10 Básicos de Copenhaga

on Sep 1, 2010 in 10 Básicos | No Comments

Organizada sem ser aborrecida. Festiva sem ser barulhenta. Histórica sem ser antiquada. Ecológica sem ser lenta. Trendy sem ser pretensiosa. Copenhaga, a capital do design, é uma cidade com escala humana onde é fácil viver, circular, respirar ar puro e ter acesso a cultura. Muito mais do que cerveja e Lego. Uma viagem ao primeiro mundo.

1 - Era uma vez…

Na capital do reino mais antigo do mundo mora uma rainha cuja ancestralidade pode ser traçada até ao tempo dos vikings, há mil anos. Margarida II tem a seus pés uma cidade que começou por ser uma aldeia piscatória – próspera devido aos cardumes de arenques – governada por Forkbeard, filho de Harald Bluetooth, o rei que converteu a Dinamarca ao cristianismo. Quanto mais rica se tornava a aldeia de Slotsholmen mais acossada era por salteadores, até que o rei Valdemar I a entregou ao bispo Absalon, que em 1167 ali construíu um forte. As ruínas ainda podem ser visitadas por baixo do palácio de Christiansborg. A velha aldeia seria proclamada capital da Dinamarca em 1443. Foi durante o reinado de Cristiano IV, no início do século XVII, que a cidade ganhou o seu esplendor, com a construção de dois castelos e vários edifícios grandiosos. No entanto, a guerra não lhe deu descanso. Guerra com os suecos, que disputavam o domínio do estreito de Oresund. Guerra com os ingleses, que por não gostarem do apoio dinamarquês a Napoleão bombardearam a cidade em 1807. Por fim, Copenhaga foi ocupada pela Alemanha nazi, que, apesar de manter a cidade intacta, ordenou a deportação dos judeus. Então, numa organização heróica, um grupo de dinamarqueses conseguiu evacuar por mar cerca de sete mil judeus, que ficaram a salvo na Suécia.

2 - Design

Chamem-lhe bom gosto. Chamem-lhe obsessão. A verdade é que tudo em Copenhaga – as edifícios, as lojas, os restaurantes, o mobiliário urbano – é de um preciosismo estético invulgar. O próprio município proibe as esplanadas de terem cadeiras de plástico branco ou guarda-sóis de cores berrantes com publicidade. É um vírus de sofisticação que invade todo o espaço público. Talvez seja porque estamos na capital do design, onde nomes como Arne Jacobsen, Hans Wegner, Poul Kjaerholm e Georg Jensen desenharam objectos, móveis e prédios que ficaram famosos. O segredo: simplicidade, materiais de qualidade e funcionalidade. Arne Jacobsen, cujo centenário do nascimento foi celebrado em 2002, é considerado o pai do design dinamarquês e foi um dos pioneiros do funcionalismo. O Hotel Radisson Blu Royal, a obra emblemática onde ele não só assinou a arquitectura, como desenhou móveis e talheres, é uma atracção para quem quer ver a essência do minimalismo dos anos 60. Para saber mais, o Danish Museum of Art & Design vale bem uma visita e no Danish Design Center pode actualizar-se sobre as últimas criações. Para comprar, fique a saber que a megaloja Illums Bolighus foi considerada pelo Financial Times como “a melhor do mundo em artigos de casa e design”. As lojas das aparelhagens Bang & Olufsen, dos serviços de café Bodum e dos talheres de prata Georg Jensen são obrigatórias.

