Alentejo – Além-céu

on Sep 1, 2017 in Embarque Imediato | No Comments

Três dias, duas noites e uma mão cheia de aventuras depois, temos para lhe contar tudo sobre o projeto que põe o Alqueva no roteiro dos apaixonados pelos astros. Dark Sky Alqueva é o nome da primeira reserva do mundo certificada como “destino turístico starlight”. Fazem as honras Apolónia Rodrigues, mentora, e Miguel Claro, estrela da astrofotografia. 

Chegou pelas 23 horas. Pouco menos que cheia, mas intensa que baste para alumiar um passeio de canoa no lago do Alqueva e “brilhante demais para nos deixar ver estrelas comme il faut”, diz Miguel Claro, astrofotógrafo e parceiro de Apolónia Rodrigues, a grande responsável pelo Dark Sky Alqueva.

Estamos perto da aldeia que batizou o lago que no começo da década passada transformou por completo a paisagem deste pedaço de Portugal (e uma porção também da vizinha Espanha) para, com a empresa de aventura Break, remar no espelho de água com nada mais do que a Lua e o silêncio por companhia. Apolónia e Miguel partilham a canoa, como partilham a paixão pelo cosmos, pelo Alentejo e por tantos outros temas. São parceiros não só no projeto que viemos conhecer, mas também na vida. A história de como os astros traçaram os seus destinos, ouvimo-la ainda há pouco, à mesa do restaurante Sem-Fim na pacata aldeia do Telheiro – morada também da Casa de Saramago, nosso porto de abrigo por estes dias.

Entre um petisco e outro, Apolónia conta a história do Dark Sky Alqueva, desde os seus primórdios, e da ideia de “criar um destino onde a atração fosse a fruição de um céu estrelado livre de poluição luminosa”, passando pelas primeiras medições de luminosidade e pelos imprescindíveis contributos da Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores, até à instituição oficial da reserva, que aconteceu em 2009. Um trabalho de “incontornável audácia” (como escreveu Miguel), moroso mas ditoso e que hoje atrai curiosos de todo o mundo às terras do grande lago.

Do dia para a noite

O passeio de canoa acabou com um piquenique à luz do luar e o caminho de regresso do Alqueva ao Telheiro, no sopé de Monsaraz, já se fez de madrugada. Por isso, deixamos que hoje o despertador toque um pouco mais tarde para então sairmos à descoberta do Parque de Natureza de Noudar, no concelho de Barrancos, a uma hora de viagem.

Noudar é tão ou mais quente do que a Amareleja, vila onde os termómetros chegam a bater nos 50 graus centígrados. O solstício de verão está aí a rebentar, e o calor hoje é igual ao do pino do estio. A primeira coisa a fazer na casa-mãe da Herdade da Coitadinha, quartel-general do Parque Natural, é dar um mergulho na piscina. Depois é tempo para matar saudades da clássica sopa de cação, e só perto das 15h é que nos sentimos capazes de enfrentar o sol e sair para um passeio de Noucar, os carros eléctricos que levam o visitante aos quatro cantos da reserva onde, mais dia, menos dia, serão devolvidos ao seu habitat linces ibéricos. Nuno Santos, o homem que nos cozinhou a sopa de cação, sabe tanto de cozinha quanto deste ecossistema onde coexistem montado, olival, áreas de pasto e pastoreio e também bosques e azinhais. É com pena que não ficamos para a noite, até porque Miguel não se cansou de gabar os atributos do parque – que integra a rede de concelhos abrangidos pela reserva Dark Sky – para a observação de estrelas. No seu livro Dark Sky Alqueva – O Destino das Estrelas, o astrofotógrafo publicou várias imagens captadas nos céus barranquenhos, entre elas uma impressionante foto da Via Láctea sobre o castelo de Noudar, fortaleza medieval determinante na defesa da fronteira com Castela nos princípios do século XIV.

O próximo destino é a Cumeada, às portas de Reguengos de Monsaraz, e o motivo que aqui nos traz é ver algo que sempre nos disseram que não devemos olhar de frente; isso mesmo: o Sol. Com um telescópio solar a fazer de intermediário, apreciamos a bola de fogo responsável pela nossa existência. Estamos na escola primária que Apolónia converteu na base do Dark Sky Alqueva e connosco está João Passos, especialista no Alentejo em estado sólido (é geólogo) e líquido (é enólogo) e o parceiro da Dark Sky nestes fins de tarde de observação do céu que são sempre bem regados a vinho e gin. Aqui regressaremos, mas para já são horas de jantar. Aportamos no Aloendro, restaurante tradicional às portas de Reguengos. Gaspacho para uns, secretos de porco preto para outros, e de novo a conversa a descolar bem para cima da atmosfera terrestre. O fascínio de Miguel pelo cosmos começou antes do interesse pela fotografia. Era miúdo quando se começou a interessar por astronomia, e o entusiasmo com que fala de fenómenos como a luz zodiacal ou o “earthshine” (brilho da Terra), “um dos mais belos fenómenos celestes, descrito pela primeira vez por Leonardo da Vinci”, é ainda hoje quase pueril. A fotografia veio depois e por culpa do primeiro.

