Douro – A curva do tempo

on Mar 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

A família de Francisco Olazabal é uma das guardiãs de templos onde a liturgia celebra vinho, pessoas e memórias. Na Quinta do Vale Meão sente-se o rio e a montanha. E a brisa delicada que corre entre conversas.

“A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de maio de 1861, é uma das mais notáveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os detractores dos seus vinhos. (…) [Afogou-se também] uma criatura a quem os noticiaristas não deram a mínima importância. Pois foi uma pêrda insubstituível. Era a Gertrudes, um thesouro de joias culinárias que a voragem enguliu. Foi esta mulher uma alma transmigrada das refinadas civilisações pagans, a metempsycose de algum génio do lar que presidira ás ucharias da Roma dos Cezares. Foi a cozinheira primacial do Porto, onde residia. Tinha sido chamada por D. Antónia Ferreira para dirigir os jantares dados ao barão de Forrester, no Vesuvio.” O lamento de Camilo de Castelo Branco no seu livro O Vinho do Porto – Processo de uma bestialidade inglesa (1884) destacava “uma pêrda insubstituível” da cozinheira que consta ter salvo a vida do escritor curando-o de uma neurastenia com os seus pratos no refinado Hotel Paris, no Porto.

Francisco Javier Olazabal Rebelo Valente, conhecido simplesmente por Vito Olazabal, trineto de D. Antónia Adelaide Ferreira, dita a Ferreirinha – empresária mítica dos vinhos do Douro –, lembrava as linhas de Camilo, que não morria de amores pelos ingleses, para quem a morte de Gertrudes tinha sido a verdadeira tragédia do naufrágio que vitimou o conde Joseph James Forrester e onde se salvaram a própria D. Antónia e a sua filha, avó de Francisco. Sentado na sala de jantar da sua Quinta do Vale Meão, comprada em hasta pública à autarquia de Vila Nova Foz Côa em 1857 pela Ferreirinha, Vito fala das histórias da família com pormenor, num relato vivo, detalhado e sedutor. Desmistifica a lenda de que a sua trisavó se salvou graças ao efeito-balão das saias rodadas e de que o barão se teria afundado por causa das libras de ouro que trazia à cintura. Provavelmente, explica com lógica, o barão, “que era um homem desportivamente são, terá batido com a cabeça, ou a água gelada poderá ter provocado uma congestão”. Relativamente à trisavó, parece-lhe fantasioso que se tenha salvo por causa das saias, mas antes pelo esforço dos marinheiros, que “não se ocuparam do barão e deixaram morrer a cozinheira Gertrudes”, conclui com um sorriso.

No cimo dos cerca de 300 hectares da quinta há uma capela com duas imagens dos santos António e Francisco, precisamente o nome dos dois maridos de D. Antónia. O primeiro, António Bernardo, figura extravagante que morreu novo em Paris, e o segundo, Francisco da Silva Torres, homem íntegro e dedicado, que também morreu antes da Ferreirinha. Contava-se na família que a grande empresária do Douro se referia ao primeiro marido como “Aquele que Deus levou” e, ao segundo, como “Aquele que eu perdi.”

 

Terra verdadeira

Daquele ponto mais alto percebe-se o “Meão”, ou o meio. O rio faz uma curva e contorna a quinta. Consegue-se ver o Douro de um lado e de outro. A Quinta do Vale Meão só em 1994 ficou totalmente na posse de Olazabal e dos seus três filhos, Francisco, Luísa e Jaime. É uma das mais de 20 quintas que D. Antónia deixou aos herdeiros, e que acabaram por ir parar à bisavó de Vito. Casou com o conde de Azambuja, filho do duque de Loulé e neto do rei D. João VI. Tiveram 12 filhos, entre as quais a avó de Vito, que viria a casar com um basco, Olazabal, exilado em França por ter pertencido ao movimento carlista. O pai de Vito ainda nasceu em França, mas a família mudou-se para Portugal para gerir os bens, em que se incluíam metade da quinta e uma participação na Casa Ferreirinha. Décadas depois, na geração do pai de Vito, já eram 16 proprietários. Porém, ao longo dos anos que passou na empresa, alguns deles como presidente, Francisco, formado em Economia, foi comprando parcelas do Vale Meão até à sua totalidade em 1994.

