Em Londres com Virginia Woolf

on Aug 1, 2012 in Olhares de viagem | No Comments

Pode amar-se uma cidade como se fosse gente? Sim, se essa cidade for Londres e se a alma do amante tiver lastro comparável à de Virginia Woolf, mítica escritora inglesa, autora de algumas das obras literárias mais transgressoras do século XX.

Londres fazia-lhe uma extrema falta. Refugiada, por prescrição médica, na calma de Asham House, Virginia Woolf estava longe de aquietar os seus demónios entre campos de alfazema. Como algumas das personagens femininas que criou (Mrs Dalloway, do romance do mesmo título, ou Jinny, de As Ondas), a escritora alimentava-se do incansável bulício da que era, ainda no pós Iª Grande Guerra, a capital do maior império que o mundo conhecera. Apaixonada por caminhadas urbanas, dizia que a cidade lhe retribuía inteiramente a intensidade com que a ela se entregava: “Londres atrai perpetuamente, estimula, dá-me uma peça, uma história e um poema, sem qualquer incómodo para além de andar pelas ruas… Caminhar sozinha em Londres é o meu maior descanso”. Nascida no bairro de Kensington (Hyde Park Gate, 22) a 25 de janeiro de 1882, Virginia habituara-se a encarar a capital, então com cerca de seis milhões de habitantes, como o centro do mundo. Como Jinny, poderia quedar-se à entrada da estação de metro de Piccadilly Circus e constatar “emocionada que, naquele preciso ponto, confluía tudo de desejável – Piccadilly South Side, Piccadilly North Side, Regent Street e Haymarket”.

Uma peregrinação pela Londres em que Virginia Woolf viveu e escreveu incessantemente é, ao contrário do que à partida se imagina, perfeitamente compatível com outros projetos que o viajante leve para a cidade. É que a imensidão do mundo de sensações e sentimentos tratados pela escritora ao longo da sua obra está na inversa proporção do espaço real que lhes serve de palco.

Filha de uma família da classe média-alta na Inglaterra vitoriana (o pai, Leslie Stephen, foi o primeiro editor do monumental Dictionary of National Biography), Virginia tratava como terra incógnita toda a cidade que se estendia para além das fronteiras do West End. A sua Londres era a de Clarissa Dalloway, no dia soalheiro de junho em que decidiu sair de casa para “comprar as flores, ela própria”.

Da morada de Hyde Park Gate (onde a escritora viveu até aos 12 anos e que foi “sede” do Hyde Park Gate News, o jornal feito pelos quatro filhos da família Stephen), não guardava as melhores recordações, como escreveria mais tarde: “Era uma casa com inúmeros quartos, pequenos e estranhamente divididos, não para uma, mas para três famílias… Para albergar tantas pessoas como nós éramos, construía-se simplesmente mais um andar em cima ou prolongava-se sem rodeios uma casa de jantar no rés-do-chão (…). Ao remexer-se nos aparadores e roupeiros muito escuros nunca se sabia se iria trazer à luz do dia as perucas de advogado de Duckworth ou as vestes de pastor do meu pai, ou uma folha com desenhos de Thackeray… Cartas antigas enchiam dúzias de caixas metálicas pretas. Abria-se e sentia-se um vincado sopro do passado…” (em Old Bloomsbury).

Tempos mais exaltantes, cheios de possibilidades e futuro, foram vividos pela escritora e seus pares na morada mais indispensável desta revisitação “woolfiana” – o bairro de Bloomsbury, ainda hoje vibrante de estudantes da Universidade de Londres, ali instalada. Após a morte do pai, Virginia e os irmãos mudaram-se para esta zona, fazendo da sua casa (Gordon Square, 46) o epicentro do muito de totalmente novo que, na década de 20, acontecia na vida literária e cultural britânica. Como escreve Ford Madox Ford em A Alma de Londres, a grande cidade parecia-lhes “ilimitada”. Por esta casa bem mais luminosa do que a das suas infâncias (“tudo ia ser novo; tudo ia ser diferente. Tudo estava em aberto”, escreveu a autora a propósito da desejada mudança) passaram então Lytton Strachey, E.M.Forster, Clive Duncan Grant, Roger Fry e aquele que havia de ser o marido da escritora, Leonard Woolf, constituindo, desse modo, o grupo dito de Bloomsbury, que destroçou velhas convenções à custa de muita alegria, irreverência e talento.

Neste mesmo bairro poderemos encontrar outros lugares chave da vida da jovem Virginia: a casa de Brunswick Square (o nº 38, onde viveu no segundo andar), o Registo Civil de St. Pancras, onde casou, a 10 de agosto de 1912, com Leonard Woolf, e o Museu e Biblioteca Britânica (Great Russell Street) onde fez as leituras que foram decisivas para o seu futuro, como testemunha em obras como Um Quarto que Seja Seu ou O Quarto de Jacob. Hoje, a biblioteca reserva para os investigadores o melhor fundo woolfiano do mundo (no qual estão muitos manuscritos e impressos raros), numa homenagem à que, um dia, descreveu a instituição como “um enorme cérebro”. Imaginamo-la, ao final do dia, a transpor a imperial entrada do edifício, a alma a fervilhar de ideias próprias e alheias, pronta a diluir-se no movimento perpétuo das ruas vizinhas, animadas por milhões de projetos e desígnios: “Alguns gritavam, outros cantavam. Londres era como uma oficina”, escreveu. Num pulinho chegava a casa. Depois de deixar Gordon Square, virava à esquerda em Byng Place e prosseguia para Tavistock Square. No número 52, onde hoje está um hotel, ficava a casa dos Woolfs e a sede da editora Hogarth Press (dirigida por Leonard) entre 1924 e 1939, bombardeada em outubro de 1940 pela Luftwaffe, durante o Blitz com que Hitler procurou aniquilar a alma da Inglaterra. A assinalar a passagem do casal pela praça há um busto da escritora, inaugurado em 2004.

