Suécia – Elogio do silêncio

on Oct 1, 2013 in Bagagem de Mão | One Comment

O pedaço de Suécia que vi é um arco-íris de azuis, matizados num céu de verão que nunca dorme. É uma paisagem de lagos serenos e prados verde vida. É um país no futuro, com o sentido do simples, do estilo e do outro. Um lugar de pessoas bonitas que nos sorriem no metro.

  • Estocolmo/Stockholm por/by Jeppe Wikstrom
  • De caiaque no arquipélago/ Kayaking in the archipelago
  • A campa de Greta Garbo/The grave of Greta Garbo
  • Cidade Velha/Old town por/by Jeppe Wikstrom
  • Cais de Nybroviken, Estocolmo/Nybroviken quay, Stockholm por/by Erik G Svensson
  • Antiga cidade de Uppsala/Uppsala old town por/by Kalbar Gamla
  • Estocolmo/Stockholm por/by Henrik Trygg
  • Gotemburgo/Gothenburg

É fácil explicar um fraquinho por vikings. Começou na bravura do pequeno Vicky dos desenhos animados de infância e continuou nas lendas de guerreiros barbudos da grande tela, efabulada nas imagens de proas com cabeças de dragão a romper o silêncio do nevoeiro. A Escandinávia sempre foi, também, uma sociedade mais paritária com excelente qualidade de vida, onde a família é vivida de forma saudável e onde os políticos andam de transportes públicos para dar o exemplo. Depois havia a Suécia, o coração secular deste império que todos diziam ser, como todas as capitais, a mais aberta ao mundo. Era tudo verdade.

Charmosa capital

Viajar para Estocolmo no verão é uma aventura de tetris em aviões a rebentar pelas costuras. É fácil perceber porquê: todo o charme nórdico cintila sob a luz de um sol que é de pouca dura. E que se espera que valha pelo ano de penumbra e temperaturas rigorosas. Todos os suecos reagem aos elogios ao seu país com um imediato “não fosse o inverno”. “Não”, pormenoriza Joakim Sten, jovem dramaturgo que conhecemos em casa de amigos, “as estações intermédias é que são difíceis, porque o inverno aqui é mágico”. E ficamos uns minutos a discutir entre amigos se a luz do céu sueco é azul, verde ou prata.

Estocolmo é uma cidade sobre ilhas, catorze principais, para não falar nos milhares de pequenos pontos de terra que consta chegarem aos 24 mil até uma distância de 60 quilómetros Mar Báltico dentro. Ilhas que são museus, ilhas que são parques de diversão, ilhas que são restaurantes debruçados sobre o mar. É uma cidade cosmopolita, moderna, com natureza por todo o lado. A primeira imagem que se tem, à chegada de avião, são paisagens de verde e água. Parques são 38 e a água é tão importante que tem direitos de festival e um prémio para quem trabalhe em projetos em prol da sua qualidade. Por isso, não é estranho verem-se pessoas a mergulhar, principalmente nas margens de Södermalen.

Passear por Estocolmo tem a leveza comum às cidades junto à água. Como Lisboa, Istambul, até Paris, que brilham em nuances de luz, alargam horizontes e nos embalam as dúvidas e o cansaço. “Todos os dias mudam-se para Estocolmo o equivalente a dois autocarros com pessoas vindas de toda a Suécia”, conta-nos a presidente da Assembleia Municipal que nos convida para almoçar no Hotel Diplomat, onde hastearam, por causa da nossa presença, a bandeira portuguesa (os suecos gostam de bandeiras). “A cidade é um guia para o futuro”, diz. Na verdade, e perdoem-me o exagero: a Suécia é o queremos ser um dia. Para já, eles querem ser apenas “uma cidade que recebe”, diz-nos a presidente.

Fica-nos na memória um jantar no Pharmarium, no centro histórico da cidade (Gamla Stan, que data de 1252 e tem uma imponência imperial, mas faz-se rodear de ruas estreitas medievais), mesmo em frente ao museu do Nobel, onde a bebida (os cocktails, incríveis) tem tanto (ou mais) peso que as comidas e servem-se em pares temáticos. Fica-nos também a qualidade das exposições no Fotografiska, o museu da fotografia, onde vimos uma retrospetiva de Helmut Newton e bebemos um chá com vista sobre a cidade. E fica ainda, out of the box, um fim de tarde no Skogskyrkogärden, um cemitério nos subúrbios cuidados de Estocolmo onde se passeia e se usufrui de uma luz única, filtrada pelas altíssimas árvores, se ouvem casais de cucos em acasalamento, se encontra discreta, mas inequívoca, a campa de Greta Garbo. Sabemos um pouco mais da vida de um povo pela forma como este vive a morte. Ali, as lápides são pequenas e cor de terra, mal se distinguindo no verde frondoso, e à sua frente plantam-se flores. É um cemitério com boa onda onde as mães levam os filhos ao sábado à tarde.

