Brasil distante

on May 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

O Parque Nacional Marinho de Abrolhos é um dos mais fascinantes arquipélagos do Atlântico Sul, perto da Bahia. Charles Darwin ficou boquiaberto quando o visitou. A riqueza da fauna é incrível. E milhares – sim, milhares – de baleias visitam-no anualmente e cantam para quem navega nestas águas.

Nas antigas cartas náuticas, a expressão “Abra os olhos” advertia quem navegava por águas agitadas que escondiam imensos recifes de corais, no extremo sul da Bahia. Os anos passaram, a navegação marinha modernizou-se e áreas de preservação foram criadas. Atualmente, a advertência serve para quem visita um dos destinos turísticos mais isolados e preservados do Nordeste brasileiro.

Criado em 1983, o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos é o primeiro do género em todo o Brasil, e visitar esta área com mais de 91 mil hectares é ter diante dos olhos umas das maiores biodiversidades do Atlântico Sul. São 1300 espécies catalogadas, entre elas o exclusivo coral-cérebro, que dá forma a impressionantes estruturas coralinas que só existem por ali, conhecidas como chapeirões. Nem Charles Darwin economizou nos adjetivos durante sua viagem científica a bordo do MS Beagle, em 1832. Em março daquele ano, o jovem naturalista britânico que desenvolveria a Teoria da Evolução das Espécies registou no seu diário as impressões que tivera naquelas ilhas “de um verde brilhante”, “plantas suculentas, entremeadas com alguns arbustos e catos”, “pássaros abundantes” e um “fundo do mar em volta, densamente coberto por enormes corais… de aparência semelhante ao cérebro”. A 70 quilómetros da costa da Bahia, Abrolhos é a versão real de um mundo que só costumamos ver em documentários de alta definição sobre a vida marinha.

Constituído por cinco ilhas de formação basáltica, o arquipélago tem desembarque permitido em apenas uma delas. É na Siriba que visitantes percorrem uma trilha fácil de apenas 200 metros que circunda ninhos de atobás-brancos e grazinas, aves marinhas com alta tolerância à presença de humanos, e só podem desembarcar ali acompanhados de monitores do ICMBIO, entidade pública ligada ao Ministério do Meio Ambiente e responsável pelas ações de gestão, proteção e fiscalização em Unidades de Conservação brasileiras. Alguns grupos de mergulhadores contam também com autorização especial para desembarque na maior das cinco ilhas, Santa Bárbara, única porção de terra habitada e sob jurisdição da Marinha. É ali que visitantes sobem até à plataforma de observação de um farol de ferro fundido para, nos fins de tarde, ver o acender dessa construção de 1861, erguida por ordem de D. Pedro II para garantir navegações mais seguras pela região. Com alcance luminoso de mais de 80 quilómetros, o farol tem vista panorâmica sobre todo o arquipélago. As ilhas restantes, Guarita, Redonda e, a mais afastada, Sueste, são pedaços de terra intangíveis, acessíveis apenas para fins científicos. Entre julho e novembro, um grupo tem passe livre para singrar aquelas águas mornas de tons exageradamente azulados. Provenientes da Antártica, baleias-jubarte encontram o lugar ideal para reprodução e criação de filhotes.

 

Baleia à vista!

“Abrolhos é um grande terraço onde a plataforma continental se estende a muitos quilómetros da costa. É como se fosse uma piscina infantil do clube, um lugar ideal para mães e crias”, explica o diretor executivo do Projeto Baleia Jubarte, Eduardo Camargo. E contar a história desse projeto, iniciado em 1988, é relembrar a trajetória do turismo local. Quando o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos foi criado, começou-se a perceber uma presença regular de baleias na região que estimulou uma coleta sistemática de dados científicos sobre aqueles novos visitantes. A partir dos esforços dos biólogos nasceria o projeto com o objetivo de viabilizar as atividades de conservação da baleia. Como resultado, o turismo que acontecia apenas na temporada de verão, entre dezembro e fevereiro, passou a acontecer no período de permanência das baleias em Abrolhos. Na última temporada, encerrada em novembro de 2017, o projeto registou um recorde de observação da espécie, com avistamento de 442 grupos e mais de 17 mil animais.

Por outras palavras, nessa época, a navegação até Abrolhos é garantia de ter cinco ou mais baleias que se exibem, exclusivamente, para cada embarcação. “A jubarte é muito acrobática e exibida. Ela interage também com as embarcações, aproxima-se, olha, salta e bate as peitorais. Ela faz festa também para o turista”, completa Camargo. E enquanto os viajantes se encantam, as baleias cantam. Uma das características são os cantos entoados pelos machos, no período reprodutivo, em frases que se repetem em diferentes partes do mundo, com regularidades que podem ser observadas entre as jubartes encontradas no Brasil e as do Gabão, em África, por exemplo.

