Ana Catarina Silva – Corumbau
É uma fazedora de mundos. Mais do que descobri-los, ela gosta de os investigar, de os desenhar, de os recriar. Inventou um paraíso num pedaço de Brasil resguardado, quase secreto, para partilhar, cheirar, tocar. Chamou-lhe Tauana.
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Tinha acabado de fazer 30 anos e andava à procura de um lugar afastado de tudo. Mesmo que ainda não soubesse bem o que queria, sabia que queria sair de Portugal. A primeira paixão foi África e foi a possibilidade de África que encontrou quando chegou ao Brasil, ainda mais à Bahia. Os cheiros, um pouco da imensidão, a arte de erguer casas a partir do que a terra dá. Percebeu que era ali que se havia de cumprir a outra vontade, um projecto que fosse dela, arquitecta ainda sem obra feita. E que, já agora, tornasse viável o projecto de vida, alimentasse o desejo de uma vida fora do mundo ou quase.
A busca começou em 2001. Meteu-se num carro com a mãe e foram rodando devagar até ao Recife, fugindo ao asfalto, parando muitas vezes. Mas não encontrou nada à medida do sonho e da conta bancária. Voltou a Portugal, andou cá e lá, correu o Ceará e o Maranhão, o coração ia-lhe caindo para o interior mas ainda não era o tempo ou o lugar. Até que, finalmente, em 2003, Ana Catarina Ferreira da Silva se tornou a orgulhosa proprietária de uma fazenda no Corumbau. A fazenda Riacho Grande, rente à praia, 23 hectares com vista para o Monte Pascoal e a quatro quilómetros do sítio onde se diz ter lançado âncora a caravela de Cabral, a Barra do Caí (o Rio dos Frades, a sul de Trancoso é outro dos possíveis). Foi aí que decidiu fazer o seu grande pequeno hotel.
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A experiência em hotelaria era zero, nada que a intimidasse. “Nove cabanas-quartos é uma espécie de casa grande”. Uma casa que ela fez à sua imagem, a de um lugar onde quisesse passar férias para sempre. Sem televisão, sem piscina, longe de tudo. A beleza do lugar, deixá-la intacta ou quase, foi a primeira preocupação. O objectivo era um projecto de baixo impacto que utilizasse os materiais, as técnicas e as pessoas da região, empregando-os num projecto arquitectónico reconhecido – e assim viria a ser, por pares como a Wallpaper, a Vogue Casa e o New York Times. Ana Catarina sempre se interessou pelas soluções arquitectónicas transmitidas de geração em geração e adaptadas ao clima e cultura de cada região. “A arquitectura vernácula fascina-me. É riquíssima, tem soluções muito interessantes e uma criatividade enorme, um pouco como a arte popular, aliás”. No Corumbau investigou a construção nativa e teimou em usar materiais da região, mas sempre fugiu ao rústico, ao típico, ao pitoresco. “Procurei sempre que transparecesse a contemporaneidade no projecto”. A vila dos funcionários, a que todos chamam o Quadrado, foi a primeira a ficar pronta, mais perto do mangue. Depois o escritório e estruturas de apoio, as cabanas e o salão. Os talheres chegaram quase ao mesmo tempo que os primeiros ocupantes, convidados, amigos, mas ainda assim hóspedes. Foi o momento mais stressante no ano e meio que durou a obra. Isso e descobrir que os parafusos de latão – imprescindíveis numa região à beira mar onde a ferrugem cresce como erva daninha – não existiam na região e tinham que vir de São Paulo.
Cuidar do tempo
O Tauana abriu oficialmente em Setembro de 2006. Nove cabanas em madeira e adobe (barro e areia), telhados de piaçaba, paredes que se abrem e fecham como um puzzle e ora são janelas ora respiradouros, a deixar entrar a brisa de fim de tarde, como entra o mar e a lua e os coqueiros pelas vidraças que desenham a fachada. Casas que respiram como um corpo. Lá dentro o linho das colchas portuguesas derrama luz no centro do quarto, a par com o imenso mosquiteiro de tule, um dossel branco que desenha uma ilha no meio da casa. A decoração é a arquitectura que a faz, a mobília é quase nada e tudo na sua sofisticada simplicidade.
Desenhar um hotel é mais do que construir uma casa, é construir uma experiência partilhável, com texturas e materiais. E Ana Catarina quis, desde o princípio, proporcionar algo de radicalmente diferente aos seus hóspedes citadinos, urbanos, viajados. “Não apenas a paisagem e a privacidade mas também a possibilidade de habitar um espaço feito de barro e madeira e palha, debaixo dessa lua estonteante.” Cheirar a terra e a vegetação misturadas com a casa, ouvir as ondas para lá da cabeceira da cama, saborear a mandioca em todas as suas declinações, sorver água de coco trazida à orla da praia mesmo a tempo de apagar o incêndio do corpo depois de uma caminhada pela areia, tocar as várias peles que a madeira pode ter e olhar as gradações da luz. Experimentar com os sentidos todos.
Tauana é uma palavra indígena que quer dizer “cuidar do tempo”. Os hóspedes chegam dos quatro cantos do mundo, cada um diferente do outro, semelhantes no poder de compra e no objectivo: relaxar, ficar fora do mundo. Há coisas a fazer, passeios no rio, mergulho no mar, os corais, as baleias no Verão, as bicicletas até onde o corpo aguentar, que a praia é uma extensão infinita.
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Por Maria João Guardão
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