Ana da Silva, Londres

on Aug 1, 2018 in Partida | No Comments

Nascida na ilha da Madeira, mudou-se para o Reino Unido nos anos 70 e fundou as Raincoats, lendas vivas do rock. Continuam a quebrar barreiras e preconceitos.

Em abril os escoceses Pastels deram dois concertos esgotados no Cafe Oto, em Dalston, na zona leste da capital britânica. Shirley O’Loughlin, companheira de Ana da Silva e manager das Raincoats, resolveu enviar uma mensagem com a esperança de conseguir dois bilhetes. Estávamos a conversar no apartamento delas quando Stephen Pastel respondeu: “Claro que sim, vocês são as Raincoats!”. É essa a magia da banda, formada em 1977 e que permanece relevante, como também prova o lançamento em 2017 de um livro dedicado ao homónimo disco de estreia de 1979. Na apresentação do volume (publicado pela Bloomsbury, da série 33 1/3, em que cada edição é dedicada a um álbum clássico), escrito pela jornalista Jenn Pelly, o espaço de arte nova-iorquino The Kitchen, cheio, contou com várias artistas para celebrarem as Raincoats, como Angel Olsen ou as Bikini Kill, que tocaram de surpresa, pela primeira vez desde a separação.

Outro episódio que sublinha o culto é aquele em que Kurt Cobain, figura de proa dos Nirvana, procurava um exemplar de The Raincoats em Londres no início dos anos 90. Passou pela loja Rough Trade, mas lá foi indicado para tentar a sorte na loja de antiguidades onde Ana trabalhava. “Eu não sabia quem ele era, por isso não fiquei assim muito impressionada”, garante. O admirador escreveu depois no livreto de Incesticide, com raridades do trio de Seattle, que receber em casa “uma cópia em vinil daquela escritura maravilhosamente clássica”, autografado por toda a banda, fê-lo “mais feliz do que tocar para milhares de pessoas em cada noite”. Ana ficou surpreendida com o facto de existirem bandas que gostavam das Raincoats, sobretudo as ligadas ao movimento punk feminista Riot Grrrl. E explica: “Na minha cabeça, os nossos discos [editados até 1983] já não existiam. Pensava que estávamos mais ou menos esquecidas.”

Mais tarde foi o rapaz louro dos Nirvana que as convidou a reunirem-se para uma digressão europeia conjunta que, infelizmente, não aconteceu porque Cobain morreu dias antes. Souberam-no durante uma atuação em Nova Iorque para o aquecimento desse projeto. “Quando estava a tocar, havia versos das minhas letras que eram como se estivesse a cantar para ele.” Esta reunião proporcionou ainda Looking in the Shadows, em 1996, e aparições esporádicas, como a tournée que fizeram em Portugal, no início deste verão, que passou por Braga, Coimbra, Lisboa e Porto. Uma visita que a vocalista e guitarrista aproveitou para prolongar, como nos regressos anuais ao país de origem. Na capital portuguesa integraram o festival feminista e de cultura queer Rama em Flor: “As causas que defendem têm a ver com a nossa maneira de estar e com a nossa mensagem.”

Antes de se mudar definitivamente para Londres, em 1974, Ana da Silva aproveitou as greves da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para voar para Inglaterra e viver a antítese do regime ditatorial português. Queria ter “a experiência” da grande cidade, que estava muito ligada ao seu interesse pela música anglo-americana. Era fã dos Beatles e viu os Rolling Stones, e achou que aqui se podia ser aquilo que se quisesse sem ninguém interferir. Quando aterrou de vez adaptou-se a essa “maior liberdade, mas também aconteceu o punk”, que determinou a sua abordagem artística. A escola de artes era outro berço da independência e “um meio bastante aberto a ideias”, onde “as pessoas estavam a fazer coisas”. Aí conheceu Gina Birch, o outro motor de arranque das Raincoats. Na altura viviam “de comida pouco sofisticada, de roupas das lojas de caridade, de renda nula ou muito baixa”. Sem luxos, apenas lhe interessava “fazer aquilo que estava a fazer”. “Era uma guitarra e um telefone em casa e pronto”, ri-se.

Passado tanto tempo, a mulher que nasceu no Funchal, há 70 anos, e que ainda conserva o sotaque, não tem parado. Em junho lançou um livro de ilustrações, Love, Oh Love, com o selo da Rough Trade Books, e agora aguarda a edição de Island, gravado entre Londres e Tóquio com a artista Phew (“Somos naturais de ilhas”). Nesta obra de música eletrónica, Ana canta em japonês e Phew em português, com palavras que ensinaram uma a outra. Num diálogo musical, além da cultura de ambas, demonstram o que as preocupava politicamente em 2017, ano do registo.

O legado de Ana da Silva e das Raincoats também tem sido alimentado por referências em filmes e sente-se ainda nos jovens que aparecem nos concertos e se relacionam com as canções. “É quase como se estivéssemos a fazer isto agora pela primeira vez, de alguma forma.” Em Camden Town (terreno de herança alternativa na cidade) esteve num espetáculo cujas bateristas das bandas eram todas mulheres e foi elogiada pela vocalista dos norte-americanos Downtown Boys, que assistiu às Raincoats em Washington: “Se não fosse por vocês, eu não tinha decidido formar uma banda.” E disse às londrinas Big Joanie que era “fantástico” porque, no seu tempo, “nem havia três mulheres a tocar bateria em Londres!”. Na mesma noite duas raparigas, também elas bateristas, abordaram-na. Não queria acreditar, juntaram-se “cinco bateristas femininas num só espaço!”. Ana mantém este entusiasmo, em forma de amor, atento à nova geração e sempre com o futuro todo pela frente

theraincoats.net

 

por Manuel Simões /// foto Shirley O’Loughlin

Arquivos

A arte na natureza

Nos jardins do Palácio de Kensington encontra-se a Serpentine Gallery original, que mostra exposições de arte contemporânea e tem “uma adorável livraria”. Ana lembra que, “no verão, no exterior da galeria, convidam um arquiteto para construir um edifício temporário”. Os jardins ligam com Hyde Park, onde a artista passeia “quase todos os fins de semana de manhã”.

serpentinegalleries.org

Uma forma de expressão

Ana gostaria de apresentar o trabalho que compôs com Phew no Cafe Oto. “Tem uma programação eclética e mais exploratória.” O Subterania, que foi palco da estreia da formação clássica das Raincoats enquanto Acklam Hall, em 1979, impulsiona a cena musical londrina.

cafeoto.co.uk \\\ arcolatheatre.com \\\ subterania.net

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