Douro – Histórias com sabor
Esta gigantesca obra humana desafia e completa os prodígios da natureza. O lugar certo para uma pausa de dois dias nas vidas urbanas de Alexandre Quintanilha, cientista, e Richard Zimler, escritor.
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Parecendo que não, a questão prática com que iniciamos este fim-de-semana encaixa no tom dos dias seguintes: quem irá guiar desde a Foz, no Porto, onde Richard e Alexandre residem, até Pinhão, no Douro? A decisão, unânime, é tomada num minuto. Espantoso, tendo em conta que não nos conhecíamos e que achamos todos que guiar não é coisa com que se brinque.
Meia hora mais tarde, Alexandre é a perfeita imagem da serenidade ao volante, o que liberta o espírito de todos para trocas e conversas improváveis. É o Douro que nos traz aqui, mas até sermos absorvidos pelo cenário que se faz de rio e encostas verdes em socalcos, pontuadas pelas casas e os letreiros das numerosas quintas vinhateiras, vamos falando.
A conversa podia centrar-se na forma como, por séculos, as gentes do Douro removeram os pedregulhos de xisto e ergueram os muros em fantástica geometria, plantaram videiras de castas escolhidas a rigor, podaram, trataram, vindimaram, pisando por fim as uvas e submetendo o que daí resulta a tantas e tão delicadas operações até que o vinho nos chega à mesa, carregado de aromas e história. Mas o tópico de conversa é outro, a sublinhar que as experiências fortes se fazem assim, em camadas, que vamos fruindo ao sabor das emoções. Fala-se agora dos judeus nascidos em Nova Iorque, tema que desagua naturalmente nos filmes de Woody Allen, e tudo a propósito de outro assunto que não é para brincadeiras: o sentido de humor.
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Do bom humor
As diferenças culturais e sociais podem trazer grandes embaraços a quem arrisca fazer piadas antes de conhecer o chão que pisa. Richard, judeu nascido em Nova Iorque, que gosta de provocar os outros mas também, e muito, de fazer piadas cortantes sobre si mesmo, conhece bem o chão português. Os vinte anos que já leva no Porto, multiplicados pelos traços dessa sensibilidade específica que faz dele um dos maiores contadores de histórias que conhecemos, chegam-lhe para saber quando e como brincar. De forma nenhuma, aliás, o humor lhe é coisa estranha – contará mais tarde que esta é a arma preciosa da personagem central do seu próximo romance, Strawberry Fields Forever (sairá no ano que vem).
Numa pausa do caminho, a conversa está já na vida inteira de Richard e Alexandre. O que há de novo, anunciam, é que estão a pensar casar este Verão. Alexandre explica: não é que esta paixão de 31 anos precise de documento legal para se firmar. Mas, dependendo dos momentos, as questões legais importam. Além disso, cada casal gay a assumir este direito recém-conquistado em Portugal trará um contributo crucial para a sua consolidação.
Paramos no restaurante DOC. Fora do carro, o calor surpreende, mas não aflige. Instalados na esplanada sobre um imenso deck de madeira, frente ao jogo de sombras que a tarde pinta nas encostas da margem norte, seria preciso muito mais do que 36 graus para causar algum desconforto. Em vez disso, somos apresentados a Cristina, mulher de Rui Paula, o homem que é já uma imagem de marca quando se fala de restauração.
Um grupo de jornalistas turcos circula por aqui. É verdade: mesmo enclausurado entre montes, consumido em tantas curvas de um caminho que ele próprio desenhou e amansado pelas barragens que lhe estenderam à frente, o Douro corre mundo. Vai dentro de garrafas de Degustação de Origem Certificada. Mas vai também em artigos sobre viagens, e nas memórias dos que o visitam, cada vez mais. “A A24 veio facilitar os acessos a partir do sul, temos cada vez mais turistas estrangeiros”, diz Cristina.
