Copenhaga – Há algo de maravilhoso no reino da Dinamarca

on Sep 3, 2019 in Partida | No Comments

Um país que tem o menor nível de desigualdade, a maior distribuição de riqueza, o menos corrupto, um dos mais pacíficos e com o maior índice de felicidade do planeta. Uma cidade cuja política é criar locais de encontro, espaços limpos onde os cidadãos se sintam seguros, imensas áreas verdes e incentivo ao uso de bicicletas, onde os edifícios antigos são cuidadosamente preservados e os novos bem desenhados e sustentáveis. Onde o transporte público é de qualidade, os telemóveis estão sempre no silêncio e ninguém fala alto. Parece mentira? O segredo é o hygge!

Novos vikings

São os próprios dinamarqueses que lançam o mote na página web oficial do país: “Antes fomos vikings brutais. Agora somos uma das sociedades mais pacíficas do mundo. Bem-vindo à Dinamarca”.

E assim foi, de facto, quando a nação de guerreiros, piratas e exploradores colonizou grandes áreas na Europa entre os séculos VIII e XI. Os dinamarqueses controlaram Inglaterra, Suécia, Noruega e Islândia, as costas do Báltico e regiões da Alemanha. A Dinamarca, incluindo a Gronelândia e Islândia, juntou-se à Noruega e Suécia numa monarquia única que se designava União de Kalmar, que prevaleceu até 1814, mas já sem a Suécia desde 1523. Hoje as Ilhas Faroé e a Gronelândia pertencem à Dinamarca, mas com governos próprios. Anos de disputas e guerras com suecos e alemães antecederam a aprovação da Constituição em 1849, que convertia em constitucional a monarquia dinamarquesa. De neutral na I Guerra Mundial a invadida pelos nazis na II, chegou novamente à independência em 1945. Juntou-se à União Europeia (então Comunidade Económica Europeia) em 1973.

A história da atualidade faz-se pelos inúmeros índices que posicionam o país a nível mundial como o socialmente menos desigual, com a maior distribuição de riqueza, o mais alto nível de felicidade, o menos corrupto, e um dos mais pacíficos. Um Estado de bem-estar social onde os princípios da saúde, assistência e educação universal imperam. A sustentabilidade e a defesa do ambiente são também bases comuns na legislação que se tem vindo a aprovar há décadas. Os impostos são efetivamente dos mais altos do globo, mas a maioria das pessoas dirá que está feliz por os pagar porque percebem o que recebem em troca. Em suma, exatamente o oposto do referido por uma conhecida expressão ancestral que alvitrava que “algo está podre no reino da Dinamarca”. A frase de Hamlet de William Shakespeare alude à corrupção, traição, vingança e assassínios que ocorriam no reino. Não podia estar mais longe da atual realidade.

visitcopenhagen.com \\\ denmark.dk \\\ kongehuset.dk

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Sustentabilidade à frente

O chef Morten Kryger Wulff servia um branco Melonix da casta Melon de Bourgogne enquanto explicava que o tinha no restaurante por ser biológico e sustentável. Apressou-se a acrescentar que o vinho chegava a Copenhaga por barco. “Mas à vela, claro.”

O pormenor pode deixar de o ser quando conjugado com centenas, milhares de hábitos que promovem a qualidade de vida, o ambiente e a sustentabilidade, que em Copenhaga se percebem desde logo. Não é por acaso que na cidade se sente uma tranquilidade difícil de encontrar em qualquer capital europeia. Haver mais bicicletas do que automóveis, parques verdes, canais despoluídos e o respeito mútuo, entre outros fatores, ajudam à perceção dessa calma. Pequenos comportamentos como os telemóveis em silêncio, as conversas em voz baixa nos transportes públicos, as advertências parentais, o cuidado com o desconforto que se pode provocar a terceiros, sobretudo em espaços públicos, são práticas comuns.

Há uma série de apostas surpreendentes. Ao passar na Rua Refshalevej, com o restaurante Noma à direita (várias vezes designado “o melhor do mundo”), vai-se dar à nova zona de Reffen (Copenhagen Street Food) e, circundando os canais, ao longe vê-se uma central de tratamento de lixo. A Copenhill Amager Bakke, construída pelo gabinete de arquitetura Bjarke Ingels Group e mesmo ao lado uma zona residencial, é também um centro de desportos urbanos de montanha. Isto é: na cobertura da zona central há uma pista para snowboard e ski e atividades de corrida, trekking e montanhismo. Por ano são aqui tratadas 400 mil toneladas de lixo que aquecem 160 mil casas, fornecem eletricidade a 62 500 e recuperam cem milhões de litros de água. Reutilizam 90% dos metais, e as cinzas depositadas vão para materiais de construção de estradas. Não há cheiro ou poluição, até porque têm uma eficiência energética de 99%.

