Arrábida – Em busca da paz

on Jan 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Há lugares de contemplação e evasão às portas de Lisboa. Mostrámos esta magnífica serra à cantora angolana Aline Frazão, que tanto estima a tranquilidade.

“É mundo e se é mundo/ Progride em silêncio/ Porque é o silêncio que governa tudo./ Está dentro da chuva.” O excerto do poema de Ruy Duarte de Carvalho, que inspirou o título do último álbum da cantora e foi revisitado na canção “Kapiapia”, traduz na perfeição a atmosfera deste passeio por este refúgio da costa portuguesa. Sem o barulho das luzes, depois de duas semanas intensas de promoção do álbum Dentro da Chuva em Lisboa, em setembro, antes de voltar para Luanda e preparar uma digressão que já passou por Angola, Brasil, Alemanha, Suíça, Luxemburgo e Portugal. Falar intensamente sobre o novo trabalho fê-la perceber uma série de coisas, “como se fosse colecionando sentidos, que é o que tem a poesia”. Quanto ao texto de Duarte de Carvalho que a inspirou, diz ter a ver com conexão. “Fala sobre um homem muito sábio, [o personagem ficcional] Adriano Kapiapia, numa paisagem, a sentir a chuva a chegar. Ele lê os sinais e inicia uma outra conexão com todos os elementos do mundo. Está dentro da chuva, fundido com a vida”, traduz Aline.

A paz reunida com o saber escutar e conversar. Despertar num planeta atualmente bombardeado com informação. “O que não é nada fácil! Tudo vai no sentido oposto. É um desafio muito grande para quem procura a tranquilidade e a felicidade. Só que, muitas vezes, fazemo-lo no sítio errado.” No topo da Serra da Arrábida, poucos quilómetros a sul de Lisboa, talvez possamos alcançar essa satisfação e ligar-nos ao que verdadeiramente interessa, com o oceano reluzente que preenche o pano de fundo. “Não precisa dar-se para além do que é”, outra das frases que guardamos de “Kapiapia”.

 

Estou além

Os miradouros naturais da serra convidaram a constantes paragens do jipe de António Amaral, o anfitrião desta aventura, responsável pela boutique guesthouse e empresa de experiências Amaral’s Trilogy, para fotografar a tela deslumbrante sobre a qual nos debruçámos. Mas há mais elementos que aguçaram a curiosidade de Aline, como o Convento da Arrábida, no meio da vegetação, e as ermidas, espalhadas à volta do convento, onde os monges meditavam (a cantora revela que planeia fazer um retiro de silêncio). Surge mais um paralelismo com Dentro da Chuva: “Acho que esses momentos de retiro são um pouco o que está na base deste disco, escrito desde esse ponto de vista mais recolhido. Despires-te de toda a confusão na vida na cidade, de toda a superestimulação e estares focado mais contigo e com as pessoas.”

Noutro dos pontos altos vê-se a Serra do Louro e Lisboa, no horizonte. É tempo de arrancar para a baía de Setúbal, onde o rio Sado se encontra com o mar. Mas antes, enquanto descemos a serra, foi a cimenteira, “um cenário industrial numa reserva natural”, que fascinou a angolana.

O verão teimou em despedir-se já fora da estação e o dia convidava a banhos. Saltando do Taxi Boat, Aline nadou nas águas frias e cristalinas da região, em frente às concorridas praias da Arrábida, como a de Galapinhos (um paraíso considerado a Melhor Praia da Europa em 2017). “[Aquele mergulho] simboliza de certa maneira uma vontade que tenho de conseguir estar assim também na vida”, diz Aline. Um sentimento amplificado ainda pelo desembarque num banco de areia, mesmo ao lado da Península de Tróia, ao sabor de macarons, morangos e de um espumante rosé. “Atlântica vitória do sossego”, como canta em “Areal de Cabo Ledo”, sobre uma praia “muito bonita, na costa sul de Luanda, pouco visitada”, com o mesmo nome. No castelo de Palmela, com vista para a costa e para a serra, fotografou os claustros que lhe lembraram as janelas da Alhambra, em Granada, outra referência de evasão.

E porque o melhor peixe do país vem de Setúbal, no regresso à baía sentámo-nos à mesa do restaurante O Miguel. Porém, Aline, que é também ativista, foi pela opção vegetariana. Pertence ao grupo de coordenação do coletivo de mulheres feministas angolanas Ondjango. “Decidi que além da música era a única coisa a que ia dedicar tempo e a luta feminista é realmente um lugar onde eu sinto que faz sentido estar.” Ela está ligada à parte de comunicação do projeto, que considera único naquele país e muito completo na sua forma de fazer política e de pensar. Dedica-lhes “Sumaúma”, “a mãe de todas as plantas”.

 

Vontade de viver

As viagens têm um papel muito importante no percurso da artista. “São sinal de eu ser uma pessoa inquieta. Há uma outra forma de viajar que é uma escola. É um aprender constante. Um querer escutar e ver. Absorver.” Cada um dos seus trabalhos representa um novo capítulo. Recorda o primeiro, gravado em Santiago de Compostela, e Insular (2015), captado na ilha escocesa Jura, mais elétrico. Diferentes linguagens que foi acumulando e que fazem parte da sua personalidade enquanto compositora e cantora. Mas neste Dentro da Chuva decidiu voltar ao princípio, apenas com voz e violão, como escreveu todas as suas canções, e registar a emoção dos concertos intimistas. Uma reação ao barulho em redor do apartamento onde o compôs, no centro de Luanda, a que regressou de vez há dois anos, depois de dez fora. O reencontro com as raízes trouxe-lhe as memórias de “aquela miúda” e fê-la analisar o que já alcançou. “Dá assim uma sensação de gratidão, a sorte que eu tive.”