Tardes sem fim
Richard e Alexandre nunca aqui tinham estado, mas vão voltar com certeza. Esta disposição, de quem acaba de ter uma revelação extraordinária, marca o fim de tarde no pátio da Quinta da Foz, onde se procede a uma prova de vinhos. Antes, porém, temos a visita às instalações, guiada pela simpatia de José Maria Cálem, na companhia de dois Golden Retriever, o Branco e o Tinto, que adoram receber desconhecidos.
Entre explicações diversas, como a que mostra as vantagens de manter a tradição da pisa das uvas a pé, Alexandre encontra mais um assunto que muito lhe interessa, por outras razões: a PV, marca produzida nesta quinta, foi a primeira a cobrir os lagares e a usar gelo seco para, na fase pré-fermentativa, proteger as uvas da oxidação. Acontece que este processo químico e os seus efeitos são um tópico científico interessante.
As tílias centenárias erguem sobre o pátio um alpendre perfumado, com vista para Pinhão. Já sentados, copos de vinho na mão, as atenções dos convidados voltam-se para outras áreas – a que não será alheia a química, mas num registo diferente. Fala-se da vida e da morte, das nossas e das dos entes queridos. E de como a dor de certas perdas pode ser devastadora mas traz, tantas vezes, reencontros e descobertas.
Das generosas janelas do DOC, onde voltamos para o jantar, observa-se a noite caindo no Douro e nos montes em volta, em jeito de bênção do repasto. Este inclui queijo brie com compota de três pimentos, creme de espargos verdes com vieiras e ravioli de cogumelos em azeite trufado, mais cachaço de porco bísaro com migas de feijão-frade e broa. E, no jantar do dia seguinte, mais apreciado ainda pelos convidados: carpaccio de bacalhau com broa, alcaparras e fígado de bacalhau, rodovalho no seu habitat, carré de cordeiro com puré de maçã, tarte de maçã com queijo de cabra e gelado de azeite.
Retiro com vista
De manhã, o despertar acontece nesse lugar excepcional que é a Casa de Casal de Loivos, de onde se avista a paisagem classificada como “uma das mais belas do mundo” num programa de viagens da BBC. Enquanto o Alexandre me expõe os seus argumentos sobre a reprodução medicamente assistida (a lei portuguesa actual impõe diversas limitações: não permite o recurso a esta por parte de casais do mesmo sexo, por exemplo), Richard dá umas braçadas na piscina. Depois, num bocadinho que resta da manhã, Alexandre lê-lhe, em manuscrito, o conto mais recente. Richard não tem dúvidas sobre a sua competência para esta nobre função. “É um leitor inteligente e muito emocional, e para mim isso é muito útil. Muitos leitores resistem às emoções, sobretudo à tristeza, à melancolia.”
E ele, o escritor, terá ele capacidade de se emocionar com o que escreve? Sim, admite, mas de forma controlada, porque em se deixando afundar em tristeza fica incapaz de escrever. A sua bateria, na verdade, faz-se de irritação. Zanga-se com as injustiças, e por isso quer denunciá-las. “Quando estava a escrever Goa ou o Guardião da Aurora, senti-me necessitado, não de me vingar da Inquisição, mas de expor tudo, para que o leitor soubesse. A imagem que tínhamos de Goa é uma fantasia.”
O almoço faz-se a bordo de um rabelo restaurado. No DOC, responsável por esta refeição, chamam a isto piquenique, mas a qualidade dos petiscos e do serviço não se altera com o rótulo. Chamuças de alheira, pastéis de Chaves, cogumelos recheados com vegetais, strogonoff de vitela maronesa. Tudo regado com espumante Vértice e um tinto Quinta do Crasto 2008, e iluminado por mais histórias tranquilas. Vamos andando devagar, e a calma total só se deixa interromper pelos comboios que, de vez em quando, riscam a profusão de verdes junto ao rio.
No dia seguinte, o regresso a casa faz-se em grande estilo: o almoço no DOP, na Baixa do Porto, permite finalmente aos convidados o contacto pessoal com o Chefe Rui Paula, que nos explica o pouco que não soubemos decifrar a partir da degustação das suas obras de arte. Depois, o tom da despedida é inevitável. Foi um prazer. E até breve, pois claro.
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por Fernanda Pratas
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