copenhill.dk \\\ reffen.dk \\\ big.dk

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Cidade habitável

O foco da política arquitetónica em Copenhaga é criar locais de encontro. As áreas verdes, o porto e os canais limpos e a cultura do ciclismo são só alguns pontos intimamente ligados à arquitetura. Apesar de existirem áreas em que apenas existem prédios contemporâneos, no centro histórico a arquitetura moderna entreliga-se com os antigos edifícios. Tudo passa pela criação de um espaço urbano limpo, exterior ou interior, onde os cidadãos se sintam seguros.

Na ilha de Amager, a poucos minutos de bicicleta do centro, convivem o aeroporto internacional, uma reserva natural, uma praia artificial e novos bairros residenciais ainda em fase de expansão. Desde a 8 House, pelo Bjarke Ingels Group, um prédio em forma de número oito com jardins e uma panorâmica sobre o parque e o mar, à VM Mountain, 80 apartamentos todos com terraço e jardins no telhado.

Ou a residência universitária Tietgen Residence Hall, redonda, inspirada em vilas comunitárias chinesas. Desta mesma ilha sai a Ponte de Øresund, que faz a ligação a Malmö, na Suécia, inaugurada em 2000, três meses antes do previsto.

O Centro de Arquitetura de Copenhaga, rodeado de prédios modernos como a Biblioteca Real, num edifício conhecido como “Diamante Negro”, disponibiliza uma aplicação onde se indica o caminho e a história de símbolos como o barroco Palácio de Christiansborg, onde fica o Parlamento, o centro comercial Magasin du Nord, o Teatro Real Dinamarquês ou o modernista Banco Nacional, desenhado por Arne Jacobsen.

O Museu do Design, instalado desde 1926 num edifício rococó, no antigo Hospital Royal Frederik, é uma amostra representativa do que se fez na disciplina desde a sua era de ouro, entre as décadas de 30 e 70, até à atualidade. A própria cidade reflete o design escandinavo, conhecido pelo seu estilo minimalista, funcional, intemporal, simples, funcional e de qualidade.

dac.dk \\\ designmuseum.dk

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Primeiro mundo

Michael trabalhava como pedreiro. Foi a sua profissão durante grande parte da sua vida. Fartou-se de ganhar dinheiro, sobretudo num período em que os dinamarqueses se enamoraram por construírem em casa “cozinhas americanas”, abertas para a sala. Nada que o tenha impedido de obter um mestrado em Ciências Políticas sobre “Democratização dos Países Árabes”. Hoje Michael dá aulas de construção e algumas de matemática, bem como de outros temas ligados à sua formação académica. O seu amigo John quase toda a vida foi carteiro, mas a facilidade com que discute os assuntos mais complexos indica um mundo interior muito maior. Profissões e pessoas ligam-se de uma forma inesperada e com premissas bem diferentes do comum cidadão ocidental ou de outras culturas. E a verdade é que essas diferenças se percebem na rua e nas conversas de café, ou nos pubs que se multiplicam pela cidade.

A primeira visão de Copenhaga são as bicicletas que circulam por todo o lado. Desde sempre que fazem parte da vida e do mundo dos dinamarqueses. É fácil encontrar bebés com meia dúzia de semanas em bicicletas adaptadas aos dias mais frios do Inverno. Ainda assim, é talvez o único motivo de irritação visível dos dinamarqueses, sobretudo quando os peões circulam inadvertidamente nas vias. Michael e John nunca tiveram automóvel, até porque o parqueamento na cidade é incomportável. Não é um assunto. Os automóveis não são vistosos, são cada vez menos e as alternativas mais saudáveis, sustentáveis e eficazes. Qualquer pessoa chega a qualquer lado de Copenhaga em 20 minutos ou pouco mais do que isso.

Acessos fáceis, metro, comboio e autocarros com horários fiáveis e as bicicletas alugáveis tornam a cidade acessível.

O centro histórico espalha-se por ruas pedonais, onde as lojas internacionais disputam clientes aos modernos espaços de design dinamarquês como a Hay ou a Normann, ou as mais conhecidas, como a Illums Bolighus. Pequenas ruas como Magstræde, perto da Larsbjørnsstræde, formam o Bairro Latino, conhecido por alguns locais mais alternativos, bares e restaurantes, a dois passos do cais de Nyhavn, o mais colorido de todos os canais, normalmente utilizado nas fotos de promoção da cidade. Se se fala em turismo, a estátua da Pequena Sereia é um dos pontos icónicos da cidade. E um motivo de brincadeira quando perguntam por que querem as pessoas ver uma estátua pequena junto ao mar… pelo menos a paisagem não desilude.

