De volta a casa

on Feb 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

A jornalista e crítica literária evoca o seu país interior e a beleza imperfeita da terra e das gentes.

No regresso a memória reaviva-se. Fora, vive-se dela e fica mais claro aquilo que nos faz, sobretudo por ser mais claro o que nos falta. No último regresso, havia uma lua redonda, grande, brilhante na escuridão. Vi-a de frente, eu em situação privilegiada. Ela, suspensa no grande cosmos, única coisa a existir. Naquele momento, pareceu-me, uma lua guia, sinal extravagante num vazio colossal, a milhares de quilómetros de qualquer chão, fez-me esquecer que havia um oceano por baixo de nós e que eu seguia no avião. Como se eu e ela existíssemos além do mundo, um feitiço de lua com uma única função: levar-me até casa.

A que chamo casa? Antes de tudo, ao vale que eu olhava de cima, desde monte onde cresci, às vinhas que se estendiam pelas colinas, com os moinhos no topo, e para lá o mundo que esse horizonte me prometia. Eu existia numa casa no campo virada para um mundo que eu não via. Eu era – sou – daquele sítio e sempre que saísse dele seria para voltar. Antes de tudo, para mim, Portugal era aquilo. O sol a ofuscar-me os olhos a cada manhã sempre que saia de casa e o odor do alecrim no vaso ao lado da porta. A uva a amadurecer na parreira, o cão a lamber-me as mãos, o cheiro a torradas e a café, os lençóis brancos a secar no grande estendal perto do poço onde cresciam malvas. Sempre verdes. Para o chá, para perfumar a água de lavar o rosto pela manhã. Era as vozes das mulheres a saudar quem passava na ladeira ao longe. Quando me disseram – ou eu tive consciência, não me lembro como foi – de que era portuguesa, Portugal era um conjunto de sons e cheiros e paisagem onde imperava o aroma a iodo do mar, bem perto e eu onde ia sempre. Foi a ver o mar que aprendi a andar e talvez isso queira dizer qualquer coisa. Eu gostaria que dissesse. Casa era, assim, o campo e o mar, o mosto das uvas, a maresia. Era o som de uma língua em muitas tonalidades. O fio da água salgada no primeiro mergulho de verão. O mexilhão acabado de apanhar, a grande cozinha onde aprendi a escrever português e se preparavam os alimentos, o centro da vida.

Quando digo o meu nome, há uma série de imagens que vêm com esse nome, mas quando digo que sou portuguesa, há imagens e sons, e cheiros e paladares. O pão acabado de cozer molhado no azeite, a maciez da pele das mãos da minha avó na minha pele, as castanhas assadas que se comiam nos dias de chuva enquanto se olhava o vale ou um filme. Portugal tem sido – é sempre – mais um acrescento de coisas a cada ano que vivo, a cada vez que regresso. Portugal é imperfeito e ainda gosto mais dele por isso. É um jogo do Benfica num domingo à tarde com tremoços e pevides, a subida de uma ladeira íngreme em Lisboa, com o Tejo ao fundo; a escarpas negras da costa onde o mar bate, um barco ao longe. É o vento da nortada, é o bacalhau com todos, as conversas à mesa sem tempo para terminarem. É a complacência com as demoras, a vizinha da minha avó a dizer “Tenho de ir”, mas sempre a deixar-se ficar porque a conversa estava boa. Portugal é tanto, também, a minha memória dele. Digo: sou portuguesa e isso parece não ter fim. Quando olho a Lua e ela sabe que me está a indicar o caminho de casa e deve saber que sou portuguesa, que sinto entusiasmos e nostalgia, que estou quase a chegar perto do mar onde o Sol se põe a cada tarde, e respirar bem fundo o Atlântico. Nessa altura, irei lembrar-me que lá em cima há uma Lua suspensa que sabe guiar-me até casa. Estava lá antes de mim. Continuará depois. Lua, assim, escrita e dita em português, com toda a memória e história que essa língua carrega, e que está em cada palavra que escolho, ou simplesmente digo e escrevo. Existo melhor quando existo em português e isso acompanha-me pelo mundo.

 

por Isabel Lucas

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Isabel Lucas



Começou a fazer jornalismo na televisão e passou pelas redações de alguns dos principais títulos portugueses. Freelancer desde 2012, escreve regularmente para o Público, colabora com a Ler, para além de outras publicações nacionais e internacionais, e as rádios Antena 1 e Antena 3. Publicou Viagem ao Sonho Americano (Companhia das Letras), resultado de uma viagem de um ano pelos EUA. Foi curadora em Portugal da edição de 2018 do Prémio Oceanos.

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