Passa já das 23 horas quando regressamos à base da Dark Sky para observar o céu. O luar continua muito intenso para observação a olho nu e o vento sul trouxe poeiras do norte de África para desajudar a missão. Assim sendo miramos mais além e mais em detalhe. Olhamos o espaço com a ajuda de telescópios. Júpiter, que destrinçamos a olho nu no meio de pontos brilhantes no céu negro, é o primeiro a estar na mira de um dos mais potentes telescópios do observatório. Vemos-lhe as luas e distinguimos-lhe as riscas. Saturno e os seus anéis são os próximos, antes de olharmos em detalhe para as crateras do nosso satélite natural.

 

Da noite para o dia

A manhã de hoje estava destinada a um passeio de balão sobre o grande lago. Havíamos de levantar voo antes de o astro-mor subir no horizonte e cruzar os céus à boleia da brisa durante um par de horas. Quis o destino que a brisa fosse vento e que os nossos planos fossem nas suas asas.

A vaza cortada foi um belo pretexto para subir a Monsaraz, vila-presépio, com o seu casario branco a brilhar sob o sol da manhã. Seguindo os passos inversos aos de um grupo de excursão, havemos de desaguar na arena do castelo, não sem antes bisbilhotar a Igreja Matriz, os antigos Paços da Audiência e meia dúzia de lojas de artesanato onde, a muito custo, resistimos para não trazer na mala as típicas mantas alentejanas. Olhar a paisagem do cocuruto da torre de menagem não será bem a mesma coisa do que o passeio de balão, mas não fica longe. A planície doirada de um lado, o lago azul do outro. Lá além, o cromeleque do Xerez, ao lado do Convento da Orada. O monumento megalítico é um dos vários do género na região e o único da região a ter sido transferido em 2004 devido à construção da barragem de Alqueva. Um pouco adiante dele, a recém-inaugurada praia fluvial de Monsaraz. Quem diria há 30 anos que nesta planície se havia de ir a banhos?

É do ancoradouro vizinho à praia que partimos num veleiro holandês de 1913. O barco pertence ao Sem-Fim (o restaurante dos Kalisvaart) e é um dos mais requisitados para passeios no lago. À cabeça da tripulação está Tiago Kalisvaart, que faz uma rápida apresentação em números do lago: “A reserva estratégica de água tem 100 quilómetros de ponta a ponta, 2500 mil metros cúbicos de água e uma linha de 1180 quilómetros – mais uns quantos do que a costa marítima portuguesa. Alimentada pelos caudais dos rios Guadiana, Degebe e Alcarrache, a albufeira alagou a planície, engoliu os prados e uma aldeia, a da Luz [que foi trasladada para outro poiso] e deu lugar ao maior lago artificial da Europa ocidental.” Ao sabor do vento, vamos até uma pequena ilha onde, além de uma linha de areia, temos também vista para dois castelos, o de Monsaraz e o de Mourão. Lançamos âncora, atiramo-nos à água, que está a uns maravilhosos vinte e poucos graus, e deixamos que as brasas peguem para assar as plumas de porco preto. Apolónia e Miguel aproveitam o momento de pausa e bebem os raios de sol. Daqui a pouco mais de um mês hão de estar a braços com mais uma edição da Dark Sky Party, evento que junta debaixo do mesmo céu centenas de curiosos e uma mão cheia de estrelas da astronomia.

Horas depois, com as barrigas tão cheias quanto a alma, navegamos de volta à praia fluvial de Monsaraz ao sabor do vento. Três dias, duas noites, uma mão cheia de aventuras e milhentas calorias depois, estamos prontos para as despedidas. A Apolónia e Miguel deixamos a promessa de um regresso. Connosco levamos a certeza de que a promessa será cumprida.

 

por Maria Ana Ventura /// fotos André Carvalho

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filme DARK SKY ALQUEVA por Dois Meios

DARK SKY ALQUEVA from Up Inflight Mag on Vimeo.