Há verdadeiros tesouros, como um minibosque, para quem sai de Nyhavn em direção ao mar, em terrenos conquistados às águas. Ainda no mesmo percurso, um dos mais recentes espaços, Refshaleøen, é uma área que albergou um dos maiores estaleiros do mundo mas agora está preenchida com pequenos restaurantes, bares alternativos, escritórios criativos, um food court, centros de atividades e festivais de música. Também por ali, o centro de arte Copenhagen Contemporary, ou a premiada Destilaria de Copenhaga. É o lugar hype da cidade, juntamente com o Meatpacking District, perto do centro, que, apesar de manter comércio de carne, tem novíssimos restaurantes, bares, galerias, estúdios criativos e empresas de arquitetura.

Apesar da proximidade com o alemão, a língua inglesa é a segunda mais falada na Dinamarca, e fluentemente. Desde 2017 que o Oxford English Dictionary adicionou a palavra “hygge”, onde parece residir o segredo da felicidade dinamarquesa. Segundo a publicação, significa o aconchego e convívio confortável que gera um contentamento ou bem-estar. Para os dinamarqueses, é conseguir tempo livre fora da correria diária para estar junto de pessoas de quem se gosta – ou mesmo sozinho –, para relaxar e aproveitar os prazeres mais calmos da vida. O frio, escuro e húmido inverno incentiva-os a passarem tempo juntos dentro de portas. Como concluem, “é a estação perfeita para o hygge”.

copenhagencontemporary.org \\\ illumsbolighus.com \\\ hay.dk \\\ normann-copenhagen.com

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Entre o campo e a cidade

Em 1962, o estacionamento foi proibido em 18 praças em Copenhaga. Atualmente a cidade tem cerca de três mil lugares para 1,8 milhões de pessoas na Grande Copenhaga. A par da estratégia “livre de carros”, os muitos parques e jardins cresceram dando lugar a uma paisagem urbana equilibrada com a natureza. O King’s Garden é dos mais populares, até pelo seu Castelo de Rosenborg, com 400 anos de história, onde se pode ver o tesouro real, arte, tapeçarias e tronos, num edifício mandado construir por um dos mais icónicos reis dinamarqueses: Christian IV.

O Parque Superkilen, na zona de Nørrebro, tem três zonas distintas: cafés e música, uma fonte e bancos de jardim e uma terceira, destinada a piqueniques, desporto e a passear os cães. O Jardim Botânico oferece dez hectares de verde no centro da cidade e um extenso edifício envidraçado, de 1874. Bem perto do Superkilen, as ruas movimentadas de Jægersborggade e Stefansgade merecem uma visita. Galerias de arte, lojas vintage e inúmeros cafés, bares de vinho e restaurantes numa área marcadamente residencial.

Há locais incontornáveis. O Supremo Tribunal é visitável, com uma torre com mais de cem metros, uma das vistas privilegiadas da cidade. Outra panorâmica de 360 graus é a da original torre redonda, a Rundetarn, com vista direta para a parte antiga. A Igreja do Salvador, em Christianshavn, é uma das mais famosas e preferidas pelos residentes. Inaugurada em 1752, conta com uma escada em espiral de 400 degraus. No centro da cidade os sorrisos estão estampados nos rostos de quem circula pelos Jardins Tivoli, um dos parques de diversões mais antigos do mundo, fundado em 1843, e que mistura edifícios históricos, arquitetura exótica, jardins e atrações modernas, além de uma grande variedade de petiscos.

 

por Augusto Freitas de Sousa /// fotos Enric Vives-Rubio

Arquivos

Comer & beber

A variedade culinária e gastronómica de Copenhaga é impressionante.

 

Cykelkokken

Há poucas experiências no mundo como aquela que o chef Morten Kryger propõe. Uma bicicleta inventada por ele que, no fundo, é uma cozinha, e um percurso que descobre locais escondidos pela cidade. O lema é “Menos é mais...” e tem por base limitar a necessidade de frigorífico, de armazenamento e, ao mesmo tempo, contribuir para um mundo mais sustentável. Uma viagem com cinco pratos e amigos pela cidade. Cerca de 3,5 horas, devagar, a conversar e a saborear tranquilamente a refeição.

cykelkokken.dk

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Gemyse

Este restaurante nos Jardins Tivoli oferece uma cozinha verde que serve vegetais orgânicos e suplementos com ervas. Um dos ex-líbris é o menu de seis pratos para partilhar. Sabores nórdicos, do Médio Oriente e da Ásia, com a possibilidade de juntar carne ou peixe. Tomate coração-de-boi com harissa e malte ou pepino frito com conservas de limão e ervilhas são alguns exemplos de um menu sazonal.

