Estranha forma de vida*

em Jul 1, 2012 in Editorial Convidado | No Comments

Seguindo a pena da escritora e jornalista Filipa Melo, descubra connosco um dos segredos mais genuínos da Europa.

Fosse dia de chuva ou de sol, o velho Domingos sentava-se à porta da sua casa de granito, na paisagem agreste da província portuguesa com o nome mais belo. Com uma navalha, golpeava com vagar troncos de árvore retorcidos de onde nasciam bengalas com punhos de cabeça de cobra e rapaz, cavalos, cristos-rei em miniatura, figuras fantásticas de arte bruta. Domingos Ovelha, o artesão, criado a guardar os animais que lhe deram a alcunha e feito velho a sachar a terra, nunca saiu de Trás-os-Montes. Um dia, perguntei-lhe se não gostava de ver o mundo lá fora. “Não preciso – disse – eu sei que para lá destes montes, há tudo.”

Estranha forma de vida, dirão. Mas portuguesa, com certeza. Tão portuguesa como a daqueles que, ao contrário de Domingos, mestre em viagens à porta da sua casa, se fizeram ao mar para descobrir um mundo onde tudo havia e que ainda ninguém vira. Talhada dos braços que vencem a força da terra ou a inclemência das ondas, a essência da alma portuguesa é um mistério para iniciados. Habita-a uma nostalgia antiga, uma saudade sonâmbula de si mesma, um destino desde o início do século XIX amarrado às docas, aos cais de Lisboa onde então se começava a cantar a sua versão mais fatalista, a do fadista trajado de negro com fundo de guitarra.

O nosso fado (vocábulo que também significa “destino”) contém poesia e, hoje, renova-se do tradicional para o inédito, mas é também registo de uma ditadura. Escutem-no de olhos fechados. E abram-nos depois para um país que, agora, viaja por dentro e com saudades do futuro. Não será difícil descobrir que, em Portugal, existe uma arte sábia que do pouco faz muito e do velho faz novo, que da natureza e da tradição tira muito do seu melhor.

Saboreiem-no no prato. O nosso património gastronómico, saído da cozinha de família e dos alimentos sem grande manipulação, é inimitável. Um molho de coentros, uns quantos dentes de alho esmagados, pão aos pedacinhos, por vezes também ovo, água fervente a coroar a sopa, rescendendo na terrina, espevitada por um fio do ouro nacional: o azeite puro. Chama-se açorda alentejana. Como o marisco ou o peixe grelhado, os enchidos, os doces de ovo ou amêndoa, a bifana, os assados, o bacalhau, os arrozes, as caldeiradas, é fórmula portuguesa de magistral simplicidade, produto de génio coletivo, sem artificialismos. Mesmo por trás dos montes, a forma natural portuguesa é um estranho jogo de temperos, que resiste e surpreende. Um dos segredos mais genuínos da Europa.

* título de um dos mais famosos fados de Amália Rodrigues

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Filipa Melo

Jornalista, crítica literária, escritora, nasceu em Angola, em 1972. Trabalha há 20 anos na divulgação da literatura nacional e clássica na imprensa e na televisão e coordena comunidades de leitores. É autora do romance Este É o Meu Corpo, traduzido em sete línguas.

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