A formação do seu filho em enologia – também de nome Francisco, conhecido por Xito – e a sua disponibilidade para viver na quinta precipitaram a decisão de Vito para deixar a Casa Ferreirinha em 1998 e assumir a sua própria marca de vinhos. Quando era criança, conta o pai, “desenhava garrafas e pipas em vez de automóveis e aviões”.

Anteriormente, parte das uvas do Vale Meão eram utilizadas pelo enólogo Fernando Nicolau de Almeida para produzir o tinto Barca Velha, o primeiro vinho de mesa seco do Douro a ganhar fama internacional. Tal como acontece com muitas famílias proprietárias de quintas na região, os parentescos eram frequentes e Olazabal não foi exceção. A filha do “alquimista” do Barca Velha, Maria Luísa, acabaria por casar com Vito. Hoje, passados 50 anos de matrimónio, divide a sua vida entre a sua casa de sempre e a da Praia da Granja (entre Porto e Espinho) e dedica-se ao papel de anfitrião de clientes, visitantes e amigos da família.

Xito desde cedo que traçou o seu destino. Ia com amigos para o Vale Meão para vindimar com 15 ou 16 anos, fez vários estágios na Casa Ferreirinha e na Ramos Pinto, entre outros produtores, e viria a formar-se em enologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real. Quando circula pelo meio da quinta com o jipe, vai parando para colher alguns cogumelos que podem tornar-se um belo petisco na frigideira. Sabe os nomes científicos de quase todos, o que deixa os eventuais convidados descansados. Trata as vinhas com familiaridade e o campo com proximidade. Quando se decidiu pela enologia, só tinha uma ideia: nunca passar a vida num escritório. Sabe que a vida de um enólogo tem esse encanto, apesar de ainda gerir financeiramente a empresa e tratar da parte comercial. Hoje, com a ajuda dos irmãos Jaime e Luísa, ainda tem tempo para assumir a consultadoria de enologia nas terras dos seus primos na Quinta do Vallado.

 

Sem pressas

Os tempos das jornadas épicas entre o Porto e a quinta para perfazer as duas centenas de quilómetros já lá vão. Antigamente a maneira mais segura era de barco, pequeno, que em algumas partes do rio, com rápidos, tinha que ser puxado por bois. A viagem demorava dez a 12 dias e a cavalo era mais perigoso, uma vez que as serras estavam ocupadas por salteadores. Quase cem anos depois, com a abertura da auto-estrada, Xito consegue circular sem descurar as intervenções na vinha, as provas e a elaboração dos lotes. Está ligado ao projeto Douro Boys, que reúne há uma década os produtores da Quinta do Vallado, Quinta do Crasto, Quinta do Nápoles, Quinta do Vale Dona Maria e Vale Meão. Uma união que Francisco associa à “grande revolução no Douro que passou pela partilha de experiências”, contrariando o velho lema de que o segredo era a alma do negócio. O enólogo tem ainda um pequeno projeto na região do Dão, em que, juntamente com os produtores Jorge Moreira e Jorge Serôdio Borges, faz os vinhos MOB (Moreira, Olazabal e Borges).

Nem sempre tudo foi fácil. Francisco lembra uma visita de um crítico da revista Wine Spectator que em 1997 provou uma série de vinhos do Douro e decidiu não escrever sobre nenhum alegando que só um ou dois mereciam mais de 90 pontos (em 100). Xito não gostou, mas deu-lhe razão. Recorda que “no Douro, com a exceção do Barca Velha, Duas Quintas ou Quinta do Côtto, só se faziam vinhos de qualidade de mesa, secos há pouco mais de duas décadas”. Relativamente aos vinhos da sua quinta, Meandro, Vale Meão e Monte Meão (dois monocastas), além dos Portos, a ideia continua a ser “crescer bem, mas muito devagar, com poucas garrafas e manter o espírito familiar”. A mesma ideia de Vito Olazabal, que sente que ainda há muito para fazer.

