Amazónia, Brasil

on May 1, 2020 in Partida | No Comments

Viagem num barco pelo alto Rio Negro: uma experiência de integração com os mistérios da fauna, flora e pequenas comunidades fluviais.

Matrinxã, caipirinha de cupuaçu, taperebá, mata de igapó, sumaúma, muiraquitãs… um punhado de palavras indecifráveis, que podem soar como música, ocultam um universo no mínimo misterioso. Até mesmo os mais catedráticos em português do Brasil ficarão em dúvida sobre a maioria delas, que no entanto estão enraizadas com apreço na população da Amazónia. Não é em vão: no gigantismo desta floresta densa e na sua incomensurável biodiversidade abrigam-se segredos milenares, além de registos arqueológicos inexplicáveis, dezenas de etnias ainda isoladas e mais de 30 idiomas indígenas. É também o berço de um povo acolhedor que abre seus braços para o turismo fluvial, uma modalidade que desponta aos poucos no cenário internacional e de futuro promissor. A proposta é a de uma viagem num confortável barco regional para grupos pequenos. Uma das expedições mais atraentes tem como ponto de partida a pequena cidade de Novo Airão, a 180 quilómetros de Manaus, capital do estado de Amazonas.

O rio Negro é o habitat de botos-cor-de-rosa, lontras- -gigantes, jacarés, macacos e outros animais que podem ser observados enquanto a embarcação desliza preguiçosamente por águas escuras e mornas, desafiando uma correnteza aparentemente inofensiva. Quem comanda a expedição é o rio. A aparência imaculada de um céu azul nada significa, pois pode ser repentinamente invadido por nuvens escuras dentro das quais se entrelaçam raios ameaçadores. Entre ventos e trovoadas, uma tempestade pode-se armar em 20 minutos. Porém, as intempéries não costumam durar muito e logo você pode ser brindado com um estupendo arco-íris que desponta no horizonte, e surge novamente a claridade que desvenda um cenário de ilhas. Navegar entre estes verdadeiros labirintos exige muito além de conhecimento, destreza e experiência: demanda uma profunda empatia para tecer uma simbiose com tudo aquilo que faz parte dos fenómenos naturais amazonenses.

 

Nas “voadeiras”

De modo geral, embarca-se nas “voadeiras” (pequenas lanchas motorizadas que se deslocam em alta velocidade): uma manhã será para a pesca de piranhas – mais tarde servidas ao jantar, devidamente ensopadas, como manda a receita local; noutro dia o programa inclui banho de cachoeira, uma parada numa praia de areia branca, ou uma espiada em ruínas de uma vila abandonada; também está prevista uma visita a comunidades ribeirinhas para conhecer os hábitos e rotina das populações que vivem dentro numa realidade diferenciada, sem acesso à internet ou sinal de telemóvel, e que dependem exclusivamente do rio para se locomover. Esteja também preparado para uma longa caminhada por dentro da mata primária e secundária, guiada por um exímio guia nativo.

A região acumula superlativos. A Amazónia é a maior bacia hidrográfica do mundo, com a maior diversidade de peixes de água doce; a maior floresta tropical do planeta; é onde fica o Pico da Neblina, o mais alto do Brasil, 2996 metros; e ainda abriga os dois maiores arquipélagos do mundo, o Anavilhanas e o Jaú, este último reconhecido pela UNESCO como Património Natural da Humanidade. É preciso dedicação para desvendar até mesmo uma amostra mínima dos seus trunfos e muito empenho para se familiarizar com esta cultura única. Voltando àquelas palavras misteriosas: matrinxã é um peixe nativo que pode atingir até 80 centímetros de comprimento; taparebá e cupuaçu são frutos; igapó é uma vegetação característica; sumaúma é uma árvore gigante que pode chegar aos mil anos; e muiraquitã, reza a lenda, é um amuleto em formato de animal, como um peixe ou uma tartaruga, confeccionado por uma tribo de mulheres guerreiras outrora chamadas de Icamiabas, que eram exímias manejadoras do arco e flecha, mas não tinham marido. Uma vez ao ano, elas ofereciam estes adornos como tributo aos guerreiros Guacaris, que lhes faziam uma visita galante afim de garantir a descendência. Até hoje acredita-se que estes animais – com destaque para a figura do sapo – trazem sorte a quem os usa, seja em colares no pescoço ou entrelaçados no penteado das noivas.

 

texto e fotos Antonella Kahn

Arquivos

Expedição Katerre

Deslizar pelo alto rio Negro é oportunidade única para explorar os parques nacionais de Jaú e Anavilhanas, onde somente profissionais experientes podem transitar. O barco tem cabines espaçosas com WC privativo e ar condicionado, e o programa é all inclusive. É uma expedição também cultural e social.

Rua São Domingos, 3, Novo Airão \\\ katerre.com

Lodge Mirante Gavião

Debruçado sobre o rio Negro e algumas ilhas do arquipélago de Anavilhanas, este é um hotel boutique: dez suítes, todas com varandão e rede, decoração regional ou indígena. Os hóspedes são brindados com uma piscina e um apetecível restaurante.

Rua Francisco Cardoso, Novo Airão \\\ mirantedogaviao.com.br

Anavilhanas Jungle Lodge

Pioneiro naquela região do rio Negro, o estabelecimento luxuoso prima pelo conforto, charme e aconchego. Oferece spa, academia e lounge com bar, além de um restaurante com receitas amazonenses. São 22 chalés e bangalôs com vista para a mata.

Novo Airão \\\ anavilhanaslodge.com

Piranhas

Uma diversão até para quem não tem nem paciência para o desporto, já que a piranha não demora em atacar com o isco, sendo fisgada rapidamente. No entanto, exige muita destreza. Melhor deixar o guia se encarregar desta tarefa.

Observação de jacarés

Uma das atividades mais aguardadas é este passeio noturno. Durante uma hora, embrenhamo- -nos pelas curvas do rio com o único objetivo de observar jacarés. Os guias conseguem localizá-los com poderosas lanternas através do brilho de seus olhos, que se destaca na escuridão.

Carabinani

Encantadora esta cachoeira de grandes proporções, um dos locais mais bucólicos do Parque Nacional do Jaú. Dá para relaxar e nadar com tranquilidade nas piscinas naturais. A grande vantagem é a água tépida.

Artesanato

A floresta abastece os artesãos. Sementes, cipós, palhas, resíduos de madeira e folhas são matérias-primas transformadas em objetos, obras de arte, joias e móveis. Em Novo Airão visitam-se ateliês, onde também se vendem peças.

Alê Marchê, Avenida Presidente Getúlio Vargas, 150, Nova Airão \\\ Fundação Almerinda Malaquias, Rua Ajuricaba, 128, Novo Airão, fundacaoalmerindamalaquias.org

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