 

Arquivos

Apolónia Rodrigues

Mulher do Norte que se perdeu de amores pelo Alentejo, onde passa a maior parte do seu tempo, Apolónia é licenciada em gestão e planeamento em turismo pela Universidade de Aveiro e é nesta área que tem vindo a dar cartas. Apaixonada pela natureza, desde cedo se envolveu em projetos que casam sustentabilidade e ruralidade. Entre outros projetos, Apolónia presidiu à Genuineland – Rede de Turismo de Aldeia no Alentejo, e é a alma e coração do Dark Sky Alqueva.

 

Miguel Claro

Astrofotógrafo profissional e astrofotógrafo oficial do projecto Dark Sky Alqueva, é autor dos livros Astrofotografia – Imagens à luz das estrelas e Dark Sky Alqueva – O destino das estelas. Finalista em duas ocasiões do prémio Astronomy Photographer of the Year e um dos vencedores do International Earth and Sky Photo Contest 2011, Miguel tem imagens publicadas no mundo inteiro em revistas da especialidade, como a Astronomy Magazine, BBC Sky at Night, Ciel et Espace, e em publicações como a National Geographic, Visão ou Fugas. Várias fotografias da sua autoria foram distinguidas pela NASA como as imagens do dia na categoria Terra e Ciência e Astronomia.

miguelclaro.com

 

Dark Sky Alqueva

Primeira reserva do mundo certificada como “destino turístico starlight”, a Dark Sky Alqueva é pioneira neste género em Portugal e, por enquanto, filha única. A área de “céu estrelado livre de poluição luminosa” estende-se pelos concelhos do Alandroal e de Barrancos, Moura, Mourão, Portel, Reguengos de Monsaraz, todos eles nas margens do grande lago do Alqueva. Além da área de reserva, o projeto apresenta também uma rota constituída por diversas unidades de alojamento local, restaurantes, produtos e produtores locais e empresas de animação turística que promovem atividades relacionadas com a fruição do céu noturno – é o caso dos passeios de canoa e das provas de vinho que acompanham a observação do Sol ao telescópio. A Dark Sky Alqueva nasceu em 2009 pela mão de Apolónia Rodrigues.

darkskyalqueva.com

 

Sem-Fim

Em terra firme está o restaurante, um velho lagar de azeite reconvertido para receber gente com apetite de leão. A transformação foi obra de Gil Kalisvaart, holandês apaixonado por Portugal e há muito radicado em Monsaraz, que é também o responsável pelas obras expostas na pequena galeria de arte do restaurante. Da cozinha espere as tradicionais alentejanices: açorda, gaspacho, bacalhau d’azeite alhado, poejada de coelho, assados de borrego e grelhados de porco preto. Mas o Sem-Fim tem também um filiado com licença para navegar nas águas do grande lago. É um veleiro de 1913 que transportava carga nos canais do seu país natal. Transformado em barco de recreio, leva os visitantes a conhecer os encantos do grande lago por um par de horas ou por um par de dias, sempre com muita e muito boa comida a bordo!

sem-fim.com

 

Casa Saramago de Monsaraz

Na aldeia do Telheiro, plantada no sopé da vila muralhada de Monsaraz, este turismo rural é uma casa de família com as portas abertas para receber quem vier por bem. Conte com sete quartos na casa-mãe e três no pátio e também com uma agradável piscina com vista para a muralha do Castelo de Monsaraz. Espere a tradicional hospitalidade alentejana.

casasaramago-monsaraz.com.pt

 

Pançona

Na casa-mãe da reserva, bem defronte para o Castelo de Noudar, o restaurante deste alojamento local tem à frente da cozinha Nuno Santos, o homem que divide o seu tempo entre os tachos e panelas, a horta, o pomar e o montado da herdade. Além da divinal sopa de cação, Nuno tem também mão para o bacalhau na brasa e pratos de caça (em época dela). Pançona, mais do que o superlativo de pança, é o nome de uma fonte situada nas margens do rio Ardila, perto do Monte da Coitadinha, onde os barranquenhos costumam fazer piqueniques.

parquenoudar.com

 

Break Aventura

O lema de Francisco Guerreiro e companhia é transformar cada visitante num fã incondicional do Alentejo. Para isso, dá a conhecer a região através de uma mão cheia de atividades, umas mais radicais do que outras. As mais requisitadas são as que metem o lago ao barulho: é o caso do stand up paddle e da canoagem – diurna ou noturna.

alentejobreak.com

 

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