A partir de Bloomsbury, o viajante pode “perder-se” no coração da cidade, guiado pelas palavras de Virginia. Em Covent Garden, entrará na igreja de Saint Paul’s (em Bedford Street, construída em 1633, a não confundir com a Catedral do mesmo santo) e imaginará o que ela terá sentido ao descobri-la, após tantos anos de vida londrina, em março de 1937. Em Charing Cross Station pode transportar-se mentalmente para o final do século XIX e recriar as andanças urbanas das heroínas do romance Os Anos. Junto ao imponente Admiralty Arch recordará Um Quarto que seja Seu e refletirá sobre o género de glórias assinaladas por “troféus e canhões”. Finalmente, em Bond Street, comungará do êxtase de Mrs Dalloway: “as suas bandeiras flutuando ao vento; as suas lojas sem desperdício, sem brilho; uma peça de tweed na loja em que o seu pai comprara fatos durante 50 anos”. Nos jardins de Kensington, lembrará o prazer quotidiano que a escritora experimentava ao ver as crianças largarem pequenos veleiros nas mansas águas do Round Pond ou a recolherem as folhas pintadas de outono. Tudo, como escreve em Os Anos, sob a tutelar “figura branca da Rainha Vitória; atrás da qual estava o tijolo cor-de-laranja do velho palácio [de Kensington]“. Virginia Woolf era apaixonada pelos parques de Londres, que percorria longamente, sozinha ou acompanhada. Conversava com o economista John Maynard Keynes nos jardins de Gordon Square, com Clive Bell, seu cunhado (casado com a pintora Vanessa, a irmã favorita da escritora) em Green Park e com o escritor Aldous Huxley nos jardins botânicos plantados na periferia da cidade por ordem da Rainha Vitória, os magníficos Kew Gardens. Quando o bucolismo abria alas ao capricho e a uma certa forma de frivolidade, Virginia deixava-se seduzir pelo brilho das montras de Oxford Street e pela movimentação das elites culturais em Covent Garden. Aí, jantava frequentemente no restaurante The Ivy (ainda hoje visita obrigatória para a boémia chique do West End, fascinada pelos vitrais das janelas e pela qualidade superior do serviço) e assistia a espetáculos de ballett e música na Royal Opera House.

Apesar da constância do amor dedicado por Woolf à sua cidade natal, não há em Londres qualquer casa-museu consagrada à escritora. Estas existem, sim, em Charleston, no East Sussex, onde os interiores foram preservados como os Woolf e Vanessa Bell (proprietária da casa) os deixaram e em Monk’s House (também em East Sussex). Esta última foi adquirida pelos Woolf em 1919. Sem condições de habitabilidade à data da aquisição (não tinha casa de banho nem água corrente), foi sendo transformada no adorável local que hoje podemos visitar a pouco mais de uma hora de comboio de Londres (partida em Victoria Station). Em carta dirigida à sua breve amante, a também escritora Vita Sackville-West, Virginia escrevia: “temos agora duas casas de banho, uma paga por Mrs Dalloway, a outra por O Leitor Comum, ambos dedicados a ti”. Ainda jovem, Virginia começou por encontrar alguma paz e entusiasmo nesta morada campestre. Passava a manhã no pequeno escritório montado no jardim e à tarde caminhava pelas margens do rio Ouse, particularmente belas depois da chuva, ou fazia um passeio de bicicleta para visitar Vanessa e Clive Bell, quando estes estavam em Charleston. O jardim era o melhor de uma casa que, nessa altura, como testemunha nos Diários, Virginia ainda considerava ser “o orgulho dos nossos corações”. Mas o seu coração, demasiado selvagem, dava-se mal com tal pacatez. Em breve, assaltá-la-ia a nostalgia que a ligava a Oxford Street e outras paragens mais urbanas. No final da vida, angustiada com as consequências dos bombardeamentos alemães sobre a capital escreveria (a 15 de janeiro de 1940): “E depois ver assim destruído o grande amor da minha vida, refiro-me a Londres, também me destruiu o coração. As tristes ruínas da minha antiga casa, fendidas, deitadas abaixo, as velhas telhas vermelhas reduzidas a pó branco… toda a perfeição devastada e destruída”. Destroçada, Virginia não chegou a ver como a cidade resistiu à aniquilação e renasceu em engenho e graça, mas o amor que lhe dedicou continua palpitante nas muitas páginas londrinas que escreveu. E no desejo que, por causa delas, temos de sair para comprar flores com Mrs Dalloway.

Por Maria João Martins

Arquivos

Pub.

Oliveira da Serra TAP Campanhas  
UP Eventos

A decorrer

«   /   » / Stop / Start