O progresso desta ciência deveria ser uma preocupação-chave dos analistas.
Uma grande parte da política económica das últimas décadas consistiu em… retirar a política da economia. Ou seja, o objetivo era “negativo”: seria preciso assegurar a não interferência dos governantes, impor um sistema produção-distribuição sem Estado. O pressuposto é que o mundo dos negócios funciona bem se deixado aos seus próprios desígnios: se há crises então é porque alguém andou a “mexer nos mercados”.
Mas tal como a natureza tem horror ao vazio, também a economia não suporta o vácuo. O que o preencheu foi um par de coisas: uma ficção e um facto.
A ficção tem que ver com o avanço da ideologia do mercado: isto é, mais mercado é melhor, maior volume de compras e vendas, mais dimensões da vida pessoal e pública sujeitas à lógica do cálculo e do comércio. O discurso dominante é pró-mercado. Contudo, mais mercadorização não significa necessariamente mais concorrência entre agentes económicos (isto é, mais eficiência micro) nem mais valor na economia como um todo (isto é, mais eficácia macro).
O facto foi a materialização do poder de mercado: isto é, na maior parte dos setores (sobretudo nos mais importantes, como os da informação, das comunicações, da energia…) surgem empresas com força suficiente para subjugar outras, explorar o consumidor e até subverter as regras do jogo, as instituições públicas e a própria democracia. O discurso pode ser pró-mercado, mas a prática dos privados poderosos tende a ser anticoncorrencial.
Um livro do economista francês e prémio Nobel Jean Tirole foi traduzido para inglês e publicado pela Princeton University Press com o título Economics for the Common Good (em português na editora Guerra e Paz). Este livro lida com estes problemas: mercados existem sempre, quer gostemos quer não; moralizá-los não é fácil e, por vezes, impossível. Mas o enfoque deste livro também se dirige aos novos desafios da análise económica, que estão ligados à digitalização massiva, à propriedade intelectual e à inovação permanente.
Estas são características que indicam a prevalência do que se entende como “competição dinâmica”. A importância deste fenómeno é um enfoque central da muito aguardada nova edição do importante livro Introduction to Industrial Organization, de Luís Cabral (MIT Press). Atividades que produzem progresso são o futuro da economia, mas como tema de análise são também o futuro da própria análise económica.
por Sandro Mendonça
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