Carlos De Mattos – Los Angeles
Em Los Angeles, na meca do cinema, o único português a ter ganho um Óscar não perde uma oportunidade para pregar as virtudes da pátria lusitana. Chamam-lhe “o embaixador de Portugal na Califórnia”.
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Quando, no dia 7 deste mês, Hollywood distribuir as tradicionais estatuetas douradas, haverá pelo menos um português na gala que se segue à cerimónia mais aguardada da sétima arte. Carlos De Mattos, de 57 anos, radicado na Califórnia desde os 18, é um dos quase 6000 eleitores da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas que decide, anualmente, os Óscares.
Ganhou esse direito depois de se ter tornado, na década de 80, o único português galardoado com o troféu mais cobiçado do mundo do cinema. Fê-lo, por duas vezes, na categoria de Avanço Técnico: primeiro, em 1983, pelo desenvolvimento da Tulip Crane, a primeira grua para operar câmaras, utilizada por Steven Spielberg no inesquecível ET; depois, em 1986, pela Cam Remote, uma câmara activada por controlo remoto que Francis Ford Coppola estreou em Cotton Club e que conquistou os principais realizadores ao longo de mais de duas décadas.
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“Sempre senti que Deus tinha uma razão especial para me fazer português”, admite. “As pessoas ficariam surpreendidas por saber como isso me ajudou na minha vida pessoal e profissional”. A começar pela sua integração em Los Angeles. Depois de deixar Lisboa para estudar Economia na Universidade Estatal da Califórnia, de Mattos viu-se mergulhado numa metrópole imensa, onde, sem carro, se sentia como se estivesse “numa prisão quando havia tanto para explorar”. As dificuldades daqueles primeiros tempos foram ultrapassadas quando um dia, no campus da universidade, descobriu um grupo de estudantes que jogavam um jogo estranho para os americanos mas que lhe era muito familiar: futebol. “Quando lhes disse que era de Portugal, convidaram-me logo para fazer parte da equipa. Disseram-me: ‘Se és português, deves ser bom jogador’. Foi nesse momento que começou a minha integração.”
Pouco depois, com apenas 19 anos, juntou-se a um amigo e, aproveitando a proximidade dos grandes estúdios, montou uma empresa de equipamentos para cinema, a Matthews Studio Equipment Inc. Começaram numa pequena garagem mas a ascensão foi meteórica. “Chegámos a facturar mais de 100 milhões de dólares (perto de 70 milhões de euros), a empregar 460 pessoas e a estar cotados na Bolsa de Nova Iorque.”
Para este sucesso, muito contribuiu o facto de se terem especializado na produção de formatos standard de tripés, iluminação e outros equipamentos que rapidamente se tornaram a escolha de eleição em Hollywood, numa altura em que as grandes produções se debatiam com problemas de compatibilidade entre os equipamentos usados pelos diferentes estúdios. Mas, uma vez mais, o fermento do sucesso tinha também muito de Portugal. Exemplo disso é a relação de Carlos de Mattos com o mestre japonês Akira Kurosawa, que lhe abriu as portas de Hollywood. Conheceram-se quando o empresário português visitou o Japão com a mulher. “Quando lhe contei que era português, a empatia foi imediata. Disse-me: ‘Vocês foram os primeiros europeus a chegar ao Japão’. Falámos muito e tornámo-nos grandes amigos. Ele começou a comprar equipamento à minha companhia e mais tarde conquistei outros seguidores dele, como o Steven Spielberg e o George Lucas.”
De Mattos recorda também o episódio que o introduziu ao clã Kennedy. Durante uma gala em LA, o então senador Ted Kennedy (falecido em Agosto passado), quando percebeu que o empresário era português, chamou-o para conversarem a sós. Contou-lhe que ia candidatar-se a um novo mandato no Massachusetts e queria conselhos para conquistar a importante comunidade portuguesa que existe naquele estado. “Disse-lhe que devia explorar a sua herança católica e visitar o Santuário de Fátima. Ele assim fez e ganhou a reeleição. Nas comemorações do 4 de Julho, convidou a minha família para ir ao complexo dos Kennedys e, a partir daí, passámos a ser convidados todos os anos, nessa ocasião e no seu aniversário. Era uma óptima pessoa e um bom amigo.”
Ao ouvi-lo falar, é impossível não notar o orgulho com que fala de Portugal. Há uns anos, a esposa prometeu-lhe mil dólares (cerca de 700 euros) se passasse um dia sem falar da sua pátria. “Ainda não ganhei essa aposta”, admite, com um sorriso. Sempre que conhece alguém, seja ele político, actor, produtor, empresário ou simplesmente vizinho, não perde uma oportunidade para gabar as virtudes de Portugal e contar as histórias de um passado glorioso. “Acho que nos EUA toda a gente gosta de Portugal. Não somos ameaçadores, somos inteligentes, temos uma bela gastronomia e uma história linda. O que há para não gostar em Portugal?”
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Por Nelson Marques
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