Homens com H

A uma hora de comboio de Estocolmo, seguindo para norte, fica a cidade universitária de Uppsala. Nela formaram-se e deram aulas nomes como o físico e astrónomo Anders Celsius ou o médico e botânico Carl Linnaeus, para não falar de oito prémios Nobel. Um dos poucos orgulhos visíveis dos suecos, a par da estátua de Strindberg, em frente do Teatro Nacional de Estocolmo, da naturalidade com que se evocam os filmes de Ingmar Bergman, ou da arquitetura e do protocolo no salão de entrega dos prémios Nobel, no centro do edifício da Câmara, a Kungsholmen, à beira do lago Mälar. (Sabia que as escadas têm a altura certa para serem subidas com vestidos compridos e saltos altos?). A Suécia é um reino de monarquia constitucional e democracia parlamentar, mas estes são os seus verdadeiros patronos.

Uppsala no verão é uma cidade fantasma à espera do regresso dos seus alunos, mas convida ao passeio. A catedral da cidade é obrigatória, a maior em toda a Escandinávia, bela na sua imponente austeridade. Naquele chão dormem santos, nobres e cientistas. O museu da Universidade (que foi fundada em 1477) vale a pena, principalmente a zona dedicada à medicina, com o seu anfiteatro curioso onde se dissecavam os corpos, e a coleção de animais e pedaços humanos em frascos de formol. É ainda de espreitar a casa de Lineu, e o seu jardim de plantas raras vindas de todo o mundo, onde lemos à entrada, esculpido no chão: “Também as pequenas coisas merecem a nossa atenção.”

A uns minutos de Uppsala, ergue-se um impressionante cemitério Viking que nos reduz a uma insignificância onde o tempo e o espaço parecem ganhar outra escala, a dos Homens com maiúsculas.

Aberta ao mundo

Gotemburgo é uma cidade mais industrial, sem os pequenos charmes de Estocolmo, mas com fibra e ruas largas, jardins amplos e uma respiração de mar que nunca mais acaba. Dois pares de horas de comboio desde a capital e uma beleza verdejante a passar-nos cinematograficamente pela janela. Vamos ao festival Way Out West, um dos melhores da Europa e do mundo, um primor de cartaz e logística onde só se comem pratos vegetarianos e se bebe cerveja em garrafas de plástico nos biergartens junto aos palcos. Um desfile de gente bonita, bem vestida e educada, como nunca visto em lado algum, exceto nas capitais da moda em semanas de apresentação de coleções. Quando a noite bate nas 12 horas, os vários bares da cidade recebem concertos e dj sets de artistas consagrados e continuam a festa pela madrugada, mas as ruas nunca deixam de ser quietas. Aquela mesma festa tinha começado a meio da tarde, em apartamentos privados. Estivemos numa, à beira do mar, com uma vista sob a ponte principal da cidade, cervejas e salsichas à discrição. Estocolmo muda-se literalmente para Gotemburgo nestes dias e injeta-lhe pinta e modernidade.

De Gotemburgo, apanhamos dois autocarros até à costa oeste, feita de casinhas pousadas sobre rochas como presépios pagãos. São todas lindas, brancas e desalinhadas rodeando lagos imensos ou pequenas enseadas. Faz-se um passeio de barco antes de jantar, os vizinhos cumprimentam-nos quando passamos e oferecem peixe acabado de fumar. Aconchegamo-nos descalços no alpendre a falar da vida e dos sonhos que temos para ela enquanto no quintal do lado ondula a bandeira da Suécia hasteada todos os verões. A vida ali é perfeita e feliz. E não parece precisar de absolutamente mais nada.

