Carla Caramujo – Mensageira do sublime

on Feb 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

Carla Caramujo é uma das cantoras líricas portuguesas mais reputadas. É uma obra de arte total e, ela explica-nos, os que cantam são os catalisadores de toda a energia e criação.

E ao fim de hora e meia de conversa a soprano coloratura portuguesa Carla Caramujo faz-se uma concessão: pega no bombom oferecido com o chá verde que foi bebericando e proclama: “Vou comer, não quero saber!”. Uma rebeldia impensável em dia de espetáculo. O chocolate suja as cordas vocais. É a única vez que refere algum cuidado especial com a voz. Regressada há semanas do calor do Rio, há poucas horas do frio do Porto e sob a ameaça de chuva em Lisboa, sugere sentarmo- -nos ao ar livre, no terraço do Hotel do Chiado, com uma vista grandiosa sobre a cidade antiga. Pescoço e costas aconchegados por uma écharpe, perde-se a recordar a “experiência transformadora” e “perturbante” que foi protagonizar Orphée, de Philip Glass, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, frente a 2100 pessoas. “Terminava a ópera, havia um silêncio incrível na plateia e depois uma ovação imensa.”

 

Como começou a cantar?

Foi um acaso. O meu pai gostava muito de música e obrigou as filhas a ir para o conservatório. Comecei a tocar violino com oito anos. Aos 15 percebi que não tinha a disciplina para ser violinista. Nem a paixão. Sempre fui muito perfeccionista, até de forma doentia. É algo que tenho de trabalhar, para não endoidecer. Queria desistir e o meu professor perguntou-me porque não conciliava aulas de violino com aulas de canto: “O que fazes aqui, nenhum outro aluno faz.” Eu cantava as mudanças de posição, por instinto. Notas agudíssimas.

Tinha noção da sua voz?

Não, não [ri-se]. E lá fiz a audição de canto, sem nada preparado. Qual não é o meu espanto quando o professor de violino diz: “Todas as professoras de canto te querem.” Foi então que a minha professora me passou uma cassete VHS para ver em casa. Era um Rigoletto da Gruberova com o Pavarotti. Eu nunca tinha ido à ópera. Fiquei fascinada. Fiquei agarrada ao ecrã: “Mas o que é isto? Não é humano!”. Achei uma coisa sobrenatural. E comecei a experimentar. A Gruberova ainda hoje é uma referência, já fui vê-la de propósito a várias capitais europeias, já estudei com a professora dela…

A voz pode estar escondida?

Treinar-se? É uma ginástica de alta-competição. Trabalhamos com oitavas que não são as oitavas da fala nem as oitavas dos cantores pop. Há uma elasticidade da voz e uma elasticidade muscular que têm de acompanhar esse trabalho vocal. Nos primeiros anos temos a sensação de que a voz é algo que não dominamos. E depois de a termos em controle absoluto passamos anos a fazer com que esse controlo pareça natural. É o momento em que passamos a ser artistas.

E o que se pretende quando se sobe ao palco?

Tocar as pessoas. Transformá-las. E quando nos sentimos tocados por alguma coisa que estamos a fazer em palco isso chega ao público. A catarse grega. É um misto de coisas. Aquela expressão que se usa muito agora, o “empoderamento”: “Tenho aqui duas mil pessoas a olhar para mim”, é no mínimo aterrorizador, mas, quando essa sensação desaparece, é “uau”. A ópera é uma forma de arte completa: canto, música, teatro, artes plásticas, literatura. O cantor acaba por ser o catalisador e o mensageiro de tudo aquilo. Temos de estar absolutamente em controlo – se não, é o descalabro –, mas acima disso há a beleza de conseguir criar. É mais que o humano. Acho que tocamos o sublime, seja lá o que isso for.

Como concilia a carreira com a maternidade?

[Suspiro] É difícil. Aliás, é um paradoxo, a emancipação da mulher colocou-nos quase num beco sem saída: há muitas mulheres a optar só pela profissão ou só pela maternidade porque se tornou um desafio enorme. Eu decidi ser mãe porque tenho um marido à altura. O meu filho faz anos em Outubro e eu estive o mês de Outubro fora de casa. Não é fácil gerir isto. Mas eles vão-se habituando e nós também. Para mim trouxe-me uma dimensão fantástica: deixei de ser obcecada com a carreira, passei a ser mais humana e terra a terra, a relativizar. Estes oito anos têm sido os melhores da minha vida.

Qual seria o papel de sonho?

No presente imediato, a Lucia di Lammermoor, do Donizetti, que estudo todas as semanas, e a Ofélia do Hamlet, de Shakespeare, mas escrito por Ambroise Thomas. São duas heroínas loucas, papéis muito desafiantes do ponto de vista musical e dramático.

O que recomenda a quem não perceba nada de ópera mas queira começar?

Deixar-se invadir pelo espírito do teatro de ópera. Não ver vídeos, não ouvir discos – ir logo. E começar por um bom Puccini, um bom Mozart, e depois por aí fora. Para as crianças há todo um universo. O Pequeno Limpa-Chaminés, do Benjamin Britten, que tem imensas crianças a cantar, e o Hansel e Gretel, do Humperdinck.

O seu filho ouve ópera?

Ouve a mãe. Diz-me muitas vezes: “Até não me importava de ser cantor, mamã, mas de ópera não!” [risos].

 

por Joana Stichini Vilela /// foto Ana Clara Miranda

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