Levamos Regina Duarte, a eterna namoradinha do Brasil, a Coimbra, capital do amor em Portugal. A atriz apaixonou-se pela cidade que, como diz a canção, “é uma lição de sonho e tradição”.
“Conhecer Coimbra é um sonho antigo. Quando jovem, eu ouvia falar muito na Universidade e pensava em estudar lá. Era uma referência importante, como a Sorbonne em França ou Oxford em Inglaterra.” Regina Duarte teve a oportunidade de realizar esse sonho através do FESTin – Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, realizado anualmente em Lisboa. Convidada a participar na 5ª edição do evento com o documentário “A Arte de Interpretar – A saga da novela Roque Santeiro” (sobre os bastidores da produção da TVGlobo que, na década de 70, chegou a ser proibida pela ditadura militar no Brasil), a atriz aproveitou a viagem para ir a Coimbra com a UP.
Regina é reconhecida nas ruas pelo nome da sua mais famosa personagem, a Viúva Porcina. Mas o sucesso da atriz fez-se a partir dos papéis de heroína romântica em folhetins televisivos que lhe valeram a alcunha de “namoradinha do Brasil”. O epiteto perdurou devido ao porte franzino e à sua doçura natural. Mas ao longo de 50 anos de carreira, também dedicada ao teatro e ao cinema, provou ter versatilidade, tornando-se uma mais queridas e respeitadas artistas do seu país. O carinho é extensivo aos admiradores portugueses, pelo que já se apresentou várias vezes em palcos lusos. “Andei em digressão teatral por algumas cidades, mas não passei por Coimbra. Estou na maior expetativa.”
Atraída sobretudo pela fama da Universidade, reconhecida pela UNESCO como Património da Humanidade, Regina surpreendeu-se com outra faceta dominante na cidade: a lenda do amor proibido entre D. Pedro I, herdeiro do trono de Portugal, e a nobre galega Inês de Castro. Na verdade, uma paixão com final infeliz, que remonta a 1300. A atriz quis saber todos os detalhes da tragédia na Quinta das Lágrimas, antiga coutada de caça da corte lusitana que serviu de cenário aos encontros furtivos daqueles dois amantes medievais. Transformado em hotel de charme, o belo edifício da quinta está profusamente decorado com imagens a eles alusivas e até o Restaurante Arcadas da Capela, oferece um menu inspirado em Pedro e Inês, com vinhos a condizer.
Durante o jantar gourmet preparado pelo conceituado chefe Albano Lourenço para Regina degustamos, entre outras iguarias, queijo de cabra caramelizado com sementes e rúcula, magret de pato com cuscuz de lima, legumes salteados e molho de groselha, e rolos de primavera com esparregado de nata e sorvete de morango. Saboreando uma taça de champanhe, apreciamos o clima romântico do lugar. Regina comenta o drama imortal de Pedro e Inês. Casada pela quarta vez, admite que acha bonito e gostaria de ter tido “um único amor para toda a vida”. Mas a vida deu-lhe outros amores: três filhos e cinco netos.
Templo do conhecimento
Na manhã seguinte, entramos pela Porta Férrea na Universidade de Coimbra, fundada em 1290 por D. Dinis. A experiente guia Catarina Freire conduz Regina pelo Paço das Escolas, atravessando o amplo pátio até à Biblioteca Joanina, construída entre 1717 e 1728 sob a égide de D. João V. Obra-prima do barroco europeu, impressiona não apenas pela quantidade de livros e documentos que compõem o seu acervo, mas também pela sumptuosa decoração.
O local tem um quê de sagrado e é iluminado por vitrais para preservar o seu valioso conteúdo. “Esta é uma sede do conhecimento universal. Aqui há influências de vários países, seja nas estantes, nas pinturas do teto, nos móveis de madeira…”, diz Catarina, apontando pormenores e referindo a colónia de morcegos residente, que protege os livros das traças, “numa relação simbiótica”.
Maravilhada, Regina pede autorização para tocar nos volumes, protegidos por uma rede. Sentada num antigo gabinete de leitura reservado a professores, examina exemplares do século XVIII. “Sou capaz de ficar por aqui… Em bibliotecas e livrarias, sempre me perco…”. Mas a curiosidade faz com que passe à vizinha Capela de São Miguel, cuja principal atração é o órgão ibérico de 1732, com 2000 tubos, que ainda hoje funciona. Regina sobe ao balcão do coro e, decidida a experimentar a acústica, desafia a irmã, Tereza, que a acompanha e que estudou canto lírico, a soltar a voz afinada. Bónus extra para os turistas que ali estavam no momento.
