Carmen Miranda, Brasil
A história da Brazilian Bombshell que conquistou Hollywood e deu o samba a conhecer ao mundo. Carmen Miranda nasceu em Portugal, mas o seu coração era “100 por cento brasileiro”.
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Carmen Miranda, portuguesa de Marco de Canavezes, fez o Brasil olhar para o espelho e descobrir nele o samba e a alegria. Depois, carregada de frutas exóticas e de balangandãs, exibiu essa personalidade na Broadway e pôs os americanos a cantarem na língua de Camões palavras com ritmo de pandeiro, tamborim, cuíca e violão. Seguiu-se Hollywood e o estrelato à escala mundial. Nunca uma mulher fora tão famosa na história do Brasil. Os turbantes da “garota notável” ditaram moda e usavam-se, quer nas cabeças feministas nova-iorquinas, quer nos “salons” parisienses. As mulheres admiravam-lhe a sensualidade, a elegância natural e a voz, os homens desejavam-na, seduzidos pela graça maliciosa e pela mulher sensual que gostava de flirtar, mas principalmente, de ser amada por todos.
Carmen Miranda foi a maior estrela do disco, do rádio, do cinema e dos palcos brasileiros, nos anos 30 do século XX. Por essa altura, o Rio de Janeiro assistia rendido ao sucesso daquela que era recordista em gravações, vendas, cachets e salários, mas também na adoração que lhe tinham o público e a imprensa. Talvez se reconhecessem nela, alma simples e coquete, feita do samba e da alegria do povo brasileiro. Uma alegria até então escondida por detrás da herança portuguesa do fado e da melancolia trazida das plantações de açúcar.
[DDET LERMAIS]
Raízes lusitanas
Várzea de Ovelha, aldeola do concelho de Marco de Canavezes, fica no Norte de Portugal. Foi nesse fim de mundo que nasceu, no dia 9 de Fevereiro de 1909, Maria do Carmo Miranda da Cunha. Os pais, José Maria, um simples rapa-queixos (barbeiro) e Maria Emília, pouco mais tinham para lhe oferecer do que o chão de terra batida da casa de pedra onde moravam. Não fosse a gravidez de Emília e já teriam zarpado rumo ao Brasil.
Carmen, assim baptizada pelo tio em homenagem à popular ópera Carmen, de Bizet, chegou ao Rio de Janeiro com dez meses e oito dias. A cidade onde desembarcou era tão portuguesa como a terra que tinha deixado. Na época, numa população de um milhão de habitantes, o Rio era a terra adoptiva de 200 mil cidadãos nascidos em Portugal. Sem contar com várias gerações de luso-descendentes.
Apesar das dificuldades, a família foi crescendo e Carmen teve oportunidade de completar a instrução escolar. Em 1923, com 14 anos, seguiu o caminho da irmã mais velha, que, tal como ela, se destacava por ser bonita, por gostar de cantar e representar, por costurar modelos copiados de figurinos estrangeiros e pela sua elegância natural e alegria esfuziante. O primeiro emprego foi como aprendiz no atelier de chapéus onde a irmã trabalhava e foi atrás do balcão que conheceu o primeiro namorado, Mário Cunha, remador do Flamengo e filho de boas famílias, com quem tomou contacto com a socialite carioca. Havia ainda o fascínio pelas starlets dos filmes a que assistia na Cinelândia. O starsystem inventado por Hollywood contagiara o mundo e Carmen Miranda, como milhares de outras raparigas, sonhava com uma vida de estrela cinematográfica.
A escalada do sucesso
Um dia, um cliente da sua mãe – que geria uma pensão diurna na Lapa, onde moravam – recomendou-a ao violinista e compositor Josué de Barros. Ao vê-la, Josué percebeu logo que a rapariga tinha “it”, palavra importada dos States, para definir mulheres com carisma. A estreia aconteceu em Janeiro de 1929 no Instituto Nacional de Música. Conta Ruy Castro, autor da biografia Carmen: “Ao subir ao palco era ninguém, dez minutos depois, ao descer dele, os aplausos entusiasmados já lhe conferiam a sua identidade: Carmen Miranda era de uma graça e de um rebuliço nunca vistos.”