“O vinho é uma coisa lenta”, diz o patriarca. Observa que a segurança passa pelos vinhos “serem considerados como clássicos, com um perfil que resista às modas e vicissitudes dos mercados”. Aponta que os grandes nomes do vinho são antigos, como o francês Romanée-Conti, com vinhas que remontam ao século XIII. O trineto de D. Antónia não se esquece da resposta de Philippine de Rothschild, da casa Château Mouton Rothschild, que, quando lhe perguntaram a razão do sucesso, respondeu que o difícil foram os primeiros 200 anos.

A tranquilidade da fita do tempo no Vale Meão, a minutos das gravuras rupestres de Foz Côa, mede-se pelos poucos sons que ondulam pelos socalcos durienses ou pelo simples crepitar de uma lareira na bonomia de uma casa onde se recebe forasteiros como família. Xito Olazabal vai continuar a promover os seus vinhos em feiras internacionais, a escolher lotes e a experimentar castas como fez com a recente baga da Bairrada que plantou no Vale Meão. Sobra-lhe tempo para a sua paixão pelo golfe, pela natação, pela cozinha ou mesmo pelos barcos que aluga durante as férias.

Apesar de parte das uvas terem sido utilizadas no Barca Velha, Xito pode orgulhar-se de ter sido o pai do primeiro Vale Meão de 1999, lançado em 2001, imediatamente com pontuações acima da média atribuídas pelos principais críticos mundiais. Por exemplo, o vinho de 2011 conseguiu uma pontuação de 97 pontos em 100 possíveis na prestigiada Wine Spetactor.

Vito Olazábel também se pode envaidecer da quinta e dos feitos alcançados pelos seus três descendentes, mas o seu percurso chegaria para o próprio Douro o acolher como filho predileto.

quintadovalemeao.pt

 

por Augusto Freitas de Sousa /// fotos Enric Vives-Rubio

Arquivos

Casa do Rio

Uma extensão do wine hotel da Quinta do Vallado, mesmo em frente ao rio Douro, na Quinta do Orgal, com seis quartos. A ideia é relaxar sem nenhuma perturbação e usufruir de um silêncio quase irreal e uma tranquilidade fora de série. O restaurante serve pratos tradicionais com o gosto da chef Ana Rita. O hotel em Foz Côa, da autoria de Francisco Vieira de Campos, revela um edifício feito totalmente em madeira, suspenso, entre as encostas de vinhedo, com o rio em pano de fundo.

quintadovallado.com

Petiscaria Preguiça

A vontade do francês Jean levou-o a abrir uma das casas mais procuradas no concelho de Foz Côa, mais precisamente na Quinta Chão do Ribeiro. Uma vista deslumbrante sobre o Douro, ambiente familiar e comida caseira são as linhas mestras de uma casa que serve produtos naturais com uma frescura inesquecível e, quase sempre, peixe do rio. A sopa de peixe é imperdível. Há muitos clientes que aproveitam para ir de barco, uma forma simples de chegar ao local.

fb.com/petiscariapreguica

Taberna do Carró

Na casa de Joaquim Morais, em Torre de Moncorvo, tudo o que vem para a mesa podia ter certificação de origem. E alguns produtos têm-na mesmo, como a posta mirandesa que se serve como prato principal. Há inúmeras entradas de enchidos, queijos e outros petiscos, que são servidos conforme a sua própria sazonalidade. Mesmo ao lado do restaurante, a loja da mulher, Dina, uma mercearia fina com outras propostas e o único sítio onde se encontram as amêndoas cobertas de Moncorvo certificadas.

Largo General Claudino, Torre de Moncorvo \\\ +351 279 252 699

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