Uma funcionária pede que Regina lhe autografe o livro A Hollywood Brasileira, marcado no capítulo dedicado à atriz e intitulado “Nasceu uma Estrela”. A própria estrela – em carne, osso e simpatia –, abraça a jovem emocionada. Tereza comenta que a irmã “é assim, sempre disponível para os fãs. Tem uma paciência enorme! Conversa, tira fotos, faz brincadeiras…”. Regina explica: “Existe uma energia de mão dupla entre o artista e o público. Temos que retribuir o que as pessoas nos dão”.
Na Sala dos Capelos, reservada aos atos solenes da instituição, a atriz quer saber como foi a cerimónia em que o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, recebeu o título de doutor honoris causa. Catarina explica o ritual: “Por mais importantes que sejam os visitantes, têm que se sentar abaixo do reitor, que é o expoente máximo aqui dentro”.
A austeridade fica para trás quando, na Via Latina, nos cruzamos com alegres estudantes fardados a preceito. Mostram a Regina as insígnias de cada curso, que os diferenciam. Ela adora o traje com a tradicional capa preta. Pede uma emprestada e, divertida, dança pela galeria com colunas, dando voltas e reviravoltas sobre o piso de mármore reluzente.
Convidada ilustre, Regina é recebida pelo vice-reitor da Universidade, Luís Menezes, que fala sobre a política de incentivos e intercâmbios entre estudantes brasileiros e portugueses: “A Universidade de Coimbra tem atualmente mais de dois mil alunos brasileiros e continua aberta a novas candidaturas. Queremos exportar o nosso conhecimento e manter uma tradição”. Por instantes, a atriz revive a juventude: “Quem sabe não venho fazer um curso aqui?!”
Viajando no tempo
Aos 66 anos, Regina mantém-se ágil, dinâmica. Na zona antiga da cidade, não hesita em descer a pé o popular quebra-costas, uma ladeira íngreme onde os trambolhões são frequentes em horas de boémia. Pelo caminho, compra produtos típicos nas lojinhas de artesanato. Para também numa tasca e prova a ginjinha como aperitivo. Com o telefone, fotografa constantemente, alimentando o Instagram. Almoçamos no Fangas, misto de bar e mercearia. Sentada à mesa, repleta de saborosos petiscos, Regina admira o expositor. Sai carregada de “lembrancinhas” para oferecer à família e aos amigos.
O roteiro pelo centro histórico leva-nos à Sé Velha, datada da segunda metade do século XII. Regina encanta-se com o claustro, os azulejos árabes e o altar-mor da igreja, em estilo gótico flamejante com talha de ouro do Brasil. Antes de sair, assina, orgulhosa, o livro de honra. Segue-se o emblemático Mosteiro de Santa Cruz, edificado em 1113 por D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, que ali está sepultado. Causa impacto a imponente fachada deste monumento, que tem estatuto de Panteão Nacional, assim como a mistura de estilos arquitetónicos no seu interior.
Mas, para além da história e da religião, Regina procura em Coimbra referências culturais. Quer ver a Casa de Eça de Queirós, fazendo questão de posar junto à respetiva placa. E, nas margens do rio Mondego, que banha a cidade, presta homenagem ao poeta Miguel Torga, admirando o pôr-do-sol.
À noite, desfrutamos da espetacular paisagem do restaurante Loggia, do Museu Nacional Machado de Castro, que reabriu em 2013. O grupo Fado ao Centro (trio de guitarra, viola e voz) anima o jantar. “É um grande privilégio atuar para esta senhora”, garantem os artistas que falam sobre as serenatas estudantis que deram origem ao peculiar fado coimbrão. Explicam que a guitarra portuguesa, tal como a cítola medieval, é um instrumento concebido para ser tocado ao ar livre, nas serenatas românticas.
Contagiada pelo entusiasmo dos rapazes, Regina junta-se a eles para entoar “a canção mais cantada em língua portuguesa depois de ‘Garota de Ipanema’, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes”. Trata-se do clássico tema “Coimbra”, gravado por Amália Rodrigues e Roberto Carlos, que apresenta a cidade como “uma lição de amor e tradição”, onde “ se aprende a dizer saudade”.
É já saudosa que Regina Duarte faz um passeio matinal por entre as árvores centenárias, os lagos e as ruínas neogóticas dos magníficos jardins da Quinta das Lágrimas, que estão abertos ao público e se prestam a espetáculos de teatro, música e dança. “Eu imaginava Coimbra como uma cidade universitária, mas é muito mais que isso, é uma viagem no tempo. Realizei o meu sonho, mas só em parte. Vou voltar para conhecer melhor e realizar o resto.”
texto Moema Silva fotos João Carlos
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