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3 - Verde e limpa

Copenhaga quer ser a primeira capital do mundo neutra em emissões de CO2 e já tem data para atingir esse objectivo: o ano de 2025. A luta contra o efeito de estufa e o aquecimento global está a unir os esforços de todos: população, comércio e políticos. A palavra de ordem é “verde” e o plano passa por construir nos próximos tempos 14 moinhos de energia eólica. O ar leve e impoluto que se respira nas ruas é invulgar numa metrópole e tem razão de ser: 55 por cento dos habitantes deslocam-se de bicicleta, o que torna os engarrafamentos uma coisa rara. Vê-se de tudo sobre duas rodas: executivos engravatados, mães com bebés, senhoras com reboques cheios de compras de supermercado e, à noite, não há saltos altos que impeçam ninguém de pedalar. Os turistas têm à disposição as City Bikes, emprestadas mediante uma caução de 2,5 euros. Os autocarros eléctricos City Cirkel são outra forma de percorrer as atracções turísticas sem poluir. A venda de alimentos biológicos está em alta. Por toda a parte se lê a palavra “okologist”, seja em iogurtes, pão ou refrigerantes. Até existe uma pseudo-Coca-Cola biológica e no Bairro Latino encontra-se uma roulotte de cachorros quentes sem produtos artificias. O Bio Mio é o maior restaurante deste tipo, onde o vinho e o whisky são biológicos e as fardas dos empregados são feitas com algodão proveniente do comércio justo.

4 - Arte e cultura

Os museus acotovelam-se no centro da cidade e há-os para todos os gostos. Escultura? A Ny Carlsberg Glyptotek, fundada pelo cervejeiro Carl Jacobsen em 1888, tem uma colecção de escultura que vai desde a antiguidade grega e bustos romanos até Rodin. Na secção de pintura encontram-se Manet, Renoir, Van Gogh, Cézanne e outros nomes incontornáveis. História? O Nationalmuseet narra as aventuras dos dinamarqueses, desde a pré-história ao presente. Arte? O Statens Museum for Kunst é a galeria nacional por excelência e tem mais de 260 mil peças de arte dinamarquesa e internacional. E mais. A história da comunidade judaica está exposta no interessante Dansk Jodisk Museum, projectado pelo arquitecto Daniel Libeskind. Num registo diferente, há o Museu do Erotismo, que, para além das pinturas chinesas e dos vasos gregos com cenas picantes, explora a vida sexual de Freud e Nietzsche, e o Centro de Visitas Carlsberg, na fábrica de cerveja fundada em 1847, com direito a provas. As galerias de arte têm um novo ponto de encontro num antigo centro de matadouros e talhos, na zona de Vesterbro. A V1 Gallery representa um grupo de artistas emergentes, enquanto que a Bo Bjerggaard acolhe nomes consagrados internacionalmente. O cartão Copenhagen Card, com validade de 24 ou 72 horas, dá entrada grátis em museus e outras atracções e descontos em transportes e lojas.

5 - Revolução no prato

Era segredo de avós e de livros de receitas metidos no fundo das gavetas. E, de repente, a culinária dinamarquesa tornou-se sofisticada. Chefes de prestígio começaram a explorá-la, a abrir restaurantes e, este ano, o Noma foi considerado o melhor do mundo pelos prémios S. Pellegrino, os óscares da gastronomia. René Redzepi dirige uma cozinha onde os ingredientes e técnicas locais são soberanos: peixes e mariscos, caça, frutos silvestres, cogumelos, legumes crus, simplicidade na preparação e uma decoração minimalista num armazém naval do século XVIII. Copenhaga tem agora 12 restaurantes com estrelas Michelin – um recorde para a sua dimensão. No dia-a-dia, os habitantes gostam de almoçar o tradicional “smorrebrod”. Mais fácil de comer do que de pronunciar, trata-se de fatias de pão escuro barradas com manteiga e cobertas com carnes fumadas, peixe, vegetais ou queijos – a imaginação é o limite – acompanhadas de cerveja ou snaps. O Aamanns e o The Royal Café elevam o “smorrebrod” a uma arte divina. Os dinamarqueses são o povo do mundo que come mais carne de porco e grande parte vai para as “rod polse”, salsichas vermelhas, vendidas em “polsevognen”, roullottes de cachorros quentes, por toda a cidade, Verão ou Inverno, dia ou noite. Na rua come-se de tudo: crepes com Nutella, taças de fruta fresca, amêndoas torradas, batidos, gelados, tudo em movimento para não perder pitada da animação da cidade.

