Arrábida – Água e serra

on Jan 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

Fomos com dois apaixonados por viagens, Ana Dias e Pedro Marques Lopes, descobrir os prazeres da Península de Setúbal em torno da magnífica Quinta da Bacalhôa.

Os hinos poéticos à sua “Serra-Mãe” – a Serra da Arrábida – que o poeta Sebastião da Gama (1924-1952) clamou, ao ver “o combate magnífico da Cor (…)/ e o casamento do cheiro a maresia/ com o perfume agreste do alecrim”, continuam bem presentes. Entende-se a admiração do escritor, oriundo das terras de Azeitão, e o despertar da consciência ambiental que o levou a inspirar a fundação da Liga Para a Proteção da Natureza em 1948.

Azeitão, às portas do Parque Natural da Arrábida, é mais do que um ponto de passagem, antes destino por mérito próprio. Ana Dias – fotógrafa – e Pedro Marques Lopes – cronista e comentador político – são admiradores confessos de Portugal. Apesar de conhecerem “meio mundo” e recordarem “o paraíso” das Bahamas (ela) ou o “emocionante” Rio de Janeiro (ele), este país à beira-mar continua no topo das preferências. Levá-los até à belíssima Quinta da Bacalhôa, nesta terra a pouco mais de uma hora de Lisboa, na Península de Setúbal, fazia todo o sentido.

 

Do Porto para o sul

Ana e Pedro nasceram no Porto. A beleza da serra, as praias do concelho e a gastronomia local aproximam-nos – para além de uma palavra em comum: comunicação. A fotógrafa trabalha habitualmente para a revista Playboy, a maior parte das vezes fora de Portugal, em edições de países tão distintos como Polónia, Holanda, Alemanha, Sérvia, EUA ou Japão. Chegou a dar aulas na Escola Superior Artística do Porto, depois de cinco anos de curso e uma nota que lhe abriu as portas para o ensino. Mas a licenciatura em artes plásticas, onde maturou o precoce talento para o desenho, acabou por lhe indicar a fotografia. Desde pequena que “desenhava em todo lado e por todo o lado, sobretudo pessoas ou caras, da mãe e do pai”. Trabalhar na Playboy, que colecionava quando era adolescente, “foi um sonho tornado realidade”.

Apesar de Pedro ter saído da terra natal com apenas quatro anos, continua a manter uma ligação próxima com a cidade, muito pela “doença” que admite ter contraído pelo Futebol Clube do Porto e mais ainda pelo sangue quase exclusivamente nortenho. Em Lisboa tratavam-no por “tripeiro” e no Porto por “alfacinha” (que é como se chama popularmente aos naturais destas cidades), dupla identidade de que nunca se livrou. Formou-se em Direito, mas foi o MBA em gestão que o atirou para a atividade em empresas familiares na área da distribuição. O comentário político, os textos e a participação em programas televisivos foram como um murro na mesa há cerca de 15 anos, quando decidiu que “a vida é muito curta para não se fazer o que se gosta”.

 

Segredos da Bacalhôa

Há uma franca probabilidade histórica de D. Maria Mendonça de Albuquerque, proprietária da Quinta da Bacalhôa no final do século XVI, por ter casado com D. Jerónimo Manuel, conhecido pela alcunha de “Bacalhau”, ter obtido, por associação, o género feminino do apodo. O certo é que, para a maioria dos portugueses, o nome Bacalhôa é associado à produção de vinho. Isto apesar de ter sido uma norte-americana, Orlena Scoville, a comprar e recuperar o património em 1936 e ter incumbido, nos anos 70, o seu neto Thomas Scoville de tornar a quinta num dos maiores produtores de vinho de Portugal. O reforço da produção veio em 1998, quando a Fundação Berardo comprou o espaço e, juntamente com outras aquisições, designadamente a empresa Aliança, a Quinta do Carmo e a Quinta dos Loridos, ampliou o património para 1200 hectares de vinhas.

Uma das visitas promovidas pela casa é ao Palácio da Bacalhôa, exemplo da arquitetura civil renascentista que levou o Estado a classificá-lo como Monumento Nacional. As obras e remodelações de gosto erudito e clássico no século XVI partiram da vontade de Brás de Albuquerque (filho do famoso governador da Índia Portuguesa, Afonso de Albuquerque), também proprietário da Casa dos Bicos, em Lisboa. O palácio faz parte do projeto Arte, Vinho e Paixão, implementado em várias quintas da empresa, que inclui exposições de pintura, escultura e azulejaria. Na Quinta da Bassaqueira, onde funciona a sede da Bacalhôa, alberga-se uma coleção que inclui de arte africana, art nouveau, art déco e azulejo português do século XVI ao XX.

