Algarve – Guardiã de memórias

on Feb 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Com a escritora Lídia Jorge fomos conhecer o universo telúrico algarvio, onde ela foi criança e que marcou a sua obra. Esta é uma história de raízes e memórias preciosas.

Uma menina acompanha a avó num trajeto rotineiro. Seguem por uma vereda, colina acima, levando sacos de trigo no lombo da mula, também chamada Menina. Vão a caminho do moinho, guiadas pelo som dos búzios de barro que tilintam ao vento, anunciando que as mós estão prontas a funcionar. “Íamos ainda de madrugada, andando à luz da vela até o vermos. Lá no cimo, o moinho era como o farol da terra. Mais perto, eu ficava impressionada com os ruídos extraordinários que vinham de dentro, apesar das grossas paredes que faziam uma barreira sonora. Quando se é pequena, tudo parece intenso”, recorda Lídia Jorge.

Estas são as primeiras memórias que a escritora guarda do moinho com o qual mantém nítida relação afetiva e que nos serve de refúgio durante o fim de semana em Boliqueime. Temos por anfitrião Júlio Mendes, professor da Universidade do Algarve, seu amigo de infância. Embora conserve, a menos de um quilómetro, uma casa de família construída pelo avô paterno em 1926, ela adora o Molinum ad Mare, projeto de alojamento rural cuja conceção acompanhou desde o início. Júlio viaja pelo mundo todo, mas orgulha-se de “ser montanheiro”. Lídia chega curiosa para rever o “seu” moinho. Entra, sobe as escadas e chega-se à janela para admirar a vista. “Este era o ponto de encontro dos agricultores da terra, mas ao redor só havia mato. A capota de colmo era facilmente visível e servia como ponto de sinalização. Na época, isto era uma obra complexa e sensível. Era o nosso barómetro e termómetro. Também era aqui que vínhamos, nas passagens de ano, para observar as estrelas… Longe do halo da luz das cidades, víamos as constelações. Eu sentia-me tocada por uma força telúrica e muito perto do céu.”

 

Raízes e sabores

Lídia é oriunda de uma família de agricultores e tem as raízes plantadas na terra. “Na minha infância, a riqueza media-se pelos terrenos. A diferença entre ricos e pobres via-se porque algumas famílias trabalhavam a terra e outras contratavam pessoas para o fazer. Nós não éramos ricos, éramos medianos. O meu avô paterno também era agricultor, mas tinha mais posses. A pobreza à nossa volta era tanta, que parecíamos ricos.” “Além do trigo, cultivávamos grão, favas, griséus [ervilhas] e aveia para os animais. Os ovos vinham das galinhas da capoeira. Tínhamos as árvores: oliveiras, figos, amêndoas… Eram os nossos géneros económicos de subsistência. À mercearia íamos buscar arroz, açúcar, bacalhau, petróleo, fósforos… os produtos eram vendidos em cartuchos de papel. O peixe, a carne e as azeitonas tinham que ser salgados, para durar mais.” Tudo isto se passava quando “ser genuíno tinha origem na pobreza. Hoje é que a autenticidade é minimalista”.

A par das lembranças da comida, feita para matar a fome, Lídia alinha as dos estudos, feitos para matar a sede de conhecimento. “Infelizmente, não era assim. Existia um posto escolar, mas os professores pouco mais sabiam que os alunos. Aprendia-se a assinar o nome, a fazer contas básicas, a escrever uma carta. Chegava. Isto era no tempo em que as moças se atiravam aos poços por desgostos de amor. Não tinham o consolo dos livros, para as transportar da realidade para outros mundos. Eu continuo a achar que a literatura é um consolo e que as pessoas são muito mais pobres sem ler.”

Embora tenha passado a infância no campo, “a brincar sozinha com a natureza”, Lídia começou a ler e escrever cedo. “Eu criava outros finais para as histórias que não me agradavam.” Sempre gostou das tramas inspiradas pelo “universo mágico” que a cercava. Logo no seu livro de estreia, O Dia dos Prodígios, usou como cenário a fictícia e mítica Vilamaninhos, algures entre Boliqueime, Paderne e Alte. “Até ao [romace] Cais das Merendas, eu falava de uma sociedade arcaica, rural e patriarcal, numa linguagem barroca, com metáforas próprias da região. Só depois de Notícia da Cidade Silvestre passei para um mundo mais urbano, tratei uma realidade moderna e aberta à linguagem contemporânea.”

