Chapada dos Veadeiros – Brasil Primordial

on Sep 3, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

Há cerca de 500 anos, pioneiros começaram a explorar o interior profundo do maior país da América do Sul, em busca de riqueza, e escravos em fuga fundaram aqui as suas comunidades livres. Os caminhos por eles traçados levam hoje a cenários arrebatadores.

A história da Chapada dos Veadeiros é feita de trilhas. São caminhos traçados por bandeirantes, os exploradores do interior brasileiro entre os séculos XVI e XVII, à procura de riquezas; pelos negros kalungas, que dariam origem à maior comunidade quilombola (escravos que fugiram e fundaram suas comunidades) do Brasil; e por garimpeiros de quartzo. Mais recentemente, em meados da década de 1950, uma onda espiritualista atrairia também esotéricos, hippies e ufólogos.

No entanto, já foi o tempo em que este destino 220 quilómetros a norte de Brasília era endereço alternativo apenas de viajantes dispostos a encarar camping selvagem com banhos gelados, comida improvisada e excesso de mosquitos. Nos últimos anos a região ganhou hotéis de charme, gastronomia elaborada e atividades de aventura ao alcance de todos os públicos. “A Chapada já passou por alguns ciclos diferentes de perfis de visitantes e até aos anos 2000 era focada no misticismo. Mas logo começou a se trabalhar o ecoturismo e o turismo de aventura, por conta da sua geografia irregular”, descreve Ion David Zarantonelli, proprietário da Travessia, agência pioneira na exploração do turismo de aventura na Chapada desde 1997. Sai o misticismo das vivências terapêuticas e entra o turismo pé-no-chão, neste que foi declarado um dos estados mais procurados, segundo pesquisa do Ministério do Turismo brasileiro.

 

Lá em cima

A viagem acontece sobre planaltos elevados, de onde caem quedas de água a mais de 180 metros de altura e novas trilhas levam a atrativos naturais que andavam esquecidos nesta região turística formada por cinco municípios: Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, Teresina de Goiás, São João d’Aliança e Colinas do Sul.

Quando Marcello Clacino, proprietário da Bellatriz, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, acompanhou em 2017 a equipe que fez a medição oficial da Cachoeira do Label, acreditava-se tratar-se de uma queda de 120 metros. Mas durante o rapel de conquista, as cordas foram insuficientes para alcançar a base. Reaberta ao público em 2019, a Label é considerada uma das seis maiores cachoeiras para visita no Brasil: 187 metros de altura, no interior de um cânion da Bellatriz. “Por estar escondida em um ponto estratégico da Serra Geral do Paranã, a área ficou preservada, mantendo-se, praticamente, intacta”, explica Marcello. Atualmente, uma trilha de cerca de 1,8 quilómetros leva até os pés da cachoeira, passando por cinco poços para banhos, árvores centenárias e áreas de plantio experimental de líchia e coco-da-Bahia.

Ponto de encontro com a Amazónia, no Planalto Central, o cerrado é conhecido como o “berço das águas”, pois suas reservas subterrâneas abastecem bacias hidrográficas do continente. Considerado a savana brasileira com uma das maiores biodiversidades do planeta, este bioma exibe-se em vales, campos e rios de águas claras. Mas também se esconde.

As Cataratas dos Couros já não são novidades por ali e a caminhada mais conhecida segue pelo rio dos Couros, em Alto Paraíso de Goiás, a capital da Chapada dos Veadeiros. A novidade é uma trilha de 1,2 quilómetros por setores mais escondidos, de onde se tem vista exclusiva de três etapas dessa sequência monumental de quedas de água. Chegar ali não é tarefa fácil. São 53 quilómetros de Alto Paraíso, 32 deles por estrada de terra, além de uma caminhada exigente até esse mirante frontal que ainda recebe poucos intrépidos dispostos a caminhar por áreas de pedras, à beira de precipícios.

A viagem pelo nordeste goiano continua por antigos caminhos de garimpeiros, cuja exploração de minerais teve seu auge na década de 40. Dizem que a região está sobre uma placa de quartzo de cerca de quatro mil metros quadrados. Gigante mesmo ficou a área mais procurada do destino.

 

Surpresas e surpresas

No ano passado o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros passou por uma ampliação que aumentou em quase quatro vezes o tamanho original dessa unidade de conservação. Hoje são mais de 240 mil hectares de área protegida. “Antes de ser criado o parque, aconteceu aqui a maior extração de quartzo de toda a Chapada dos Veadeiros e havia mais de mil garimpeiros em busca de cristais”, explica o guia Manuel Pacheco, na Baixa dos Veadeiros. Para ele a região foi uma espécie de Serra Pelada, a histórica região no Pará que um dia ficou conhecida como o maior garimpo a céu aberto do mundo devido à abundância de metais preciosos. Património Natural pela UNESCO, este parque nacional de 1961, nos limites da Vila de São Jorge, é conhecido pelos Saltos I e II do Rio Preto, duas quedas potentes de 120 e de 80 metros que podem ser vistas após uma caminhada pesada de 10 quilómetros, entre ida e volta. E quando pensamos que já não havia mais chapada para ver – uma chapada é uma planura na encosta de uma elevação –, Veadeiros trata de inventar mais uma atração.

Desde o ano passado, o parque nacional tem mirantes de madeira que se fundem ao cenário rochoso do rio Preto, onde passarelas suspensas fazem-nos flutuar sobre as margens de um cânion de águas agitadas. Tudo por trilhas rústicas, em vias delimitadas e com segurança para o visitante. Conhecida como Trilha Carrossel, esta caminhada de 4,5 quilómetros recebeu o nome por conta do percurso circular das águas que formam as quedas do circuito que, em certos pontos, parecem tender para um dos lados do rio, dando a sensação de que as cachoeiras estão tortas.

