Elogio da aldeia e da natureza – poeira, árvores e a noite

on Aug 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

A poeira, por exemplo, pode tornar-se matéria de investigação. É que nas aldeias a poeira não é sujidade, é o passado; um passado desfeito, um passado que era rocha ou objeto e agora é apenas elemento aéreo que não se fixa a nenhum sítio. Parece uma mensagem, sem letras, sem desenhos, mas mensagem. Nas aldeias, de facto, a simples poeira parece ser de uma outra natureza, bem diferente da poeira de uma cidade. Uma poeira antiga versus uma poeira contemporânea – uma poeira urbana que nada ensina porque vem de demasiado perto ou da indústria e das fábricas e máquinas de que conhecemos bem o manual de instruções. Poeira urbana que vem do que é funcional e não do que é natural.

A poeira nas cidades é um vestígio do trabalho humano; na aldeia parece um acenar de adeus de uma parte da natureza; certos fragmentos ou vestígios da natureza apanham o vento como nós apanhamos um comboio ou um elétrico.

Nas aldeias também as sombras parecem ser mais antigas, mais cansadas mas mais observadoras. Talvez porque quem se coloca lá debaixo, como se a sombra fosse uma cobertura e não algo que está no solo, pareça sempre mais sábio, mais paciente. Espera que o calor diminua; aguarda que as suas forças regressem ao ponto em que caminhar passe a ser uma tarefa possível e não um sacrifício.

Cumprimentar alguém que, em pleno calor, está à sombra de uma árvore no meio de uma qualquer aldeia, é sempre cumprimentar um professor. Quem está à sombra, aguardando serenamente, é sempre da ordem dos mestres que ensinam pelo corpo e não pelas palavras. Quem afogueado avança atrasado e com pressa para o sítio funcional e necessário parece sempre aluno tonto, máquina urbana com duas pernas e relógio. Funciona e é pontual, mas redondamente falha a preguiça, por exemplo, e a muito esquecida contemplação.

Nas aldeias, as árvores não parecem anexos, elementos que foram chamados para compor de verde um excessivo cinzento, como um pintor que acredite que pintar é equilibrar cores – semelhante a um processo de economia de distribuição. As árvores não aparecem aqui e ali porque fazem falta. As árvores já lá estavam, quem apareceu mais tarde foram as casas. E as casas apareceram porque faziam falta; as árvores na aldeia não faziam falta como as árvores recentes colocadas numa avenida de cidade, nada disso: as árvores eram há muito as senhoras verticais do território. Somos nós, os humanos, que fomos ali plantados, mais fixos, ou menos, à volta delas.

E sim, há ainda o solo, o território natural de um país. Terra de cor escura ou mais aclarada, terra que suja, nada higiénica – o verdadeiro solo de um país não é higiénico nem neutro –, é terra com declives sem ordem, terra que não aceita nem a linha reta nem o violento ato de aplanar. Torto e sobressaltado, eis o solo que os nossos antepassados nos deixaram e que só se tem acesso no país mais ao fundo. Defender, pois, a tortice natural do território, essa forma imprevista de um espaço se apresentar debaixo dos humanos; um espaço que não é selvagem, muito longe disso, mas também não é doméstico, muito menos subserviente. Um espaço orgulhoso, eis o território do país – algo que se torna evidente quando afastados da cidade nos deixamos deslizar pela natureza quieta e quase muda.

Gosto das aldeias; esse modo diferente de usar o tempo e onde de noite faz escuro estranhamente, e o céu existe. E percebe-se, afinal, como o brilho que vem daí não é comparável ao brilho de uma televisão acesa. Diante de um sofá, um brilho ansioso, adolescente, sempre a chamar a atenção, a levantar o braço, a gritar. E lá em cima, no exterior, uma luz muda; uma luz que não tem pressa; uma luz que acalma. Ir a uma aldeia é ir à noite vertical e alta, aquilo que há muito desapareceu das cidades. Nas aldeias e no meio da natureza, a noite chega como um animal, e está ao nosso lado e em cima e em todos os cantos. Não é algo para ser evitado/atacado com a luz elétrica. O escuro não é um contratempo. É o que possibilita o cinema antigo; o cinema que exige/ sempre exigiu, que o nosso pescoço suba ligeiramente. Como se ser bípede, apesar de tudo, não fosse o suficiente.

 

por Gonçalo M. Tavares

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