Capela – O construtor de violinos

on Jul 1, 2011 in Embarque Imediato | No Comments

Esta história começa em 1924 com a reparação da alma de um violino. Hoje, passadas três gerações, há violinos Capela por esse mundo fora. Quantos são, qual o seu custo e quem são os grandes músicos que os fazem vibrar, são questões que permanecem no segredo dos deuses.

O chilreio sobrepõe-se às vozes, fazendo-as subir de tom para, poucos segundos depois, as silenciar. Há que atentar no protagonista: um travesso, híbrido de pintassilgo com canário. Não tem nome, tal como os outros dois, presos no tecto à entrada da oficina dos Capela. Interessa sim que cante maravilhosamente e que viva por muitos anos.

Explicações dadas pelos seus criadores e descoberto o truque para que a conversa se desenvolva – o tom de voz abaixo do chilreio –, António Capela avança com a história de três gerações de construtores, coisa rara nesta arte, classifica. Ele, que assistiu à criação do primeiro violino do filho Joaquim António, tem deixado de acreditar que acontecerá o mesmo com o seu neto Tiago. A madeira cortada, prestes a ser trabalhada, oferecida ao neto há alguns anos, continua a um canto da oficina, intacta. “A juventude hoje não tem a mesma forma de pensar; aprende um instrumento, passado algum tempo arruma-o, quer outro; pratica um desporto durante anos, abandona-o, troca-o”. António Capela lembra que também teve incitamentos para fazer qualquer outra coisa que não a construção de violinos. A mãe “insistia porque não imaginava onde isto dos violinos ia parar, entendia que era uma profissão demasiado simples”. Já o pai, Domingos Capela, acreditava que ele “tinha herdado o seu dom” e, desde cedo, fomentou a aprendizagem, seguindo as indicações de músicos que, ao apreciarem o trabalho de António, lhe diziam para o enviar para escolas no estrangeiro.

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Fez agora 50 anos – dia 8 de Janeiro é apontado com precisão – que António Capela partiu para Paris com uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian. O estágio na casa Vatelot, o melhor reparador de violinos de Paris, com fama mundial, deu-lhe acesso a uma aprendizagem exímia em instrumentos de célebres músicos, cujos autógrafos foi coleccionando em livro. “Passaram-me Stradivarius notáveis pelas mãos!”. Mas não são estes instrumentos assinados pelo grande Antonio Stradivari – o construtor que fixou, no fim do século XVII, o modelo de violino – os predilectos de António Capela. O construtor prefere a irregularidade da geometria de um Guarnerius – Giuseppe Guarneri – à harmonia da forma dum Stradivarius.

Constrói os dois modelos, mas há clientes que preferem Guarnerius e outros Stradivarius, como os japoneses. São dois modelos da mais prestigiada escola de construtores do mundo: a de Cremona. Na Escola Internacional de Construção de Cremona, António Capela, mais uma vez com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, aprendia a arte de um luthier – como é denominada a arte de construção de um violino, com origem na arte de construção de alaúdes (luthe) – quando conseguiu que uma casa americana lhe comprasse todos os instrumentos que conseguisse produzir. Isto significava, clarifica, que “tinha trabalho certo”. E era lá, em Itália, que a sua mulher queria que ficasse. Mas não. António Capela regressou a Anta, em Espinho, onde a história dos Capela tinha começado em 1924, na oficina de Domingos Capela.

Nesse dia, o marceneiro Domingos Capela recebeu um pedido urgente: “Apareceu-lhe um violinista italo-brasileiro, Nicolino Milano, e pediu-lhe que reparasse a alma do violino. E o cavalete, também. O meu pai era uma artista, com uma precisão fantástica! Em miúdo ia com o meu avô, tanoeiro na Niepoort, e transformava um bocadito de madeira numa escultura de Cristo”.

Da reparação da alma do violino à construção de instrumentos foi um instante. Domingos Capela fundou a Tuna Musical de Anta e queria um violino para tocar e assim participar na orquestra amadora da sua freguesia. Por isso construiu-o seguindo as indicações de Nicolino Milano. Seguiram-se mais violinos e também violoncelos e violas. Da Tuna Musical de Anta, Domingos Capela passou à construção de instrumentos para a então recém-formada Orquestra Sinfónica do Porto e para músicos como Gilhermina Suggia, Henry Mouton, Rene Bohet e François Bross, arrebatando prémios internacionais de topo para melhor trabalho e sonoridade com os seus instrumentos.