nimb.dk

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Kødbyens Fiskebar

Só há cerca de uma década os dinamarqueses começaram a comer mais peixe e não apenas os filetes já embalados. No concorrido Meatpacking District, o galardoado Bib Gourmand Fiskebaren é um dos restaurantes mais atuais empenhado em servir os produtos frescos e locais. Lulas, ostras, pescadas, lagostins, navalheiras, arenque, linguado, solha, ovas de bacalhau, ouriços, lagostas e um sem número de moluscos e marisco cozinhados de forma a salientar o sabor de cada produto.

fiskebaren.dk

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Botanika

Com vista para o zoo, o restaurante serve inúmeros sumos frescos e naturais e vários pratos vegetarianos. Comida natural e fresca entre abacate no centeio e salada cítrica com azeitonas. Pão e croissants, legumes assados, tostas, saladas de frutas e misturas de vários produtos servidos por um staff superatencioso.

zoo.dk

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Jagger Fast Food

Uma decoração minimal, moderna, mas com gosto, vários balcões, um deles virado para a rua. Esplanada, mesas corridas e bancos altos. A cadeia nacional de fast food não engana, mas tem a visão de Rasmus Oubæk, antigo chef Michelin que criou um local onde os hambúrgueres são feitos de produtos de qualidade, com sabor e a bom preço. Também há cachorros quentes, frango frito, batatas fritas e batidos, entre outros. Fast food de alta qualidade com bom gosto, melhores ingredientes e atitude.

jaggerfastfood.com

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Reffen - Copenhagen Street Food

Um dos locais mais na moda em Copenhaga. É um espaço que os responsáveis definem como “gastronomia, empreendedorismo, artesanato, cultura, intimidade e comunidade que se une”. Cerca de seis mil metros quadrados e 50 chefs e artesãos criativos que partilham as suas paixões. Mais de 18 nacionalidades por entre espaços de sushi, saladas, hambúrgueres, pizzas, cachorros, sandes, marisco, wraps, legumes e muito mais, num espaço cada vez mais transformado e recuperado.

reffen.dk

Margarida

Tal como na maioria das monarquias europeias, a figura real é vista como aglutinadora da nação. Os cidadãos não o demonstram e podem até parecer um pouco indiferentes a sua majestade, mas consegue-se perceber, em raros momentos, uma solenidade e orgulho próprios. A figura simpática, simples e íntegra da rainha Margarida II (Margarida Alexandrina Thorhildur Ingrid) para isso contribui.

Carbono zero

Nesta cidade portuária, os cruzeiros também foram alvo de atenção, ficando agora em terminais mais afastados do centro. O município pretende tornar-se a primeira capital mundial neutra em carbono até 2025, altura em que 75% de todas as viagens em Copenhaga serão feitas a pé, de bicicleta ou de transporte público.

Compras

Na maior rua comercial pedonal da Europa, Strøget, e em redor, há inúmeras lojas que refletem o design dinamarquês. A menos de um quilómetro, o imponente edifício da Câmara Municipal foi decorado por Arne Jacobsen, o principal arquiteto da Dinamarca do pós-guerra.

Fora da Europa

A zona de Christiania é uma carta fora do baralho. Uma placa em madeira indica que naquele espaço “se está a sair da União Europeia”. Uma espécie de grande comuna, comunidade hippie, okupa, para onde convergiram artistas, anarquistas, músicos e outros que transformaram a zona numa comunidade autónoma que ao longo dos anos disputa autonomia com o governo e cidade.

Cycling Copenhagen

A forma mais simpática e saudável de fazer o circuito dos edifícios históricos de Christianshavn é de bicicleta, e a Cycling Copenhagen pode ajudar. A empresa promove passeios pelo porto, canais, novas pontes, das zonas mais antigas às mais modernas.

cycling-copenhagen.dk

Hey Captain

Os barcos que percorrem os canais, compridos e largos, mas baixos por causa da altura das pontes, são uma forma simpática de visitar a cidade e passar pela Casa da Ópera ou pelo Palácio de Amalienborg, onde mora a família real. E aproveite-se os percursos alternativos da Hey Captain, empresa que promove visitas em barcos mais pequenos, confortáveis e intimistas.

heycaptain.dk

Agradecimentos

A UP agradece a Filipe Pinto, coordenador de marketing TAP para os países nórdicos e bálticos, e à VisitCopenhagen.

visitcopenhagen.com

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