António Horta-Osório – O special one da banca

on Sep 1, 2013 in Embarque Imediato | No Comments

Começou a carreira com o estatuto de prodígio da Gestão. Hoje, aos 49 anos, o presidente do Lloyds Banking Group é uma promessa cumprida, eleito o melhor banqueiro do mundo em 2012. António Horta-Osório gosta de mergulhar rodeado de tubarões (e não é uma metáfora), mas quem quiser conhecer melhor o gestor deverá observá-lo a jogar ténis.

António Horta-Osório

António Horta-Osório ganhou o epíteto de mais jovem CEO (Chief Executive Officer, presidente executivo) da banca em Portugal quando, em 1993, fundou e assumiu a presidência do Banco Santander de Negócios Portugal (BSNP). Durante as negociações preveniu Ana Patricia Botín de que só tinha 28 anos. “Não te preocupes. Eu só tenho 31”, respondeu a filha de Emílio Botín, fundador do grupo espanhol. Já banqueiro de investimentos, conviveu com os maiores empresários nacionais e preparou algumas das mais importantes operações financeiras realizadas em Portugal. Américo Amorim, que hoje é o 316.º homem mais rico do mundo segundo a revista Forbes, foi um dos seus primeiros clientes. Quando António Horta-Osório entrou no seu gabinete para lhe apresentar um novo produto, o senhor da Cortiça indagou: “Mas que idade é que você tem?!”. A resposta saiu pronta: “O senhor não vai poder dizer durante muitos mais anos que tem o dobro da minha idade.”

Chegou cedo ao topo de uma área que sempre o apaixonou. Os testes psicotécnicos indicavam um talento para a biologia marinha ou para pilotar aviões e a família tinha tradição na área do Direito, mas o jovem António sonhava trabalhar na banca. Recebeu a melhor educação, em que sempre se distinguiu. Ao Colégio São João de Brito, sucedeu-se a Universidade Católica, onde se licenciou em Gestão e Administração de Empresas, em 1987, como o melhor aluno do seu ano. Quatro anos depois concluiu o MBA no Insead, em Fontainebleau, tendo ganho o prémio Henry Ford II para o Melhor Aluno. Em 2003, terminou o Advanced Management Programme, na Harvard Business School. Durante toda a sua carreira, prestou provas em ambientes de negócio internacionais, exigentes e sofisticados, e continua a acumular êxitos. É presidente executivo de instituições bancárias há 20 anos em três países diferentes e, neste período, os bancos que administrava ganharam 17 vezes o prémio de “melhor banco” da revista EuroMoney. Hoje, aos 49 anos, lidera o Lloyds Banking Group, o maior banco de retalho na City londrina, o que o catapulta para o Olimpo dos gestores portugueses. Também o Lloyds foi eleito “Melhor banco de Inglaterra” em 2012 e Horta-Osório foi eleito como “Banqueiro do ano 2012”.

Foi chamado para dar a volta às contas do banco que fora parcialmente nacionalizado pelo Tesouro britânico e, por isso, não surpreende que os holofotes estejam todos virados para si. António Horta-Osório não se furta a esse escrutínio. Na primeira entrevista que deu como líder do Lloyds, afirmou à revista Banker: “Estaremos inteiramente focados no Reino Unido, com o objetivo final de devolver o dinheiro aos contribuintes”. Não é, de resto, a primeira vez que anuncia publicamente os objetivos quantificados que se propõe atingir e em que prazo. Quando chegou ao Abbey National, o seu procedimento foi o mesmo. “É o maior grau de compromisso que se pode ter. Se não atingir os objetivos, fica claro que não os atingi”, afirma, pousando a chávena de chá sobre a mesa em redor da qual conversamos, no seu gabinete na Fundação Champalimaud, de que é administrador não executivo. Os resultados da aplicação da sua estratégia começam a aparecer. No primeiro trimestre de 2013 as contas mostram um lucro antes de impostos de 2040 milhões de libras.

O português não teve problemas de adaptação à vida em Londres. “É um país onde gostamos muito de viver. Claro que o tempo é melhor em Lisboa…”. Fala frequentemente de Ana, a sua mulher, que conheceu nos bancos do Colégio São João de Brito. Nas suas deambulações internacionais sempre se fez acompanhar pela família e os passaportes dos filhos quase contam o percurso profissional do pai. A filha mais velha, Maria Sofia, nasceu em Nova Iorque, em 1991, e tem passaporte português e americano. Margarida nasceu em Portugal, em 1995, quando o pai trabalhava no Banco Santander de Negócios Portugal. E Pedro, o mais novo, nasceu em São Paulo, em 1998, tendo dupla nacionalidade: portuguesa e brasileira.

Nos últimos sete anos têm residido em Londres e a experiência não lhes podia agradar mais. O gestor português identifica-se sem dificuldade com a cultura inglesa: “O rigor, a pontualidade, a organização, a abertura a diferentes culturas, o gosto pela dialética, a autocrítica…”, exemplifica. “Costumo brincar com os meus amigos ingleses, dizendo que só têm de aprender com os portugueses a “pensar fora da caixa”. Nós estamos cheios de problemas e, por isso, pensamos em soluções inovadoras. Em Inglaterra é tudo tão organizado e sistematizado que só têm de seguir os planos que estão estabelecidos”.