 

Paz

Almoçamos de frente para o mar, no restaurante O Golfinho, junto às falésias de cor avermelhada. Ali, na Praia da Abelharuca, fica a Rocha Baixinha citada num conto de Lídia. “O mar é o nosso motor. Todos os meus livros têm mar. Mas na era pré-industrial, só os iniciados chegavam aqui. A costa era desabitada até ao principio do século XX, considerada uma zona de pirataria perigosa, cheia de lendas trágicas. As pessoas viviam mais para o interior, para se sentirem protegidas. Nos anos 40, viver no litoral era um ato de heroísmo. Eu lembro-me de aos domingos vir para a praia na carroça dos meus avós. Uma festa! Saíamos de casa às seis da manhã para passar o dia e, como não havia caminho, atravessávamos os pinheiros guiados pelo barulho das ondas. Gostávamos de ver o trabalho dos pescadores, ajudávamos a puxar a corda dos barcos e, depois, eles davam-nos algum peixe.”

Voltamos ao barrocal. Visitamos a Igreja Matriz de Boliqueime, destruída pelo terramoto de 1755. Foi reedificada. “Dizem que só se aproveitou o sino, que ficou pendurado numa árvore. A nova igreja, feita às pressas para não deixar as pessoas sem missa, é mais pequena do que a original, que possuía três naves”, informa Lídia. Os restauros atuais são da responsabilidade de Eduardo Oliveira, que nos abre a porta e conta pormenores sobre as imagens dos santos. Lídia emociona-se: “Há muito tempo que não entrava nesta igreja vazia. Fui batizada e fiz a catequese aqui. Lembro-me de ficar a olhar para a Pietá e sofrer. Aliás, a igreja para mim era um lugar sofrido. Fazia-me impressão o Cristo crucificado, o Menino Jesus nu… Aos meus olhos de criança, eram imagens pesadas. Hoje sinto por este local uma enorme ternura. Dá-me paz esta simplicidade.”

 

Embaixadora

Na manhã seguinte visitamos a Galeria de Arte Côrte-Real, em Paderne, que funciona também como show room de design. É surpreendente chegar ao alto de um monte e encontrar aquele espaço multicolorido, repleto de ideias originais. O inglês Michael Roberts, coproprietário com o português Pedro Côrte-Real, afirma que a galeria está aberta há dez anos. “Crescemos fazendo pequenos objetos, desde luminárias a móveis. Agora trabalhamos com a decoração do Vila Joya, que é um hotel de luxo, temos clientela em Lisboa e no Porto, e também europeus que vêm de passagem e se tornam fregueses”. Lídia está exultante: “Fazer restaurantes no interior é compreensível, porque os turistas andam à procura de coisas diferentes. Mas uma galeria de arte no meio do nada, onde só há campo e papoilas… isso achei fantástico! Aqui existe um projeto coerente do ponto de vista cultural. Espero que continue a ter sucesso!”.

Entramos no Castelo de Paderne, um dos sete representados na bandeira nacional portuguesa. João Paulo Pedreira, do Serviço Educativo da Câmara Municipal de Albufeira, e Mauro Valente, da área de arqueologia, guiam-nos por entre o que resta das muralhas da pequena edificação, exemplo da arquitetura militar islâmica. Lídia, que só conhecia o castelo por fora e “através das lendas familiares”, aprova as várias atividades ali programadas, incluindo os passeios pedestres com explicação da fauna e flora locais. “Percebi que há uma intenção científica séria em recuperar o espaço, que me agradou, pela envolvência com a terra, que se mantém pura. A ponte romana, a ribeira, a azenha… a alma do local está ali e isso é uma prova de respeito muito importante.”

