Estar perdido pode ser mais ou menos belo – sobre Marraquexe e etc.

on Aug 1, 2012 in Cidades e Homens | No Comments

Sobre a outra beleza

O conceito de beleza em cidades como Belgrado, México ou Marraquexe é diferente do habitual.
Em Belgrado, por exemplo, uma mulher disse-me e repetiu: esta é para mim a mais bela rua de Belgrado! E essa rua, olhando para ela com atenção, não passava de uma mistura de prédios muito velhos com prédios em ruína e um ou outro novo, mas feiíssimo. E ainda graffiti por todo o lado, disformes.

O que era belo portanto não era a rua, mas o que se passava na rua – o que as pessoas faziam. Eis, então, a beleza de Belgrado, de Marraquexe e da cidade do México: não é o espaço, é o que os seres vivos fazem no espaço.

Nestas cidades, a mais bela rua é aquela em que a confusão é mais estética. Uma balbúrdia bela, eis o critério supremo.

Viagem sem guia

Na Medina de Marraquexe é normal brincar-se aos labirintos. Enquanto em algumas cidades se salta e se corre, noutras perdemo-nos. Andar para a frente e estar perdido podem afinal ser sinónimos numa medina (como num labirinto). Nunca se sabe, no fundo, se estamos a andar para a frente ou para trás.

De certa forma podemos então dizer que estar perdido é uma forma inconsciente de querer conhecer algo novo. Estou perdido quando não conheço o que está à minha volta. Portanto: só posso conhecer o novo se me perder. Eis o óbvio.
Perdi-me porque estava curioso, eis, então, o que poderia afirmar o viajante sem guia.

Um laboratório de astronomia em Tóquio (astronomia ficcional)

A estranheza é que esse homem, esse cientista, está atrás da lente do telescópio, aponta bem para cima – para o céu negro e bem afastado – e, subitamente, parece reconhecer algo, como se fosse uma estrela ou um cometa ou um elemento qualquer da astronomia que ainda o pudesse surpreender. E a questão é esta: com o telescópio bem afinado ele, subitamente, percebe o que ali está, entre um planeta e outro, entre aquelas substâncias negras que engolem tudo, entre os macro-optizões (nome agora mesmo inventado) e as massas incorpóreas e ainda entre aqueles outros nomes estranhos da física; eis, pois, com o telescópio o que ele vê: o rosto de um chimpanzé, isso mesmo! E tal descoberta assusta-o. Ele não é um homem que estude a floresta ou a cidade, ele estuda os planetas – a matéria mais longínqua. Daí que um chimpanzé não seja exatamente a matéria que ele esteja à espera de encontrar no fundo da sua lente telescópica.

O astrónomo japonês, do alto da sua enorme torre situada no centro do Tóquio, tira o olho do telescópio, levanta-se e tenta perceber se foi enganado; se algo nos seus olhos se turvou, se estragou.

Está numa das cidades mais desenvolvidas do planeta, num arranha-céus de Tóquio e num laboratório muitíssimo bem apetrechado, portanto, nenhum erro técnico deveria acontecer. Chamou colegas de ofício. Um após outro por ali passaram – o olho bem colocado na lente do telescópio. Não havia dúvidas. Era um chimpanzé que ali estava no meio das estrelas, das tais estrelas que se afastam de nós. Com que nome designar este novo elemento da astronomia que não é um cometa, nem uma estrela, nem um planeta, mas um animal? A resposta surge, bem simples: é um chimpanzé. Quem responde é Otta Tu, o cientista, o astrónomo. É um macaco!, diz ele – Um macaco!

Chamaram a esse macaco, o Macaco Otta Tu em honra do seu descobridor, o cientista da cidade de Tóquio.
Uma estranha história, esta, bem absurda, mas sim, com esta descoberta feita numa torre de Tóquio é preciso refazer toda a astronomia, toda.

Um taxista de Washington

Jonathan Boll está no centro da cidade de Abu-Dhabi e lê o seguinte:
Calcula-se que John B. Minnoch, nascido em Bainbridge Island, em Washington, chegou a pesar 635 quilos. Em março de 1977 foi transportado numa plataforma para o hospital onde deveria seguir uma dieta para emagrecer. No transporte, porém, aconteceu o seguinte acidente: o homem caiu em cima de cinco dos 13 ajudantes provocando a morte de quatro deles e a evidente indisponibilidade do outro. Os nove ajudantes sobreviventes tentaram deslocar o corpo de John B. Minnoch alguns metros para o lado, para conseguirem libertar os seus companheiros de trabalho, mas tal não foi possível.

Tratou-se de uma queda semelhante à derrocada de terras sobre trabalhadores – neste caso: enfermeiros esmagados por um homem, John B. Minnoch, que pesava 635 quilos.

John B. tinha sido motorista de táxi até aos duzentos e trinta quilos. Num certo dia, o seu carro não avançou um metro não por uma questão de falta de gasolina, mas por excesso de um peso que empurra para baixo.

Era uma luta de boxe, embora não tão explícita – o motor gritava: para a frente! – enquanto o peso excessivo de John B. gritava:

Para baixo, para baixo!

E a luta de boxe para a frente /para baixo teve um vencedor: para baixo!

Foi então aí, nessa altura, que John B. Minnoch, nascido em Bainbridge Island, em Washington, deixou de ser taxista. Depois disso engordou até aos 635 quilos. E mais tarde aconteceu o tal acidente.

É uma história verdadeira.

Nunca se sabe se a avaria é falta de gasolina ou excesso de peso do condutor, mas o certo é que, em muitas cidades, os táxis estão parados, não funcionam.

É aí, nessas alturas, que nos lembramos desta história.

O café

“O café. Oh, sim! Essa bebida que provoca sono quando não a tomamos.” (Alphonse Allais)

Há cidades em que não precisamos de tomar café. Nunca dão sono. Exemplo: México, Marraquexe, etc., etc. É uma questão de sobrevivência, não podes adormecer, é perigoso. E é também um desperdício. São cidades estimulantes demais. Nada de café, portanto.

por Gonçalo M. Tavares

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