Em finais do ano, a editora discográfica RCA Victor ouviu-a e contratou-a com duas cláusulas curiosas. Só cantaria música brasileira e deveria ser escondido o facto de ser portuguesa para não pensarem que era cantora de fados. Em 1930, saiu o seu primeiro disco e, antes do Carnaval, cruzou-se com Joubert de Carvalho que escreveria para ela “Taí”, a marchinha que consagrou Carmen de forma fulminante num Carnaval tão rico musicalmente que, diz Ruy Castro, “dividiria a música popular brasileira em antes e depois daqueles dias de Fevereiro de 1930.” A vida da artista e da sua família também não voltaria a ser a mesma. “Taí” vendeu 35 mil discos e Carmen era cada vez mais famosa.
Seguiram-se anos de sucesso e de vida airada, com temporadas teatrais nos principais centros culturais do país e em Buenos Aires, na Argentina, onde a música brasileira, pela voz de Carmen, começou a ser cantarolada pelos exigentes ouvidos porteños e a ganhar projecção internacional. Como diria a própria: “Foi um “chuá’ completo!”
Carmen estava a fazer uma revolução na música brasileira. Para o público, a intérprete de êxitos em nome próprio como “O Que É Que a Bahiana Tem?”, “Mamãe eu quero” ou “Chica-Chica-Bum-Chic” e de hits emprestados como “Chiquita Bacana” ou “Cidade Maravilhosa” (da sua irmã Aurora Miranda) era a primeira mulher brasileira a criar uma personalidade pública e a viver dela.
Sem fronteiras
Em 1939, aos 30 anos, rica, bonita e independente, a diva do Brasil aceita novo desafio e parte à conquista de Nova Iorque e do mercado mais disputado do mundo. Sem falar uma palavra de inglês, bastou a sua estreia numa revista musical da Broadway para se tornar uma estrela. Em semanas, encheu páginas de revistas como a Life, a Look, a Vogue, a Esquire, ou a Harper’s Bazaar e vendia publicidade como pãezinhos quentes. Todos queriam Carmen, que partira dizendo, “vou botar tempero brasileiro no gosto e no goto daquela boa gente… Nos meus números não vai faltar nada: canela, pimenta, dendê, cuminho…”.
Mas Carmen levava consigo muito mais que especiarias. Os americanos estavam a seus pés e Hollywood acenava-lhe com fama a uma escala nunca sonhada. No entanto, a Brazilian Bombshell, continuava a ser “aquela mesma pequena simples, agradável, camarada, sem vaidade, que todos conhecem aí no Brasil” (Revista O Cruzeiro, Rio 30-3-1940), e que, com o seu coração “cem por cento brasileiro”, dava a conhecer ao mundo a riqueza musical do país que a adoptara.
Ao longo dos anos 40 e 50, a diva somou sucessos em Hollywood, entrando em 15 filmes e contracenando com outros nomes míticos como Dean Martin, Elizabeth Taylor, Bing Crosby e Frank Sinatra. Com grande desgosto seu, o Brasil nunca compreendeu a dimensão da sua lenda, não lhe perdoando os 14 anos que passou sem regressar ao país. Poucos sabiam do drama íntimo vivido pela mulher que, em 1946, era a artista mais bem paga de Hollywood. Depois de um casamento infeliz com o americano David Sebastian, Carmen entregou-se ao álcool e aos barbitúricos na sua mansão de Beverly Hills e foi já muito debilitada que, em finais de 1954, regressou ao Brasil. Recuperada, haveria de voltar para Hollywood, mas o seu coração agitado parou aos 46 anos, na madrugada do dia 5 de Agosto de 1955. Quando o seu corpo embalsamado chegou ao Rio de Janeiro, meio milhão de pessoas acompanharam o cortejo fúnebre, cantando baixinho “Taí”.
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por Patrícia Brito
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