Bryan Adams, canadiano

on Jul 30, 2010 in Um Olhar Estrangeiro | No Comments

Em meados da década de 60, Bryan Adams viveu na Linha do Estoril. Nesta entrevista, a voz de “Heaven”, “Summer of 69” e outros sucessos mais recentes, como “On a day like today” ou “Open Road”, conta, na primeira pessoa, histórias da infância, desfazendo alguns dos mitos que se construíram à volta da sua passagem por Portugal.

Passou a infância e adolescência em Portugal. Que memórias guarda desse tempo?

Entrei na escola em Portugal em 1966 e passei aí quatro dos melhores anos da minha vida, mas não a minha adolescência. Foi no tempo da ditadura. Portugal era bastante diferente nessa altura, uma jóia esquecida. Costumava fazer piqueniques com a minha família na praia do Guincho e era raro ver-se vivalma. Adorávamos a comida, o sol, as ondas a baterem contra os carros na famosa marginal, a vida simples. Portugal ficou-me no coração.

A época em que viveu cá mudou de alguma forma a sua maneira de pensar?

Claro que sim. Tenho uma ligação muito forte com o país. Além de fazer parte da minha formação, foi o lugar onde comprei os meus primeiros discos, onde comecei a interessar-se verdadeiramente por música.

O que pensa da música portuguesa?

O meu pai costumava levar-nos a casas de fado em Lisboa. Nunca mais esqueci as vozes dos fadistas, tão bonitas, únicas e verdadeiramente portuguesas. Não importa não compreender completamente o significado das letras, porque o som transcende os pormenores. Mariza, que é minha amiga, é das mais extraordinárias cantoras que conheço e lembra-me tudo o que é realmente original em Portugal.

Qual é o seu prato preferido? Sabe cozinhar algum prato português?

Quando aí vivia comia aquilo que todos comiam, mas não sei cozinhar. Hoje sou vegetariano.

Lembra-se dos lugares que frequentava nesses tempos?

Era muito novo quando vivia na Linha, por isso ia sobretudo à praia e algumas vezes jantávamos em Cascais. Era uma excitação. Uma das coisas que a maioria das pessoas não sabe é que durante quatro meses vivemos no Hotel Estoril Sol enquanto a casa não estava pronta. Eu e o meu irmão achávamos o máximo viver num hotel, sobretudo porque tinha uma piscina excelente.

Guardou na memória algum perfume em especial?

O do oceano Atlântico é uma boa memória, provavelmente a melhor de todas.

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Imagino que andou numa escola internacional. Costumava sair com portugueses?

Tive alguns amigos portugueses, mas éramos uma cambada de tontos que se metiam em toda a espécie de trabalhos. Que é, aliás, coisa própria de rapazes daquela idade.

Li algures que aprendeu português. Consegue manter uma conversa, ou dá apenas para pedir um prato num restaurante?

O meu português transformou-se em francês assim que me fui embora, uma vez que não tinha ninguém com quem falar. “Mas eu precebes muito…”

Como é que veio parar a Portugal?

O meu pai foi aí colocado como diplomata. Viajámos por todo o mundo muito antes de chegar à adolescência. Nesse tempo, viajei até outros países da Europa e do Médio Oriente.

É verdade que recebeu cá a primeira guitarra?

Não, não é. Recebi a minha primeira guitarra quando estava a passar o Natal em Londres.

Porque é que se tornou músico?

Consegui ter a banda que gostaria muito cedo e, por isso, nunca passei por um trabalho das nove às cinco. Segui aquilo queria fazer e nunca mais parei.

Sempre pensei que o “Summer of 69” fosse inspirado nos verões portugueses. Na pesquisa que fiz, descobri que afinal não era. Existe alguma letra que tenha sido inspirada em Portugal?

Essa canção é uma metáfora sobre o acto de fazer amor. Penso que o passado dá sempre forma ao nosso futuro, apesar de não haver uma letra directamente relacionada com Portugal.

Disseram-me também que costumava cantar no comboio entre Lisboa e Cascais, é verdade?

Apesar de romântica, essa história do comboio também não é verdade. Quando vivi em Portugal na década de 60, a música era uma coisa que só ouvia e com a qual sonhava. A ideia de que poderia vir a cantar ainda não me tinha passado pela cabeça.

Há alguma história engraçada ou bizarra desse tempo?

Sim. Havia um velhote que costumava passear um cão enorme à frente da nossa casa todos os dias. Um dia deixou de o fazer. Reparei mais tarde que o cão continuava a fazer o mesmo caminho porque passava à mesma hora que eu chegava da escola. Nunca mais me esqueci desse episódio. Acho que o velho deve ter morrido e o cão fazia exactamente o mesmo caminho, na esperança de reencontrar o dono.

Quando regressa a Portugal, costuma voltar aos seus sítios, ou tem mais o desejo de redescobrir o país? Quais são os locais de eleição?

Adoro regressar a Cascais, apesar de ter mudado imenso. Gosto de voltar aos lugares que conhecia, sinto-me em casa sempre que lá volto.

No ano passado tocou no Maxime, em Lisboa. Como é que foi actuar num velho cabaret?

Foi muito divertido. Estava só eu e a minha guitarra e continuo a fazer a mesma digressão passado um ano. Portugal foi um dos primeiros países a ver o meu espectáculo a solo.

O concerto foi muito emotivo e as miúdas da audiência estavam todas bem vestidas. Qual é a sua relação com as fãs portuguesas?

Tenho uma página no Twitter e estão lá sempre fãs portugueses a insistirem para voltar. Um dia, gostava de comprar uma casa em Portugal. Acha que me pode ajudar a encontrar alguma?

Quais os lugares que acha mais interessantes em Lisboa?

Gosto das áreas industriais e dos portos de embarque. Das ruas longas e estreitas, com casas cobertas de azulejos antigos. É uma das cidades mais românticas onde estive na vida.

O que pensa da noite da capital. Existe algum lugar onde vá sempre?

Não conheço a noite de Lisboa. A única vida nocturna que alguma vez experimentei em Portugal foram os concertos que aí fiz e a minha cama.

Tem planos de visitar Portugal brevemente?

Vou a Portugal quase todos os anos. Nem toda a gente sabe, mas agora ficam a saber!

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por Maria João Veloso

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