6 - Vida de rua

É vida que corre pelas artérias de Copenhaga, gente a passear, carrinhos de bebé estacionados à porta das lojas, engolidores de fogo, um homem invisível que atrai multidões e um pobre viking obeso que, em duas horas, só conseguiu 3 coroas. Stroget é a maior rua pedonal da Europa, intensamente comercial, com cafés, esplanadas, casas de sushi, música ao vivo, lojas de produtos artesanais e grandes marcas internacionais, como Chanel, Gucci, Prada e Louis Vuitton. Estendendo-se da Radhuspladsen (Praça do Município) à Kongens Nytorv, junto ao porto, Stroget pode ser traiçoeira, transformando qualquer sovina num shopaholic. O Magasin du Nord, o mais antigo armazém de Copenhaga, situado num edifício impressionante, é uma perdição consumista, com um supermercado que vale a visita para conhecer as especialidades nórdicas, como arenque marinado, patê de alce e almôndegas de porco. A zona de Norrebro está a ganhar fama como centro de cafés com estilo, bares avant-garde e muitas compras. Tem uma mistura étnica interessante e habitantes jovens e modernos. O renascimento de Norrebro começou à volta da Sankt Hans Torv, uma praça cheia de esplanadas. O Pussy Galore’s Flying Circus é o ponto de encontro da moda.

7 - À beira de água

A pequena sereia – Den Lille Havfrue – está desde 1913 sentada num rochedo, de expressão melancólica, recebendo hordas de turistas. Só passados quase cem anos é que a sua vida mudou: actualmente está na China, a embelezar o pavilhão dinamarquês da Expo 2010 de Xangai. Voltará em Novembro. Quem virar costas ao rochedo vazio, vê dois pavilhões verdes, usados pela família real quando embarca no iate Dannegrog, de 79 metros, atracado mesmo ali. Caminhando pela margem, encontra-se Amalienborg e Frederiksstaden, um complexo monumental de quatro palácios rococó, residência oficial da Rainha Margarida e do príncipe herdeiro. Os tours pelo porto – em barcos ecológicos – são a melhor maneira de assistir à vibração da Copenhaga dos canais. Os barcos partem de Nyhavn, antigo bairro de marinheiros e tabernas, hoje uma área recuperada e simpática. O Diamante Negro, uma extensão da biblioteca real em granito e vidro escuro, é a coqueluche arquitectónica mais recente. O edifício abriga não só livros, mas também uma sala de concertos e o conceituado restaurante Soren K – assim chamado em homenagem ao filósofo Soren Kierkegaard, um dos notáveis da cidade. A nova Ópera é uma jóia da arquitectura moderna. Os canais de Christianshavn revelam um bairro cheio de charme, uma pequena Amsterdão, com edifícios do século XVII e pitorescas casas flutuantes. Numa zona de floresta encontra-se Christiania, um território ocupado por hippies nos anos 70, onde vigoram leis próprias e um modo de vida peculiar. Algumas das casas de Christiania parecem ter sido feitas quando os seus donos estavam sob o efeito de drogas duras.

