelmente o maior número de estudantes estrangeiros no país, animando uma população crescente de 60 mil habitantes. Hostéis bem desenhados, alojamento local de qualidade e hotéis amplos de construção sensata alinham-se no universo de negócios socioculturais. “Vai acontecer um hype”, avisa Bruno. Os projetos (mesmo que não se obtenha o título de Capital Europeia) incluem a conversão de um lugar extraordinário, o antigo Porto Comercial, em plena ria Formosa, em espaço cultural e centro de conhecimento marítimo; os enormes armazéns junto à estação de comboios; a expansão do Teatro das Figuras, do arquiteto contemporâneo Gonçalo Byrne; e o edifício conhecido como Fábrica da Cerveja (no centro histórico) – multifuncional, aspirando a algo semelhante aos conjuntos comerciais e artísticos da LX Factory em Lisboa ou da Old Truman Brewery em Brick Lane, Londres. O segredo do potencial de Faro reside em ter contornado a explosão turística do Algarve como destino internacional a partir da década de 70, por funcionar acima de tudo como cidade administrativa. É isso que está a evoluir, mas com discernimento, procurando fixar por temporadas mais longas quem a visita, beneficiando sempre de um importante aeroporto – para o qual os voos diários da TAP de Lisboa e Porto contribuem muito. E depois, é claro, há a riqueza patrimonial, que nos leva por caminhos surpreendentes.

 

Tudo se agita

Todas as cidades têm portas e esta chama-se Arco da Vila. É uma espécie de máquina do tempo: a edificação monumental é do começo do século XIX mas incorpora as muito mais antigas portas medieval e árabe.

Essa preservação visionária do passado deve-se a um homem central na cultura algarvia e de Faro, o bispo Francisco Gomes do Avelar (1739-1816), cujas viagens pela Europa no final do século XVIII lhe auferiram os ideais do Iluminismo. Encomendou o Arco ao arquiteto italiano Francesco Saverio Fabri e mandou instalar num nicho uma escultura de São Tomás de Aquino, um santo “intelectual”, padroeiro da cidade. Marco Lopes traz-nos aqui depois de nos guiar pelo Museu Municipal, que dirige. Foi lá, no centro histórico e perto da belíssima catedral (onde vemos o trabalho do assinalável entalhador Manuel Martins), num antigo convento renascentista, que encontrámos aquele mosaico do deus Oceano, parte de uma coleção heterogénea, de arte norte-africana a mestres de pintura histórica, tudo numa instituição com programação muito forte em arte contemporânea. Há um obra-prima em empréstimo (coleção Novo Banco): uma “Torre de Babel” de um anónimo pintor flamengo dos finais do século XVII. Marco não hesita: “Este símbolo de multiculturalidade, Babel, tem tudo a ver com Faro”. E do Arco da Vila vamos mesmo a uma torre, a da Ermida de Santo António, no ponto mais alto da cidade, acima do liceu. Junto a esta singular igreja, da época dos Descobrimentos, erigiu-se uma atalaia militar para vigiar ataques de piratas. Não há melhor promontório para sorver Faro.

Quando voltamos ao centro, a sumptuosidade barroca que emparelha com, ou até ultrapassa, a da catedral está na Igreja do Carmo, no largo com o mesmo nome. O enorme templo amplia a admiração pelo referido Manuel Martins, autor do retábulo do altar principal, e Marco ensina-nos sobre a peculiar entrada desenhada por Diogo Tavares e Ataíde, arquiteto e escultor farense: “Vê como é quase um hexágono que dá largura à respiração dinâmica do barroco.” Sim, tudo se agita, é a natureza do estilo. Marco provoca: “A Igreja do Carmo é como um ovo Kinder”. Surpresas dentro de surpresas: atravessando a sacristia chegamos ao jardim que dá acesso à Capela dos Ossos (uma das três em Portugal, as outras estão em Évora e Campo Maior).

Ao fim do dia, a uma mesa do Café Aliança, templo profano na Baixa da cidade, pérola burguesa inaugurada nos anos 30, os aperitivos são servidos frente a gentes mais modernas. Há uma parede decorada com retratos de artistas, intelectuais e escritores que trouxeram a Faro outras agitações no século XX: os pintores Carlos Lyster Franco e Carlos Filipe Porfírio, o peculiar escritor José Dias Sancho, e até a visitante Simone de Beauvoir ou o grande músico José Afonso. Eis a Babel do Algarve.

faro.pt \\\ baixadefaro.pt \\\ fb.com/museumunicipaldefaro

 

por João Macdonald /// fotos Carlos Pinto

Arquivos

Hotel Faro & Beach Club

Com localização genial – mesmo em frente à marina e à ria – e um dos melhores terraços da cidade, onde funcionam o reputado Restaurante Ria Formosa e o Cosmopolitan Bar –, esta unidade de quartos espaçosos é o lugar perfeito para desfrutar do centro de Faro.

Praça D. Francisco Gomes, 2 \\\ hotelfaro.pt \\\ A partir de €63

Pousada Palácio de Estoi

Bem junto a Faro e no sopé da serra, o espaço do Grupo Pestana ocupa um palácio rococó do século XVII remodelado por Gonçalo Byrne. A piscina exterior e o spa são magníficos. É o lugar perfeito para combinar idas à animação da cidade com descanso tranquilo.

Rua de São José, Estoi \\\ pousadas.pt \\\ A partir de €120

Milreu

A villa romana de Milreu (Estoi), perto de Faro, é um impressionante lugar, dirigido pela arqueóloga Cristina Garcia. O espaço esteve ligado aos negócios marítimos da cidade e ativo entre os séculos I e XI.

monumentosdoalgarve.pt

Cidade Velha

O espaço de Orlando (incluindo os seus ótimos apartamentos de alojamento local no mesmo edifício) compõe um trio imbatível: cozinha tradicional algarvia, hospitalidade genuína e inserção no centro histórico. Pertíssimo da catedral, é um erro não experimentá-lo.

Rua Domingos Guieiro, 19 \\\ fb.com/restaurantecidadevelha

A Venda

O restaurante de Ana Fonseca e Vasco Prudêncio é incontornável na nova gastronomia de Faro. Aqui obedece-se ao que os mercados fornecem de fresco, servido numa sucessão de pequenos pratos divididos por ementa do dia e da temporada. Cozinha livre e sem cerimónias.

Rua do Compromisso, 60 \\\ fb.com/avendafaro

Eating Algarve Tours

Os programas organizados pela empresa de Joana Cabrita e António Guerreiro são a forma mais inteligente de conhecer o melhor da cozinha do Algarve. São 15 itinerários, da serra ao mar, incluindo um passeio de barco com ostras e bons vinhos.

eatingalgarvetours.com

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