Delfim Sardo
Conversas frugais com taxistas e diálogos íntimos com o artista Diego Velázquez. Qual é a ligação? Fazem parte das viagens profissionais de Delfim Sardo, curador geral da Trienal de Arquitectura de Lisboa, que começa em Outubro.
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São conversas que duram o tempo de uma viagem. Cinco minutos, meia hora no máximo. Ligado o taxímetro, o condutor transforma-se em boletim de meteorologia, comentador desportivo, queixoso do estado actual das coisas, doutor em política interna, crítico de política externa e censor social. “Falo imenso com taxistas por esse mundo fora”, diz Delfim Sardo, professor universitário, ensaísta e crítico de arte. Começou a vida na cidade de Aveiro, onde nasceu em 1962, estudou filosofia, foi professor de liceu e, cansado de impingir Platão a jovens dominados por alteração hormonais, acabou nas malhas da sua própria paixão por arte contemporânea. Nesse percurso foi director do Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém e consultor da Fundação Calouste Gulbenkian.
Assume-se, sobretudo, como curador, essa espécie de olheiro da arte, mediador entre o mercado e os artistas, agente de apostas, criador de exposições, inventor de génios. Para isso é preciso estar absolutamente atento ao presente, ver muitas exposições, espreitar catálogos e viajar. Viajar muito. Em algumas dessas deslocações há paragens obrigatórias. “Sempre que vou a Madrid vou ao Museu do Prado”. Sempre que vai ao Prado, vai ver Diego Velázquez. Sempre que vai ver Velazquéz, vai ver o quadro As Meninas. Atravessa corredores de pintura sem interromper o passo e só pára quando chega ao destino. Olha, aproxima-se, afasta-se. “É uma pintura que não é para ver uma vez só, é para ver muitas”. Aí fica. Em frente da obra-prima barroca do retratista absoluto, estrela da corte de Filipe IV de Espanha, observando a tela dentro da qual está toda a filosofia da arte, cheia de realismo fotográfico, chave da arte moderna, janela aberta sobre uma época. Um quadro pode justificar uma viagem. Pelo menos, para Delfim Sardo.
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Luz e escuridão
Há dois acontecimentos culturais que lhe marcam o ritmo das voltas pelo planeta: a Bienal de Veneza e a Bienal de São Paulo. Comparece sempre à chamada. “São Paulo é difícil de conhecer muito bem, porque é gigante”. Verdade. Sempre que vai, há restaurantes diferentes na berra, galerias a estrear, edifícios acabados de construir – a arquitectura é uma das suas paixões – novos paradigmas. “Na última vez que lá estive fiquei em Higienópolis e adorei. Foi um bairro construído segundo rigorosos parâmetros de higiene, para ser uma cidade de futuro”, conta. A metrópole é tão imensa que, quando está em São Paulo, Delfim Sardo entrega-se nas mãos dos amigos locais para circular e conhecer o que há de novo. “Tem um frenesim louco, muito business, muita intensidade. Os museus e as galerias estão em São Paulo e os artistas vivem no Rio de Janeiro.” Uma das suas cidades-fetiche. “A maneira como nos mexemos no Rio é fantástica. Há poucas metrópoles onde, em qualquer deslocação, estamos sempre quase a pôr os pés na areia da praia. É difícil de imaginar como se pode ter um ritmo de trabalho normal naquele sítio. Apetece constantemente parar um bocadinho, beber uma água de coco, partilhar uma cerveja com amigos.”
Quanto a Veneza, essa não estica. É daquele tamanho, no limite, quase a cair nas águas. “Então, sempre que vou a Veneza repito as coisas que já fiz no passado. A única coisa que quero é encontrar os mesmos sítios onde estavam da última vez.” Beber um copo no Harry’s Bar de sempre, ou jantar no seu restaurante favorito para degustar a culinária veneziana: a Trattoria Antiche Carampane. Aqui está outra paragem que Delfim faz com a mesma carga emocional com que visita As Meninas. Salvas as devidas diferenças. É um restaurante perdido nas vielas labirínticas, num antigo bairro de bordéis, com poucas mesas, duas ou três sob as estrelas, uma matrona aos comandos, peixe e marisco em destaque. Numa noite de apagão, corte geral de energia na cidade, Delfim Sardo viveu uma experiência fantasmagórica. “Estava a caminho do Antiche Carampane e não se via um palmo à frente. Ali é perigoso porque podemos ir parar a um canal. As pessoas começaram a pôr lamparinas à janela. Tive a sensação de que tinha chegado à Veneza do Casanova, no século XVIII: era esconso, assustador, feérico. Lá consegui chegar e não se via nada, apesar da vela que pousaram na mesa. Eu nem sabia o que estava a comer, mas era delicioso.”
A viagem dentro de nós
“O que é fantástico nas viagens é que cruzam-se de tal maneira com o imaginário criado pela literatura e pelo cinema, que há sítios onde temos uma experiência de confirmação.” Delfim sentiu essa epifania num restaurante de Chiang Mai, no norte da Tailândia. Uma casa tradicional da Indochina, construída em cruz para permitir a circulação do ar, como as que são descritas nos romances de Marguerite Duras. Foi-lhe indicado um lugar no ponto ideal de cruzamento da brisa. “Foi uma sensação de bem-estar total. Pensei: isto não se repete.”
Chegar a Nova Iorque é a confirmação das imagens de todos os filmes que já vimos passados naquela cidade. Antes de lá irmos, já lá estivémos milhares de vezes. “Tenho um amigo americano que insiste em levar-me a um tasco de Greenwich Village, onde ele acha que se comem os melhores hambúrgueres do mundo. É um sítio um bocado gorduroso, com um velhote obeso de cabelo comprido na cozinha, com uns clientes que parecem estar aparafusados aos bancos, com vista para uma esquina muito típica. Estar ali é estar dentro de Nova Iorque.”
Los Angeles é outro filme. Uma cidade absolutamente cénica. “Dá-nos a sensação de repérage cinematográfica. Aqui estou na Mulholland Drive, ali no Sunset Boulevard…” Em Odessa, na Ucrânia, foi ver a escadaria onde se passou uma cena mítica de O Couraçado Potemkine, de Eisenstein.
As referências não o largam e Delfim Sardo insiste em carregar as que lhe faltam. “Gosto de viajar com livros: ler Orhan Pamuk na Turquia ou as Memórias de Casanova em Veneza”. Na grande viagem inaugural que foi o primeiro InterRail, ainda adolescente, Delfim Sardo deu por si a ler as Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar numa praia grega: “Foi uma coisa formativa”.
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por Manuela Carona
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