Carlos Bica, Berlim

on Oct 1, 2014 in Partida | No Comments

A viver há 20 anos na capital alemã, o contrabaixista é figura maior da música portuguesa no panorama do jazz europeu. Em discurso direto, conta-nos a sua história, vivências e convívios musicais.

Carlos Bica por/by Nuno Filipe Oliveira

Antes de querer ser músico de jazz, Carlos Bica (Lisboa, 1958) queria ser músico. Jamais imaginou que essa vontade o pudesse levar a Berlim na qualidade de contrabaixista de renome. Na sua família não havia músicos e “estava longe de pensar que viria a executar esse papel. Aliás, via os músicos como seres inatingíveis”. Foi até como recompensa do ingresso na universidade que o pai lhe patrocinou a entrada na Academia de Amadores de Música, em Lisboa. “É um dos dias mais marcantes da minha vida. Entrei num auditório pequeno e estava lá aquele que viria a ser o meu professor de contrabaixo a tocar no palco. Disse-lhe que não sabia em que instrumento inscrever-me. “Mostra lá as tuas mãos”, disse o professor, que, de seguida, respondeu sem mais dizer, “Então, até amanhã””. Assim se iniciou o percurso musical do instrumentista, cujos dias se passavam na Academia com toda a dedicação: “Estudei muito nessa fase inicial. Tinha finalmente o que queria e nunca me tinha sido dado. Estava feliz da vida”.

Em 1981, já com passagens pela Orquestra Sinfónica Juvenil e pela Orquestra de Câmara de Lisboa, esteve em Berlim a fazer parte da Orquestra Mundial da Juventude “com jovens de todo o mundo”. Uma cidade em que reconhece ter-se sentido “logo em casa”, embora fosse muito diferente do que é agora. No final desse ano recebe uma bolsa do governo alemão para ingressar na Escola Superior de Música de Würzburg, na Baviera do Norte, e que prolongou ao máximo. A partir da agência da cantora de jazz Maria João, com quem entrou em digressão em 1985, conseguiu um visto para se manter no país.

Ao mesmo tempo que fazia parte de várias orquestras de câmara alemãs, tocava numa banda de música popular brasileira e fazia sessões de free jazz. “Foi uma aprendizagem óptima”. Paralelamente começou a fazer música com o guitarrista alemão Frank Möbus e o baterista americano Jim Black (“dois músicos de exceção”), com quem viria a formar mais tarde o projeto Azul que se estreou no Hot Clube de Portugal, em Lisboa, no início dos anos 90.

Ich bin ein berliner

Numa visita a Berlim em 1994 inverteu os planos de vida. “Fiquei fascinado. Era a fase a seguir à queda do muro, a liberdade era total”. Conseguiu então arranjar um apartamento no centro da cidade, em Scheunenviertel, bairro judeu que apesar de não esconder o seu passado histórico, é, “neste momento, a parte mais interessante da cidade porque é lá que fervilha a cena cultural” e onde ainda mora. Nessa altura, decide começar a compor. O primeiro trabalho, Azul (1996), considerado um dos melhores álbuns de jazz nacionais de sempre, é também o debute de Carlos Bica & Azul. O trio, com cinco discos na bagagem, já tocou por toda a Europa e no Canadá, com passagem pelo Médio Oriente e pela Índia. O homem das quatro cordas relembra um espetáculo em Cartum, capital do Sudão, junto ao Nilo, numa fase problemática para o país, onde “a recepção foi incrível”.
De regresso à rotina berlinense, Bica concentra-se na música, guardando o contacto com a natureza, de que tanto gosta, para as visitas a Portugal: “Adoro o mar e o cheiro da terra e por isso gosto muito da Zambujeira do Mar”. Apesar das visitas regulares ao país de origem, sente-se um “cidadão do mundo”. Em Berlim há “a possibilidade de facilmente conviver com outros músicos. Neste momento, toco com alguns que têm metade da minha idade”, salienta. Com o jovem alemão Dj IIlvibe, por exemplo, que também participou na gravação do quarto disco Believer (2006), de Carlos Bica & Azul, fez concertos de improviso. Em território luso, a convite do fadista Carlos do Carmo, é o responsável por introduzir o contrabaixo no fado. Compõe ainda para cinema, dança e teatro, desafios que considera “muito enriquecedores”.

Apesar de continuar a pisar os palcos do mundo, em 2015 aguarda-se um novo longa-duração do trio Azul no qual o artista tem estado a trabalhar na capital da movida cultural europeia.

www.carlosbica.com

por Manuel Simões foto Nuno Filipe Oliveira

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“A poucos metros de minha casa, o B-Flat é um clube de jazz e músicas do mundo. É o meu preferido. Muitas vezes vou lá sem saber ao que vou e sou, felizmente, surpreendido. É esse efeito surpresa de que mais gosto na música”.

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Clärchens Ballhaus \\\ Auguststrasse 24, 10117 Berlin \\\ +49 30 282 9295 \\\ www.ballhaus.de

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Agenda preenchida

Este mês Carlos Bica andará pela Alemanha em digressão com o Move String Quartet. Em Bremen, Meiersberg e Berlim, nos dias 2, 4 e 5, respectivamente. No dia 11, volta a Portugal, a Vila Real, acompanhado pelo pianista João Paulo Esteves da Silva, e, dia 18, no Porto, com a coreógrafa Àfrika Martinez Ferrin. Em novembro o trio Carlos Bica & Azul ruma à Índia, e, em dezembro, colabora com a Orquestra de Jazz de Matosinhos.

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