O vibrar do violino
Os primeiros violinos de Domingos Capela foram construídos com madeira de plátano, a que conseguia nas redondezas da sua oficina. Mas António, a estudar em Paris, sonhava com ir até aos Alpes, o centro do mundo na venda de madeiras já preparadas e cortadas para construção de instrumentos de cordas. Desde 1971, que António Capela parte todos os anos em busca do melhor ácer oriundo dos Balcãs e tem já madeira armazenada para os violinos da sua vida e do seu filho Joaquim António. É um ácer especial que apresenta uma estrutura nervurada em ondulações, produzindo no fundo do violino um efeito de claro/escuro alternado. Quando o compra, o ácer tem dois, três anos no máximo. Chegado a Anta, vai envelhecer para as estufas de António Capela. “Aqui só se fazem instrumentos com madeira no mínimo com 15 anos. É preciso que envelheça, como o vinho do Porto. Quanto mais velhas, mais vibram!”.

Mas o segredo, o grande segredo dos Capela para que um violino vibre como nenhum, não se esconde na densidade da madeira. Podem estar num congresso com 500 construtores ou numa pequena reunião com meia dúzia de interessados e fala-se de todas as fases que transformam a madeira em violino, “mas quando se chega à parte do verniz ninguém abre a boca”. Passaram-se séculos e variadas teses sobre o segredo de Stradivarius, um segredo que morreu com ele. “O mesmo acontecerá com o dos Capela”, assegura António.

A vibração ou a irradiação do som de um violino é resultado do verniz que o cobre; da sua transparência, da sua morbidez. Mais precisamente, é o verniz o factor distintivo da sonoridade de um violino. Ganhadores de vários prémios – o último deles na Polónia entre 200 construtores –, os Capela falam de uma fórmula que passa de pai para filho e que se baseia nas dicas de célebres construtores. Essa fórmula vai evoluindo, sendo adaptada e melhorada nas mãos de cada luthier.

Os instrumentos são como os pássaros
António Capela não revela quantos violinos já construiu, qual o seu preço nem que mãos já os fizeram vibrar. O preço será talvez mais elevado se for um instrumento barroco, como aquele que fez para a sua mulher ou para cada um dos filhos, com desenhos em marfim gravados nas ilhargas, à semelhança dos Stradivarius que se encontram no Palácio Real, em Madrid. Um Capela é feito por encomenda, demora meses até ser concretizado e é pago no acto da entrega. Se o comprador falhar, outro cliente há-de aparecer. Os Capelas não têm violinos em stock.

Milhares? Centenas? António Capela prefere as dezenas, mesmo quando confrontado com os 200 violinos numerados em etiqueta pelo seu pai: “Os nossos instrumentos não são peças mecanizadas, não podem ser numerados…Não interessa quantos fizemos, quanto custam, quem os toca…São músicos fantásticos! Digo apenas o nome de um, porque já está morto e tive o prazer de o conhecer: Rostropovitch. Estivemos aqui à conversa nesta oficina em 1981”.

Há dias, conta o construtor, em que a sua oficina se transforma numa autêntica romaria. Uns querem reparar os violinos, outros querem encomendá-los e também há quem venha da capital até Anta só para uma visita; ver os Capela a trabalhar; ver a sua arte. À conta deste interesse, António quer abrir um museu e já conseguiu resgatar ao mundo alguns exemplares feitos pelo pai, Domingos. Comprou-os em leilões de antiguidades e em leilões específicos de instrumentos em França e Inglaterra. Há quem vá ao seu encontro: “Quer comprar este violino? A vendedora era uma moça que o tinha comprado a um músico que, por sua vez, o tinha comprado a um cangalheiro. Lembrava-me desse violino, tinha nove anos quando o meu pai o vendeu. Os instrumentos são como os pássaros. Hoje, estão aqui. Amanhã, estão longe”.

Por vezes, quando encontra o rasto de alguns dos seus violinos, António Capela fica triste. Sobretudo quando descobre, gravada a fogo sobre a assinatura Capela, uma etiqueta italiana ou de outro construtor. É por essas e por outras que a sua marca não alcança a notoriedade merecida: “Um Capela distingue-se dos demais violinos só de olhar e se dúvidas houver, basta tocá-lo”. Um som único, irrepetível, como os chilreios dos pássaros que cantam no tecto da sua oficina.

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por Ana Serpa

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