Entre o risco e o medo

on May 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

O que quer dizer as pessoas estarem “preocupadas”?

Podem as sociedades ser definidas por simples palavras que usamos todos os dias? Sociólogos e economistas, todos parecem convencidos que sim. Pelo menos olhando para títulos de livros como Sociedade do Risco, Sociedade em Rede, Sociedade de Informação, Sociedade dos Ecrãs ou Sociedade do Medo – todos parecem dar razão a essa associação. No entanto, não há nada de simples em associar um conceito à palavra “sociedade”. Essa associação é produto da ciência, da experimentação e da análise, como as produzidas por Ulrich Beck sobre a percepção social do risco, ou Manuel Castells sobre o papel da organização social em rede ou, mais recentemente, no livro de Heinz Bude Society of Fear, sobre como o medo se tornou num elemento central do nosso quotidiano e, consequentemente, um caracterizador social.

O público encontra-se hoje inundado com dados sobre riscos de pobreza, a dissolução da classe média, o aumento das depressões, a preocupação com migrações, com o terrorismo, com a saúde, com a corrupção na política e nos negócios e decide não votar ou escolher opções populistas. No entanto, para Heinz Bude a pergunta central é saber o que esses dados querem dizer e como relacionar uns com os outros. Ou seja, o que quer dizer as pessoas estarem “preocupadas”, terem medo, face a tantos temas nas nossas sociedades?

Bude argumenta que a nossa era é caracterizada pelo medo e que este é a expressão de uma sociedade assente em fundações instáveis. Este é o ponto de partida deste sociólogo para analisar a experiência social do medo nas nossas sociedades e traçar um retrato de uma sociedade marcada por uma perturbadora incerteza, uma fúria contida e ressentimentos mudos. Para Bude tal é tanto verdade nas nossas relações próximas quanto para o mundo do trabalho, ou para como reagimos na nossa relação com os políticos e banqueiros. O medo contemporâneo não tem tanto a ver com um “outro” poderoso, mas sim com a percepção de que há uma infinidade de possibilidades com as quais nos defrontamos. A liberdade e autonomia que as nossas sociedades promovem tem no medo o outro lado da moeda. O medo é o que preenche o vácuo criado pelo desconhecimento do impacto e do sentido de cada opção à nossa escolha.

Que condições levam as pessoas a sentir-se ansiosas e com medo para si próprias e face aos outros? Sabendo que o medo é um dos grandes instigadores de conflitos e que vivemos numa época de novas conflitualidades entre países, entre cidadãos, entre empresas e entre todos os anteriores, é fundamental perceber o medo e o seu poder nas nossas vidas. Pois só assim se pode contrariar o (in)evitável abismo para onde historicamente ele sempre nos empurrou.

 

por Gustavo Cardoso

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