Para ver o dia nascer ou acompanhar aquele céu de tons alaranjados virar um mar de estrelas, no final da tarde, o parque abriga também pontos de observação sobre uma bocaina que rasga a Serra da Baleia com vista panorâmica do Morro do Buracão, em frente ao Jardim de Maytrea. Sobre um platô do Morro da Baleia, a chapada deixa-se ser vista, silenciosa, do alto daquele cerrado da vegetação baixa, recortada por buritis.

 

Estrada fora

Seja qual for o ritmo da viagem, a estrada que conecta a vila de São Jorge a Alto Paraíso de Goiás, a principal cidade da Chapada dos Veadeiros, é um dos cenários que mais se repetirá no roteiro. Equipada com ciclovia e nas margens do parque nacional, dá acesso a alguns dos atrativos mais procurados da região, como o Vale da Lua, cuja cenografia de curiosas formações rochosas dispensa explicações; à Fazenda São Bento, endereço das cachoeiras Almécegas I e II, além de ponto de partida da emocionante tirolesa de 850 metros sobre a Chapada dos Veadeiros, a cem metros de altura; e ao concorrido pôr do sol no Jardim de Maytrea, o portal místico mais visitado. Mas é a comida de beira de estrada do Waldomiro que nos leva para outras dimensões. O seu rancho simples ficou famoso pela matula, uma sequência de pratos fartos com arroz, tutu de feijão, mandioca, salada e a tradicional carne de lata, a técnica tropeira de conservação de alimentos, dos tempos sem energia elétrica. Esta carne macia, como conta sua filha Hortênsia, é resultado de um cozimento que dura quatro horas.

A 90 quilómetros de Alto Paraíso, em antigas terras quilombolas, fica outro destino popular da Chapada, o município Cavalcante. É daqueles lugares que começa discreto e se consolida como destino menos badalado, ideal para casais e famílias e longe da pegada mística de outros destinos da Chapada. A pouco mais de 60 quilómetros da zona urbana da cidade, entre opções por terras isoladas, fica o Complexo do Prata, uma sequência de poços e cachoeiras. Custa a acreditar no que se vê, como a Rei do Prata, uma queda potente que passa por um cânion antes de chegar a uma piscina natural de águas cristalinas, ou a Rainha do Prata, que cai em degraus e forma um poço de difícil acesso. “Só no rio Prata, cerca de 12 cachoeiras estão catalogadas, das quais sete são acessíveis, em um total de 14 quilómetros de trilhas”, segundo o guia Rodrigo Batista Neves. As restantes são como tudo costuma ser na Chapada dos Veadeiros: lindas e contemplativas.

 

texto e fotos Eduardo Vessoni

Arquivos

Explorando

Desde junho deste ano o parque é administrado pela Sociparques, concessionária que fará investimentos como a revitalização do centro de visitantes, construção de lanchonetes de apoio e lojas de souvenirs, além de decks de observação, acessos exclusivos para visitantes com mobilidade reduzida e transporte interno em autocarros. É por isso tudo que o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros cobra entrada (€8,09 a estrangeiros, €4,04 a brasileiros). O limite diário de visitantes é de 750 pessoas. Existem visitas avulsas ou em pacotes com tudo incluído oferecidos pelas agências de Alto Paraíso e Cavalcante, principais destinos da Chapada dos Veadeiros. Para quem busca mais autonomia nos passeios o aluguer de automóvel é a melhor opção, embora alguns atrativos exijam uso de veículo 4x4. O Aeroporto Internacional de Brasília é o terminal aéreo mais próximo. Os passageiros TAP podem permanecer sem taxa de turista na cidade até cinco dias.

goiasturismo.go.gov.br

Travessia Ecoturismo \\\ Alto Paraíso \\\ travessia.tur.br

Zaltana \\\ Cavalcante \\\ visiteachapada.com

Hospedagem ideal

A Fazenda Volta da Serra, em Alto Paraíso, tem opções em suítes ou chalé para oito pessoas, cachoeiras abertas aos hóspedes e aluguer de bicicletas. Na mesma localidade, a Meu Talento é uma bela pousada feita em madeira de reflorestamento e peças de demolição. Em Teresina de Goiás, a Cachoeira Poço Encantado é o único hotel da Chapada com quartos com vista para cachoeiras. Em Cavalcante, escolha a Pousada Vila dos Ipês. E, para relembrar a fase alternativa, a Chapada conta com diversas opções de parques de campismo bem equipados, como o da Cachoeira do Label em São João d’Aliança, e o Espaço Rei do Prata, em Cavalcante.

fazendavoltadaserra.com.br \\\ pousadameutalento.com.br \\\ cachoeirapocoencantado.tur.br \\\ viladosipeschapada.com.br

 

Delícias

Não perca uma refeição no Rancho do Waldomiro em Alto Paraíso, na Estrada Parque, aberto todos os dias. Na vila de São Jorge há o gastrobar Santo Cerrado, especializado em cocktails e risotos com produtos do Cerrado. De frente para o parque nacional, tem um dos finais de tarde mais belos da região. Em Cavalcante, visite o Baunilha do Cerrado, estabelecimento conhecido pela venda de favas e doces de baunilha, e pelos chapatis recheados. E experimente também, em Colinas do Sul, a Cervejaria Aracê, administrada por um casal de chilenos, um simpático restaurante conhecido pela produção artesanal de cervejas com águas da Chapada, como a versão com baru, fruto local.

baunilhadocerrado.com

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