A prova dos vinhos pode ter lugar na loja, mas fazê-lo nas vinhas da Cova da Ursa, cujas vistas alcançam o rio Tejo e Lisboa, na companhia da diretora de enologia Filipa Tomaz da Costa, é uma espécie de upgrade que otimiza a degustação das castas mais comuns da Região Vinícola da Península de Setúbal, esse território entre o rio Sado, o Atlântico e a Arrábida.

 

O mundo

É em Setúbal que percorremos o Mercado do Livramento. Ana descobre, a cada esquina, um produto fresco, uma cor diferente, um aroma que passa. Pedro não se livra da sua urbanidade, mas a riqueza disto tudo e a espontaneidade dos vendedores não lhe passam ao lado. Lá perto, no restaurante De Pedra e Sal, falamos do mundo.

Ana conta que aproveita as sessões fotográficas para ir conhecendo países. Lembra locais que lhe ficaram na memória como o Mar Morto, as Bahamas, o Japão e a Islândia. Pedro é capaz de se comover com uma paisagem, como quando chegou ao Rio de Janeiro depois de uma viagem longa e, ao abrir a janela do quarto de hotel sobre a Baía de Guanabara, verteu uma lágrima de emoção. Recorda sítios que conheceu por acompanhar a equipa do Futebol Clube do Porto nos jogos fora, como Istambul, cidade que considera “extraordinária”. Elege as “fascinantes” Buenos Aires e Sydney, acrescenta a Colômbia e ainda o Brasil, a que regressa repetidamente. É um “conservador” quando opta quase sempre pelos mesmos restaurantes e hotéis, como se procurasse “o conforto de casa” nos locais que visita. Destaca Londres, “capital do mundo” onde satisfaz a sua paixão pelo teatro. Já Lisboa e Porto estão noutra “gaveta”. “Se fosse estrangeiro e chegasse a Lisboa entre Abril e Outubro, nunca mais queria sair daqui. É muito difícil no mundo inteiro encontrar uma cidade tão bonita.” O Porto “tem outro mistério e mística: estranha-se e depois entranha-se”.

Mas aqui também estamos seduzidos, junto à Arrábida, de segredos escondidos como as praias de areia fina e água azul de Tróia ou as da própria serra, a rota vinícola, o afamado queijo de Azeitão, o peixe fresco ou o choco frito de Setúbal – tudo isto merece muitas e contínuas visitas. Voltaremos.

bacalhoa.pt \\\ fb.com/visitsetubal.portugal

 

por Augusto Freitas de Sousa /// fotos Enric Vives-Rubio

Arquivos

Pestana Tróia Eco-Resort & Residence

Com enfoque na preservação do meio ambiente, as cerca de 180 villas inserem-se na paisagem local com jardins recheados de plantas autóctones, areia branca e decks de madeira. Numa área superior a cem hectares, o Eco Resort tem acessos exclusivos à praia, piscinas interiores e exteriores, saunas, banho turco, ginásios, campos de ténis, padel e polidesportivo.

pestana.com

di Mestre Ristorante

O chef Paulo Mestre cria “pratos verdadeiros com ingredientes frescos”. Bruschetta, burrata, carpaccio, tártaros, saladas, pastas, peixe e carne e as inevitáveis pizzas, com destaque para as ciglio, pepperoni, vegetariana e alentegénia ou ainda o linguine de amêijoas. O espaço conjuga simplicidade, bom gosto e conforto.

Tróia \\\ dimestre.pt

Moscatel Experience

O nome não deixa dúvidas, mas há muito para provar no antigo edifício do café A Brasileira com vista para o poeta Bocage. Há pratos como bife com molho de moscatel, e obviamente os moscatéis da região de Setúbal. Os responsáveis prometerem o vinho “com Sado, com poesia e com todos”.

Setúbal \\\ fb.com/moscatelsetubalexperience

De Pedra e Sal

Muito mais do que o peixe grelhado ou choco frito, o chef Vasco Alves, professor na Escola de Hotelaria de Setúbal, e o sócio Rui Almeida, prometem novas abordagens na cozinha, como o bife na pedra de sal. Por cima do restaurante, no centro histórico da cidade, há um hostel gerido pelos mesmos responsáveis.

Setúbal \\\ depedraesal.com

A Vela Branca

A esplanada sobre a baía de Setúbal é o atrativo de um espaço moderno, elegante, com uma cozinha que aposta nos pratos regionais e tradicionais da gastronomia portuguesa. Entre peixes frescos grelhados, marisco e carnes, os tachos de choco, gambas ou a cataplana de peixe, o menu vai sendo alterado conforme a sazonalidade dos produtos.

Parque Urbano de Albarquel, Setúbal \\\ avelabranca.pt

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