Na sede dos vinhos da Quinta da Bacalhôa, em Azeitão, que conjuga o vinho com a arte (porque o dono, o colecionador Joe Berardo, como nos disseram, “é o maior fã das duas”), as barricas de branco e de tinto são acalmadas por cantos gregorianos. “Está cientificamente provado que alteram mesmo os vinhos” e que “as ondas [sonoras] da música, em contacto com a madeira, agitam o que está dentro da barrica”. Durante a visita a esta sala escura, fresca e fechada, com azulejos dos séculos XVI a XIX (a maior coleção privada do género em Portugal), Aline comoveu-se: “Ainda bem que ninguém viu!” Ela que ao almoço explicou, entre colheradas de sopa de tomate com ovo escalfado, que se deve “encarar a voz como um instrumento” e contou que “uma compilação de dois CDs da Ella Fitzgerald” mudou a sua vida.

Depois de visitada a exposição Out of Africa, um tributo à rainha africana Ginga, com 700 peças de 15 países, e o espaço What a Wonderful World, que reúne objetos decorativos art nouveau e art déco, e provados três vinhos da Bacalhôa, a jovem de 30 anos (“A primeira idade que combina bem comigo”) experimentou pintar um azulejo e fazer o molde na fábrica Azulejos de Azeitão. Com um sorriso, perguntou ao proprietário Luís Oliveira: “Não precisa de uma estagiária? É tão relaxante!” O convívio com as tradições também aconteceu num antigo lagar de azeite construído pelos frades da Ordem de Santiago, do castelo de Palmela, no século XVII, na Quinta do Anjo. Hoje o espaço acolhe a adega do licor Arrabidine, produzido com a fórmula original, respeitando a receita do avô da proprietária Sofia Lima Fortuna. Com um programa de degustação que inclui ainda queijos da região e compotas artesanais, o objetivo é ser, segundo Sofia, “o mais autêntico possível”. Já no Mercado do Livramento, em Setúbal, com aquela agitação habitual, Aline posou perto dos legumes e dos tomates biológicos e comprou um ramo de gerberas.

Foi ali que refletiu sobre a fisicalidade e a proximidade: “A existência virtual é muito frágil e está sempre a ser ultrapassada por novas existências. Quando te ligas às coisas ficas mais em contacto, mais dentro da chuva.” De novo, o conceito do seu mais recente disco. Ela que disse ter, na noite anterior, durante o jantar, “muitas ganas de viver”. Terá finalmente encontrado a resposta ao verso “Ah, não sei de onde essa força vem”, que escreveu em “Sol de Novembro”, no álbum Insular? No final da canção remata: “Só sei que nos mantém/ Só sei que nos mantém”. Na luta constante da vida.

 

por Manuel Simões /// fotos Rita Carmo

Arquivos

Aline Frazão

Nasceu e cresceu em Angola, mas passou dez anos fora, entre Lisboa, Barcelona e Madrid. Na capital portuguesa estudou Ciências da Comunicação e na capital espanhola iniciou uma carreira em nome próprio. Diz que cada um dos lugares onde morou ensinou-a a não se acomodar, mas a adaptar-se. “Gosto de aprender línguas. Não existe conforto, existe conversa.” Nos seus quatro álbuns cabem o semba, a bossa nova, a morna, o jazz, a folk e a soul. Uma viagem musical que culmina em Dentro da Chuva, gravado no Rio de Janeiro, com participações dos brasileiros Jaques Morelenbaum e Luedji. Aline integra ainda o Julia Hülsmann Oktett e o movimento feminista angolano Ondjango.

alinefrazao.com

Amaral's Trilogy

António Amaral é arquiteto de profissão. Depois de dez anos em Abu Dhabi decidiu aterrar em Azeitão e criar um projeto cujas premissas vão ao encontro do Parque Natural da Arrábida, rico em natureza, gastronomia e vinho. “Criamos experiências para que as pessoas conheçam a região”, explica. Com programas feitos à medida, concebeu ainda três confortáveis quartos e uma sala comum, no seu jardim, a Amaral’s Boutique Guesthouse. No campo, o lugar certo para um merecido repouso depois de um dia intenso em convívio com a qualidade de vida que a Arrábida oferece. Uma casa longe de casa, para um casal ou família.

amaralstrilogy.com

Casa Nobre D'Azeitão

Na Praça da República, a poucos metros da Casa das Tortas, onde se comem as famosas iguarias de Azeitão, e ao lado do Palácio dos Duques de Aveiro, somos recebidos pelo Sr. Joaquim. O mesmo que nos coloca na mesa deste restaurante, que preserva a tradição da cultura gastronómica portuguesa e os bons produtos do mar e da terra, um dos seus maiores trunfos: a sopa de tomate com ovo escalfado. Da carta de vinhos, destaque para o tinto da marca Risco, produzido na península de Setúbal. À sobremesa, uma torta de laranja.

facebook.com/casanobredazeitao

O Miguel

A sala envidraçada de frente para a doca dos pescadores de Setúbal deixa criar a ilusão de que o peixe salta do rio Sado diretamente para o prato. A degustação provavelmente saberá ainda melhor com o corpo a saber a sal depois de um mergulho numa das praias da Arrábida, ali bem perto. Bons petiscos à entrada, como a salada de ovas, e uma preenchida ementa de peixe fresco e de marisco vivo, com um vinho branco da Quinta de Alcube, de Azeitão, a acompanhar, fazem as delícias da marisqueira há 15 anos.

restauranteomiguel.pt

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