Alcobaça – Cheia de graças

on May 1, 2010 in Fim-de-Semana Perfeito | No Comments

Levámos a actriz Custódia Gallego e o estilista José António Tenente numa romaria pelas maravilhas de Alcobaça, terra de amantes eternos, histórias ímpares e manjares dignos de deuses.

Amêijoas à Bulhão-Pato, robalos grelhados no ponto e a magnífica vista da baía de São Martinho. Eis a primeira maravilha destes dias: São Martinho do Porto, vila piscatória do concelho de Alcobaça. É aqui, no restaurante Pesca no Prato, que fisgamos os convivas deste fim-de-semana com um isco a que é difícil resistir: o sublime repasto que abre caminho às apresentações.

A actriz e o estilista conheceram-se em trabalho. Ela fazia parte do elenco de Vedetas, ele era o figurinista da peça, levada a cena em 1993. Em perfeita sintonia, ambos confessam que não vinham aqui há um par de anos e que “sabe muito bem o regresso”. Especialmente a José António Tenente, que vê nestas colinas, viradas para o Atlântico e minadas de moinhos de vento, muitas parecenças com os arredores de Torres Vedras, onde passava férias em menino.

Reza a canção popular de Maria de Lurdes Rezende que “Quem passa por Alcobaça / Não passa sem lá voltar. / Por mais que tente e que faça, / É lembrança que não passa”. Nem Custódia Gallego, nem José António são debutantes nestas paragens. E por isso se cumpre à letra a canção. Para matar saudades e para descobrir novas e velhas atracções na cidade que guarda um monumento classificados entre as 7 Maravilhas de Portugal.

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O passeio dos alegres
A meio da tarde é bem provável que José António Tenente já tenha igualado, senão mesmo suplantado, o número de disparos do fotógrafo da UP. Um azulejo com um padrão colorido e clique! Uma fachada original e novo disparo. À medida que o criador enquadra imagens, Custódia ironiza:  “Cá para mim na próxima colecção vão aparecer uns padrões novos inspirados nesta viagem!”.

Talvez tenha razão. “A inspiração pode vir dos mais variados estímulos, seja uma música, um livro, uma época histórica ou, claro, uma viagem”, explica o estilista enquanto se prepara para disparar mais um flash nas ruelas da cidade. Antes de esquadrinharmos os cantos ao Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, decidimos fazer, novamente, o gosto ao dente, desta vez na Alcôa, pastelaria  fundada em 1957, mestrada no receituário da doçaria conventual e quase tão famosa quanto o mosteiro que lhe enfeita a fachada. Fradinhos e cornucópias são, por decisão unânime, as segundas maravilhas da jornada.

A terceira das maravilhas alcobacenses é agora alvo de toda a nossa atenção. Estamos na “primeira obra plenamente gótica erigida em solo português”. Quem o diz é Elisabete Jorge, a cicerone, à medida que nos conduz pela nave da igreja do Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, erguido em 1178 pelos monges de Cister – arautos do rigor litúrgico e da renúncia do prazer para quem o trabalho era valor fundamental, como comprova o legado técnico, artístico e arquitectónico deixado pela ordem religiosa.

Vamos dos claustros à sacristia, passando pela capela das relíquias, pela sala do capítulo, pelo refeitório e pela cozinha, que é, de resto, a área predilecta de José António Tenente. A organização espácio-funcional do retiro religioso rivaliza com qualquer casa IKEA. Tudo foi pensado com um rigor fora de série numa época em que design e funcionalidade eram conceitos desconhecidos.

