Cofaco – A arte de conservar

on Jan 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

A indústria conserveira portuguesa, centrado no atum, é uma das mais antigas do país. A Cofaco, com a marca líder do Bom Petisco, coloca todo o sabor do mar dos Açores em latas que vende pelo mundo.

Do convés do Ponta dos Arcos dois homens espalham isco vivo sobre as translúcidas águas atlânticas. O movimento dos peixes a cair à superfície cria a ilusão de por ali andar um cardume de sardinhas, atraindo dezenas de atuns. Agora tudo acontece muito depressa. Os pescadores de impermeável verde estão dispostos em linha ao longo da lateral da embarcação, a bombordo. Agarram as canas de pesca e, sem parar um segundo, vão lançando a linha, uma e outra vez. Os anzóis partem nus e regressam com um atum – por norma bonito, ou gaiado, e atum-patudo – no gancho de barba, que num só movimento é lançado para trás, aterrando no convés. A prática é conhecida como captura salto e vara e considerada uma das formas mais sustentáveis de pesca, por evitar apanhar peixes demasiado pequenos nas redes. O barco entrará ao final do dia no porto de Rabo de Peixe, na ilha de São Miguel, Açores, e a carga percorrerá os cerca de mil metros até à fábrica onde, há mais de duas décadas, mulheres preparam e cozinham o atum, para depois o conservar em óleo, azeite ou salmoura, aliando a tradição centenária à inovação. “Desde a escolha do peixe, à sua cozedura, limpeza e embalamento, os processos foram modernizados e otimizados para produzir uma conserva de excelência, seguindo a melhor tradição conserveira”, diz Catarina Ferraz, do departamento de marketing e comunicação da Cofaco, dona de marcas como o Bom Petisco, Tenório ou Bon Appetit.

A Bom Petisco, marca comercializada em mais de 30 países nos cinco continentes, tem experiência acumulada no último século pelos grupos que deram origem à Cofaco. A história começa no Algarve, em 1961, com a empresa que nasce da fusão de duas das maiores conserveiras: a Centeno, Cumbrera & Ca. com a Raul Folque & Filhos. As operações desenrolavam-se em Vila Real de Santo António, sendo o atum, que ali passava para desovar no Mediterrâneo, apanhado com armações fixas que eram colocadas ao largo da costa algarvia. Um ano depois, e respondendo às mudanças das rotas migratórias do atum, “o maior grupo conserveiro português” muda-se para o meio do Atlântico. “Em 1962, a Cofaco instala-se nos Açores – um oásis em pleno oceano Atlântico.” A primeira fábrica surge na ilha do Pico, entretanto encerrada, e a segunda na Ribeira Grande. As duas funcionaram em simultâneo por várias décadas, até que toda a produção acabou por se concentrar na ilha de São Miguel. Com dois atuneiros afetos às fainas dos Açores e da Madeira, “cujo peso relativo varia muito significativamente de ano para ano”, a Cofaco acaba por recorrer à compra de “peixe comunitário”.

 

Atum e mais além

Da fábrica de Rabo de Peixe, a poucos metros do Atlântico, saem anualmente mais de 50 milhões de latas retangulares e redondas, onde sobressai o amarelo do rótulo e as letras azuis. Têm lá dentro atum preparado com azeite virgem extra, orégãos, pimentas e ervas finas, mas também ao natural, ou seja, em água. Longe vão os tempos em que o peixe era conservado apenas em óleo vegetal. Catarina lembra que, com quase dois séculos, “o setor das conservas de peixe é dos mais antigos em Portugal”, o que exige às empresas que mantenham “a sua vitalidade através da valorização dos seus produtos”, num mercado em que os consumidores estão cada vez mais informados e exigentes. “Este é um posicionamento especialmente estratégico quando falamos de Bom Petisco, a nossa superbrand mais acarinhada pelos portugueses e líder de mercado há décadas”, sublinha, lembrando que manter a liderança obriga a “um esforço constante de inovação e renovação”, assumindo a necessidade de preservar a tradição. “O Bom Petisco resulta do equilíbrio entre processos automáticos e linhas de trabalho manual. Desde a escolha do peixe, à sua cozedura, limpeza e embalamento, os processos foram modernizados e otimizados para produzir uma conserva de excelência, seguindo a melhor tradição conserveira.” Ao todo a marca tem um total de 12 referências, entre molhos clássicos e originais, e já saiu do mercado das conservas, comercializando atualmente hambúrgueres de atum, que são mais uma das provas da capacidade de desenvolvimento de novos produtos da Cofaco.

Mas a inovação também acontece na marca Tenório, com mais de cem anos de existência. Os filetes de atum são conservados em azeite extra virgem, manjericão e tomate seco ou limão dos Açores e piripíri, para não falar dos óbvios e mais tradicionais. Segundo Catarina Ferraz, a “Tenório tem uma liderança incontestável nas marcas premium e oferece uma gama completa de filetes de atum – o corte mais nobre do peixe”. A empresa comercializa ainda a marca Pitéu, no segmento das especialidades, que inclui receitas como bacalhau em azeite e alho, mexilhões em escabeche ou lulas recheadas, entre outros.

Além da exportação destas marcas para os países com forte presença portuguesa, a Cofaco vende ainda nos mercados internacionais a marca Bom Appetit, “que, com uma gama que inclui conservas de atum, sardinhas e especialidades, apresenta uma oferta completa de 17 referências e procura levar para outros mercados o melhor das conservas portuguesas”.

 

Ao natural

As vendas de conservas, que se assumem cada vez mais como um ex-líbris português, têm igualmente sido impulsionadas pela crescente preocupação com um nível de vida mais saudável, com as conservas a perderem parte do estigma que existia relativamente a esta categoria de alimentos. Hoje sabe-se que são um alimento com menos calorias, menos gordura, menos colesterol, mais proteínas, mais ómega 3 e mais vitaminas. “Até há bem pouco tempo, a maioria das pessoas achava que todas as conservas tinham conservantes, o que não é de todo verdade no caso das nossas conservas de peixe”, esclarece Catarina, sublinhando que o processo de conservação usado na unidade de Ribeira Grande “é 100% natural e a esterilização permite manter os atributos e sabor dos alimentos com toda a segurança e confiança”.

Com cerca de 400 trabalhadores, a Cofaco regista anualmente vendas na ordem dos 65 milhões de euros, dos quais cerca de 20% são faturados nos mercados internacionais, “para os quais Angola é o maior contribuidor”. A empresa tem igualmente uma presença importante nos chamados mercados da saudade, países com elevado número de emigrantes portugueses, como acontece em França, Suíça ou Luxemburgo.

No futuro, a dona do Bom Petisco voltará a ter duas unidades nos Açores. No local onde em 1962 se instalou a fábrica original deverá surgir “uma nova unidade industrial, que se dedicará à limpeza de peixe e produção de lombos de atum e abastecerá a indústria conserveira”. Os barcos continuarão a sair para o Atlântico, assegurando, através de uma pesca sustentável – e acreditada pela Dolphin Safe –, a defesa do ecossistema e da sustentabilidade da pesca, mantendo a principal matéria-prima da fábrica açoriana.

cofaco.pt \\\ bompetisco.pt

 

por Benvinda Salgueiro

Arquivos

Números

1961 /// criação da Cofaco

7 /// marcas de conservas

55.000.000 /// latas produzidas anualmente

€65.000.000 /// faturação anual

20% /// vendas no mercado internacional

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