O desportista que não gosta de perder

O charme, a educação esmerada, a facilidade de comunicação e o sorriso fácil podem enganar, mas o olhar penetrante de António Horta-Osório não esconde a inteligência, a determinação, a racionalidade e o killer instinct que fazem dele um banqueiro respeitado pela concorrência. O segredo do seu sucesso? Responde: “Costumo dizer que a sorte dá muito trabalho porque é uma combinação de preparação e de oportunidade. Eu trabalho muito, tenho um grande foco, sei exatamente o que quero fazer, dedico-me a 100% às prioridades, montando grandes equipas. O sucesso é 90% transpiração e 10% inspiração”. Não deixa de frisar: “Gosto muito de trabalhar em equipa. O que mais gosto me dá é potenciar as capacidades das pessoas, quer profissional quer pessoalmente”.

As suas reflexões poderiam, nalgumas passagens, ser as de um filósofo, as de um mestre budista ou as de um livro de autoajuda. “O teu sucesso ao longo da vida profissional advirá de te conheceres bem a ti próprio e o meio em que te moves”, escreveu um dia numa carta dirigida a jovens gestores. A Arte da Guerra, de Sun Tzu, é um dos livros que mais o marcou, desde que encontrou um exemplar abandonado numa pousada de Búzios, no Brasil, onde passava a lua de mel. Leu-o pela primeira vez nesse ano de 1987 e depressa se tornou uma das suas obras preferidas, pois considera que a estratégia bélica tem afinidades com a empresarial. É por essa mesma razão, e também pelo desafio intelectual, que gosta de jogar xadrez, colecionando tabuleiros figurativos.

O seu “ioga” é o mergulho, que faz duas vezes por ano. “É uma espécie de introspeção, em que a respiração proporciona subir ou baixar dentro de água, em que tenho de baixar o batimento cardíaco ao mínimo. Fica-se quase em transe.” Para este gestor, o “desporto é das melhores disciplinas de vida. Não há escapatórias: há as regras, determinado tempo, o campo e o resultado é claro, transparente. Nas empresas as pessoas podem-se esconder atrás de múltiplas desculpas”.

Mas quem o quiser conhecer enquanto administrador de bancos, deverá observá-lo a jogar ténis. “O desporto é onde se vê qual a fibra e o caráter dos adversários, e nos conhecemos melhor a nós próprios: onde se aprende a dominar as angústias, as frustrações, ou a jogar com fairplay. Ganhar ou perder é desporto! Eu vou atrás das bolas todas. Só perco se não conseguir ganhar. Mas a seguir ao jogo não me interessa se ganhei ou perdi. Faço na profissão exatamente o que faço no desporto. Não gosto de perder nem a feijões, num e noutro campo.” No seu clube favorito em Londres, o Queen’s, joga durante quatro horas por semana, normalmente contra os professores.

Depois de uma baixa médica devido a exaustão provocada por insónias, desafiou o editor da área de banca do Financial Times, Patrick Jenkins, para uma partida, tendo impressionado com a sua arma secreta: é ambidestro, pois durante dois anos jogou com a esquerda, devido a uma lesão no pulso direito. A partida foi, no relato do jornalista, “uma perfeita exibição de todas as qualidades que se podem desejar num gestor de banca – destreza, aversão ao risco e determinação para vencer”. São estas virtudes que António aplica também na gestão do banco britânico. E ao Lloyds, o que se poderá suceder? “O meu futuro é o Lloyds. Estive 18 anos no Santander, só estou há dois no Lloyds. Depois de devolver o dinheiro aos contribuintes, o que está perto de acontecer, vai haver muito mais para fazer”, remata.

by Isabel Canha

Arquivos

Bilhete de identidade

Iniciou o seu percurso profissional no Citibank Portugal. Trabalhou para a Goldman Sachs, em Nova Iorque e em Londres, até que, em 1993, se tornou CEO (presidente executivo) do Banco Santander de Negócios Portugal e, mais tarde, CEO do Banco Santander Brazil. De regresso a Portugal, em 2000, tornou-se CEO do Santander Totta, de que foi também chairman (presidente do Conselho de Administração) de 2006 até 2011, e vice-presidente executivo do Grupo Santander e membro da sua Comissão Executiva. De agosto de 2006 a novembro de 2010 foi CEO do Santander UK (Abbey National), banco de que era administrador não executivo desde novembro de 2004. A 17 de janeiro de 2011 entrava no Lloyds Banking Group como administrador executivo e em março desse mesmo ano tornava-se presidente executivo do banco.

O rei D. Juan Carlos I tornou-o comendador da Ordem de Mérito Civil de Espanha, em agosto de 1998. Em outubro desse mesmo ano, o Governo brasileiro outorgou-lhe a comenda da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. É cavaleiro de Graça e Devoção da Ordem Soberana e Militar de Malta desde 2010 e foi cônsul honorário de Singapura em Lisboa de 2004 a 2011. Foi-lhe outorgado pelo monarca espanhol a Encomienda de Numero da Ordem de Isabel a Católica. Em junho de 2011 recebeu um doutoramento honoris causa pela Universidade de Edimburgo e, em Junho de 2012, igual distinção pela Universidade de Bath.

Horta-Osório foi ainda administrador não executivo do Banco de Inglaterra, o primeiro não-inglês a ocupar tal cargo. Atualmente desempenha funções de administrador não executivo da Fundação Champalimaud e da Sociedade Francisco Manuel dos Santos, e de Governor da London Business School.

Nome em notas

As notas de banco escocesas são assinadas por António Horta-Osório. A explicação é que o Bank of Scotland, o banco emissor de moeda da Escócia, integra o universo do Lloyds Banking Group e António Horta-Osório é seu governor. O Bank of Scotland foi o primeiro banco comercial europeu a emitir com sucesso papel-moeda, em 1696. Do perímetro do Lloyds Banking Group fazem ainda parte marcas como Lloyds TSB, Halifax ou Scottish Widows.

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