Mas não são apenas o primor arquitectónico e o valor histórico deste lugar que atraem hordas de visitantes. É aqui que jazem os restos mortais da mais dramática história de amor portuguesa: a de Pedro e Inês, relato do amor proibido entre o príncipe D. Pedro I, futuro rei de Portugal, e Inês de Castro, a aia galega da sua primeira mulher. O repudio da corte por este amor mal visto conduziu o par a um fim trágico; Inês seria assassinada a mando do rei Afonso IV, pai de Pedro. Desfeito, o amante tratou de fazer justiça depois de subir ao trono – o monarca haveria de ser cognominado “o Justiceiro” – e mandou executar os assassinos da amada. Cumprida a vingança, ordenou a translação do seu corpo para um túmulo esculpido, que mandou colocar no Mosteiro de Alcobaça. Mais tarde, D. Pedro I mandou talhar outro túmulo semelhante colocando-o em frente ao de Inês para acolher os seus próprios restos mortais. Quanto disto é verdadeiro e quanto é lenda não se sabe ao certo. Sabido é que os túmulos do Romeu e Julieta de Portugal são de uma delicadeza escultórica inigualável, fruto do trabalho minucioso de um autor desconhecido. Não fora as invasões francesas e os impressionantes detalhes da pedra rendilhada estariam ainda mais vívidos. Isto porque, quando as tropas de Napoleão Bonaparte invadiram Alcobaça, saquearam o mosteiro e, por conseguinte, os túmulos.

Vida airada
O nosso retiro por dois dias é o Challet Fonte Nova, turismo de habitação erigido em terrenos que outrora fizeram parte dos jardins do Mosteiro. O serviço atento, o cuidado nos detalhes e o ambiente clássico condizem com a aura alcobacense. Encanto número quatro.

Se Custódia Gallego não tivesse tanta facilidade em desprender-se dos muitos papeis que já interpretou, a sessão de spa que ela e José António estão prestes a receber no challet, seria um bem essencial para Valdete, personagem de Vulcão, primeiro monólogo da carreira da actriz. E é sobre trabalho que continuamos a falar ao jantar, no restaurante António Padeiro, onde não faltam apetrechos forrados com a chita de Alcobaça, tecido que ficou de fora na colecção Primavera/Verão 2010 de Tenente, inspirada nos anos 80. “Tenho ganas de fazer mais cinema”, desabafa Custódia, “ultimamente tenho feito várias curtas metragens de alunos das escolas de cinema, onde vou reconhecendo jovens promissores”. Esquece Tudo o que te Disse, filme consagrado de António Ferreira, é um bom exemplo dos seus múltiplos talentos no grande ecrã.

Mas eis que a conversa é interrompida por uma tábua de amuse-bouche sortidos, que vão do queijo aos enchidos sem esquecer as azeitonas e patés. Seguem-se uma açorda de bivalves com camarão tigre e croquetes de alheira de caça com arroz de tomate. E claro, sopa dourada para rematar. Os comensais pontuam com nota máxima e assim fica decidida a quinta atracção de Alcobaça. A sexta maravilha também se inscreve no rol de comes e bebes. De regresso ao hotel saboreamos a afamada ginja local produzida artesanalmente segundo a receita ancestral dos monges cistercienses.

Na manhã do dia seguinte, Custódia comunica por SMS: “Espero num banco de jardim frente ao sol. Ouvem-se os pássaros”. Assim nos despedimos de Alcobaça rumo a outras paragens com a canção que popularizou a cidade em loop na memória: “Sua lembrança não passa / Porque não pode passar. / Por mais que tente e que faça, / Quem passa por Alcobaça / Tem de por força voltar”.

Depois das verdadeiras orgias gastronómicas a que sujeitámos os nossos convidados, nada melhor do que um pouco de desporto para desenferrujar as pernas. Para dois estreantes, os putts de Custódia Gallego e José António Tenente estão muito bem. Encontramo-nos no campo de golfe Golden Eagle, em Rio Maior, e o director do campo António Maia, “golfista até às 15h30 e cartoonista a partir daí”, leva-nos num passeio de buggy pelos fairways viçosos.

Antes de pormos um ponto final nesta romaria, fazemos ainda uma breve incursão à fábrica de Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, nas Caldas da Rainha. Abastecidos da melhor cerâmica do Oeste, saboreamos uma castanha de ovos à sombra dos velhinhos plátanos do parque da cidade. A sétima das maravilhas desta viagem. E agora sim: ponto final.

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por Maria Ana Ventura

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