E a escritora, que muitos veem como “embaixadora do Algarve”, conclui com um balanço sobre esta rica região: “Logo a seguir [à revolução de] 25 de Abril [de 1974] criou-se aqui o Movimento de Independência do Algarve, como se fosse uma ex-colónia. Mas o facto é que, apesar da nossas caraterísticas e história particulares, fazemos parte de Portugal. E uma parte privilegiada, porque somos um espaço de convívio multicultural. O Algarve alberga cerca de 70 etnias diferentes, que se misturam com a população local num convívio ameno. Temos aqui gente de todos os lugares do mundo, que é acolhida num abraço de compreensão e tolerância. Não se diz mais ‘Go home’. Diz-se ‘Welcome’. E não é apenas por causa dos negócios, é por reconhecermos que as pessoas que vêm de longe e que se interessam pela nossa cultura, podem tornar-se nossas. Elas trazem um nível cultural mais elevado, que obriga à elevação dos portugueses também. Aquilo que eu sonho para o Algarve é que seja uma zona respeitada, não só pelo passado, mas pelo seu potencial contemporâneo”.

 

por Moema Silva /// fotos Marisa Cardoso

Arquivos

Lídia Jorge

Com mais de 20 livros traduzidos em 22 línguas, nascida no Algarve em 1946, é uma das mais importantes autoras portuguesas. Desde a publicação do primeiro romance, O Dia dos Prodígios (1980), foi-lhe reconhecido um estilo próprio. Destacam-se O Cais das Merendas (1982) e Notícia da Cidade Silvestre, (1984), além de A Costa dos Murmúrios (1988), adaptado ao cinema por Margarida Cardoso. O Vento Assobiando nas Gruas (2002) e Combateremos a Sombra (2008) estão entre os títulos mais recentes, a par de contos, teatro e textos para a infância. Lançou este ano Estuário. Defendendo que “os livros não têm obrigatoriamente que passar uma mensagem, servem para muitas outras coisas”, orgulha-se de ser uma cidadã ativa: “Gosto de tornar a palavra pública e de tomar posição. Não vivo à margem da sociedade. Sou mais que uma escritora, sou uma interventora”.

lidiajorge.com

Molinum ad Mare

Construído em 1900, o moinho serviu comunitariamente as pessoas de Boliqueime até aos anos 60. Quando Júlio o herdou, recuperou-o como alojamento rural. O espaço foi ampliado com mais quatro quartos para hóspedes, sala de estar, cozinha partilhada e muito bom gosto, com móveis antigos restaurados, obras de arte, artesanato e recordações de viagens. Está lindamente integrado na propriedade, caraterizada pelo sossego e pelo caloroso acolhimento da gerente Joana, filha de Júlio, que prepara uns saborosos pequenos-almoços. Há duas piscinas, vários recantos para leitura, conversa e descanso, e uma eira que serve de mirante, com vista fabulosa, de Faro a Portimão, com o mar no horizonte. Também inclui uma tenda reservada à pratica de mindfulness, orientada por Renata Cortês.

averomar.net

O Golfinho

Somos recebidos por Luís Inácio neste restaurante à beira-mar com 29 anos de existência. Há amêijoas à Bulhão Pato, camarão frito, lulas à algarvia, xarém com conquilhas, peixes fresquíssimos. Entre as especialidades da casa contam-se arroz de polvo, feijoada de gambas e cataplana de amêijoas com carne de porco. Refeições saborosas, condizentes com a paisagem.

fb.com/ogolfinhoaberaluchas

O Lavrador

Restaurante de cozinha tradicional, gerido por Luís e Diogo Amado, pai e filho, desde 2017. É um espaço para cerca de 60 pessoas, localizado longe do centro e que disponibiliza transfer aos clientes. A grande atração é o forno a lenha na sala. Foi-nos servido um jantar de degustação com enchidos, queijo e cenoura à algarvia como entradas; pratinhos de carapaus alimados e barriga de atum; bacalhau e cabrito. Jantar suculento!

restauranteolavrador.com

Veneza

Foi mercearia, taberna, armazém e até salão de baile até 1983, quando os atuais proprietários, Manuel Janeiro e esposa, abriram este restaurante especializado em marisco e gastronomia regional. Pratos principais: coelho estufado à caçador, ensopado de borrego à alentejana, galo cozido com grão e xarém. Sobremesas: tarte de figo, morgado de amêndoa e torta de alfarroba. Irresistível.

restauranteveneza.com

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.