 

Lá no fundo

Com tantas proibições e regras ambientais que limitam a circulação de visitantes e garantem a preservação do destino, Abrolhos é destino para ser visto do mar (ou dentro dele, para os certificados). Por isso, o próximo passo são os liveaboards, nome dado aos catamarãs exclusivos para mergulhadores, com cabines individuais, casas de banho e todas as refeições incluídas, nos três dias de atividades marinhas. Para ver aquelas águas tão temidas por navegadores de tempos remotos e que tanto fascinaram investigadores, a regra é descer mais fundo. Seja qual for seu nível de experiência como mergulhador, explorar o interior dos chapeirões de Abrolhos é como circular pela mente fértil do cineasta Tim Burton, em estruturas como a de um imenso chapéu de abas, em forma de cogumelo gigante.

O mais famoso é o Faca Cega, no Parcel dos Abrolhos, um coral, a 29 metros de profundidade, em que o acesso até ao salão principal arenoso é feito por aberturas naturais dessa formação endémica do sul da Bahia que conta com corredores que também podem ser explorados pelos mergulhadores.

Segundo o Ministério do Meio Ambiente brasileiro, um chapeirão pode alcançar até 50 metros de diâmetro. Para Luciana Fuzetti, mestre em zoologia e condutora subaquática no parque, a preservação da área e a proibição de pesca na região garantiram a reprodução e proteção de espécies marinhas, daí a existência de tanta biodiversidade. “Em Abrolhos existe controle e capacidade de carga que limitam o número de visitantes. Por isso, conseguimos segurar isso tão intacto do jeito que vocês estão vendo”, completa, enquanto estica a mão, orgulhosa, para mostrar a paisagem ao fundo. E se não se tiver a sorte de cruzar o caminho de baleias durante a temporada de migração, a vida marinha recebe mergulhadores com mais de 150 espécies de peixes, três tipos de tartarugas (cabeçuda, verde e de pente), crustáceos, anémonas e esponjas.

Os roteiros de barco incluem programação de mergulhos também em naufrágios, como o do Santa Catharina, um cargueiro alemão abatido por ingleses, em 1914; e o Rosalinda, navio italiano que naufragou em 1955, no Parcel dos Abrolhos. Os pontos de mergulho ultrapassam os oito metros de profundidade, como o do Portinho Norte, a 30 metros, no Chapeirão Atlântida, um recife em forma de chapeirão e com quase 20 mil anos de existência, cujo salão interior abriga até 15 mergulhadores ao mesmo tempo. Nas saídas de um dia, as embarcações partem às sete da manhã do Cais de Caravelas, a 80 quilómetros de Teixeira de Freitas e a 250 de Porto Seguro, e têm retorno previsto para o final da tarde. A viagem, que dura cerca de três horas e meia, pode ser feita por quem quer apenas fazer snorkeling e mergulho livre ou de batismo, quando o visitante não-credenciado desce equipado com cilindro, a até 7 metros de profundidade, acompanhado de um instrutor. “A pessoa tem que querer bastante e quando chega aqui, tudo valeu a pena”, conta Luciana Fuzetti. E lembre-se: para ver tudo aquilo, basta manter os olhos bem abertos.

bahia.com.br \\\ baleiajubarte.org.br

 

texto e fotos Eduardo Vessoni

Arquivos

Onde ficar

Em Caravelas, a Marina Porto Abrolhos é uma ótima solução. Localizada na tranquila praia do Grauçá, é uma das melhores opções para quem embarca para Abrolhos, cuja estrutura conta com bangalôs e área de lazer com piscina, minicircuito de golfe e saídas para cavalgadas. Em Prado, procure a Pousada Guaratiba. A 800 metros do centro, na praia do Novo Prado, conta com piscina com hidromassagem, redário e brinquedoteca. E em Cumuruxatiba, procure a pousada Areia Preta. O destaque é o belo projeto arquitetónico com jardim que se estende até à praia, no meio de coqueiros e castanheiras, espreguiçadeiras e decks.

marinaportoabrolhos.com.br \\\ pousadaguaratiba.com.br \\\ pousadaareiapreta.com.br

Em boa companhia

O Parque Nacional Marinhos dos Abrolhos tem o centro de visitantes na Praia do Kitongo, em Caravelas, e conta com visitas monitoradas, sala com painéis informativos, uma trilha e até a réplica de uma baleia jubarte em tamanho natural. Já a empresa Horizonte Aberto faz um passeio de um dia até Abrolhos, com mesa de frutas, água mineral e sucos, almoço frio com saladas e sanduíches, além de equipamento básico como máscara, snorkel e barbatanas. Quem quer ir mais fundo conta com opções de mergulhos de batismo ou autónomo, para mergulhadores credenciados. Com a Magical Tour (Cumuruxatiba) há passeios por regiões como Barra do Cahy, Corumbau e Caraíva, e transporte em carros até seis pessoas a partir de Teixeira de Freitas e Porto Seguro. A Prado Tour oferece também transporte e tem um cardápio variado de passeios. E a Bike & Trekking Eco Tour tem passeios personalizados de bicicleta e trekking pelas praias, entre Porto Seguro e Prado.

icmbio.gov.br \\\ horizonteaberto.com.br \\\ cumurumagicaltour.com.br \\\ pradotour.com.br \\\ pradoturismoguiapradinho@hotmail.com

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