8 - Os jardins do Tivoli

Meninos e meninas, eis o parque de diversões de sonho. Inaugurado em 1843, bem no centro de Copenhaga, com jardins, lagos, pavilhões chineses, um palácio árabe e um teatro cuja cortina do palco é decorada com uma gigante cauda de pavão. O segredo do Tivoli é ter todo este património preservado, continuar a acender as 120 mil lâmpadas decorativas e lanternas chinesas todas as noites e não falhar nem um desfile da guarda de rapazes, com fanfarra, carruagens e cavalos, uma performance que encanta os visitantes desde 1844. Claro que também há restaurantes, loucas montanhas russas, viagens impróprias para cardíacos, carrosséis para crianças pequenas, barquinhos vermelhos às voltas no lago, um aquário inspirado num recife de coral e espectáculos ao vivo. Se tudo isto não for suficiente, importa dizer que os jardins do Tivoli foram uma grande fonte de inspiração para Walt Disney, que saiu de lá decidido a construir algo parecido na América. Foi o Rei Cristiano VIII quem concedeu os terrenos a Georg Carstensen, que tinha vivido no Médio Oriente e construíu edifícios em estilo oriental, uma montanha russa e um carrossel puxado por cavalos. O parque tornou-se tão importante para os habitantes da cidade que, em 1944, os ocupantes nazis fizeram explodir parte do Tivoli para desmoralizar os dinamarqueses.

9 - Ritmo nocturno

A partir dos anos 60 o jazz invadiu Copenhaga de mansinho, fazendo da capital nórdica a Nova Orleãns europeia. Músicos americanos como Dexter Gordon, Stan Getz – viveu 4 anos na cidade – e Ben Webster – que ficou em Copenhaga de 1964 até ao fim da vida – encontraram aqui um ambiente tolerante e um público entusiasmado, muito diferente do que se passava nos Estados Unidos. Os músicos negros descobriram a Europa durante a II Guerra Mundial, meio milhão estava a combater em solo europeu, e aqui sentiram-se aceites e acarinhados. O fenómeno continua. Em Copenhaga há imensa oferta de sítios para ouvir música ao vivo, onde actuam talentos locais e estrangeiros. Os concertos estão sempre esgotados e a variedade de géneros é imensa. Há clubes, bares, salões de dança e música na rua. O Copenhagen JazzHouse apresenta mais de 250 espectáculos por ano e também é discoteca da moda. A penumbra do La Fontaine, com um ambiente mais íntimo, é ideal para assistir a jam sessions. O Festival de Jazz de Copenhaga é uma instituição. Mas festivais há muitos e aqui a música electrónica está a ganhar terreno com dois acontecimentos importantes: o Strom e o Distortion. Para beber uns copos e abanar o pé há o Karriere, um bar-galeria de arte, o Vega e o Culture Box.

10 - A cidade de Andersen

Se cada cidade tem uma personagem central, Copenhaga tem Hans Christian Andersen. Nascido em 1805, em Odense, filho de um sapateiro, Andersen foi aos 14 anos viver e estudar para a capital. “Toda a gente nas ruas, o barulho e tumulto de Copenhaga excederam em muito qualquer ideia que a minha imaginação tivesse formado”, escreveu no diário. Mal chegou, dirigiu-se ao Teatro Real, decidido a ser actor, mas poucas vezes o chamavam para actuar. O seu verdadeiro talento residia na escrita. Foram histórias como O Patinho Feio e A Pequena Sereia que lhe deram reputação. Na verdade, ele foi o fundador da literatura infantil. Copenhaga está cheia de sítios ligados ao seu nome: sejam os apartamentos em Nyhavn, numeros 20, 67 e 18, o Hotel d’Angleterre, onde ficou em 1860, ou a sua estátua em frente à Câmara Municipal. Pode até visitar um dos seus estúdios: no Magasin du Nord apanhe o elevador para o terceiro andar, ignore os trens de cozinha e dirija-se à porta que leva ao sótão. Andersen viveu aqui quando tinha vinte e poucos anos e no seu quarto foi aberto um pequeno museu. Ao lado, fica o café A Porta, uma cafetaria de decoração elaborada onde o escritor costumava comer. O parque de diversões dos jardins do Tivoli eram para ele uma inspiração constante. Hoje existe um carrossel em sua memória, com 32 cenas dos contos que escreveu. Menos familiar ao próprio escritor é o museu Hans Christian Andersen, na Avenida H C Andersen, numa versão demasiado infantil da vida de um homem que se levava muito a sério.

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por Manuela Carona

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