Aqui mora a civilização

De regresso a Estocolmo poderíamos falar do SoFo, o bairro dos novos designers; das ruas trendy de Södermalm; da Djurgarden (a Ilha dos Museus); da zona mais clássica, das grandes lojas, östermalm, perto dos jardins do Palácio Real, “onde vemos os velhos cansados com sapatos feitos à mão”, como nos descreveu a presidente do concelho municipal. Podíamos falar das vistas, de Fogelströms, de Fjällgatan, em Södermalm. Até do museu dos Abba que nos recebe com quatro bonecos-caricatura à chegada ao aeroporto. Podíamos pormenorizar experiências gastronómicas como o delicioso arenque e salmão (o melhor de sempre), ainda que não tenhamos ouvido as schnaps songs, porque nunca chegámos a beber demais a não ser em casa de amigos. E o que nos fica são, de facto, as pessoas. Como sempre.

É preciso andar de lanterna para encontrar um “saloio” na Suécia. O sueco médio tem bom gosto e a noção do ridículo, da medida do essencial, do decoro e da qualidade. Isso aplica-se às relações humanas como às casas, carros e roupas que excluem o bling e excedem no bem-estar. Por isso, é provável que não encontre nada espampanante. A atenção é dada ao detalhe, sem que pareça que se perdeu muito tempo a pensar nisso. E ao conforto: este é um país de sentidos que se sofisticaram ao ponto de precisarem de muito pouco, e de muito bom.

Conversamos com o guia de Uppsala, enquanto bebemos um refresco de frutos vermelhos numa esplanada, e ele fala-nos dos suecos: da sua honestidade e discrição (“não gostamos de interferir ou de dar trabalho, por isso somos envergonhados a ajudar”, diz); da sua humildade (“detestamos show off e gabarolice, porque não gostamos do tom e porque nunca nos achamos melhores do que os outros”); de como adoram viajar (“já no tempo dos Vikings trazíamos novas modas e culturas de todo o mundo”) e são mente aberta em relação a quase tudo (“podes dizer o que quiseres na televisão sueca”). Por isso “não nos interessa de onde vens e não gostamos de fazer julgamentos – admiramos quem mostra resultados e não quem promete, porque não queremos pedidos de desculpa”. Cautelosos, gostam de uma certa solidão e valorizam o silêncio, como bons filhos do norte. E o silêncio, omnisciente nas suas paisagens de postal, enche por dentro. Porque o silêncio é um sinal de intimidade, é onde tudo começa e tudo acaba.

por Patrícia Barnabé

Arquivos

Corro para a Eternidade

Assim se chama o livro com que o diplomata André Oliveira homenageia um dos primeiros heróis nacionais do desporto: Francisco Lázaro. O ambicioso e humilde maratonista português, que foi também o porta-bandeira da primeira participação de Portugal nos Jogos Olímpicos da Era Moderna, em 1912, em Estocolmo, queria atingir a glória, mas tombou ao quilómetro 30, tragédia que muito impressionou o então rei da Suécia. Ainda que não tenha conquistado o seu sonho, a abnegação e a coragem de Francisco Lázaro serviram para aproximar Portugal e a Suécia que, desde então, mantêm excelentes relações diplomáticas. O romance de André Oliveira é também uma viagem no tempo até à Suécia do início do século passado, surpreendendo ainda pela originalidade com que faz diplomacia a partir de um episódio desportivo. Na sequência, fez-se uma exposição de fotografia com imagens do conhecido fotógrafo sueco Henrik Montgomery. A agência portuguesa de viagens dedicadas ao turismo cultural, Pinto Lopes Viagens, juntou-se à iniciativa organizando um roteiro por Estocolmo e Uppsala “nos trilhos de Lázaro”. O livro será, em breve, lançado na Suécia.

Gradiva
15€

www.pintolopesviagens.com

Onde comer

Pharmarium
Para picar pratos especiais pensados para cocktails ainda mais especiais, num ambiente cosy mesmo no coração do bairro histórico.
Stortorget 7
+46 (0)8 20 08 10
www.pharmarium.se

Röda Villan
A meia hora de barco do centro, uma esplanada restaurante sobre o mar que serve especialidades de peixe e marisco, mas também carne. Lá provámos o melhor salmão fresco do mundo e ainda visitámos a ilha.
Ilha Fjäderholmarna
+46 (0)8 21 50 31
www.rodavillan.nu

Hotel Diplomat
No centro da cidade um clássico sueco com ares de brasserie, ideal para almoços descontraídos com vista para o mar. O arenque, os camarões e o salmão são deliciosos.
Östermalm, Strandvägen 7c
www.diplomathotel.com

Stationen
Restaurante super charmoso, com excelente seleção de vinhos e cozinha sueca de primeira água com laivos de requinte francês.  Olaf Palmes Plats, 6
+46 18 15 35 00
www.stationen.se

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