Albano Jerónimo – O ator felizmente imperfeito

on May 1, 2020 in Embarque Imediato | No Comments

Albano Jerónimo destacou-se no último Festival de Veneza como protagonista em A Herdade. Há muito que se vem afirmando no teatro, no cinema e na televisão. Em setembro, chega à Netflix. Quem é este homem em construção permanente?

Foi assim desde o primeiro minuto: Albano Jerónimo sempre se distinguiu dos demais. Ou porque pesava seis quilos quando nasceu, ou porque tinha um nome que mais nenhuma criança tinha, ou porque o seu tamanho o impedia de correr tão rápido como os outros na escola. Aos 40 anos continua a diferenciar-se, mas, como na história infantil, o patinho feio deu lugar a um belo cisne. Tornou-se num dos mais conhecidos e admirados atores portugueses, seja em teatro, televisão ou cinema.

A partir de setembro vamos vê-lo como co-protagonista de uma nova série inglesa da Netflix, The One, inspirada na obra de ficção científica de John Marrs. O ator será Matheus, num futuro em que um teste de ADN consegue criar correspondências entre pessoas e encontrar o parceiro perfeito. Por estes dias é outro o personagem que o ocupa, na rodagem de The Nothingness Club, a próxima longa-metragem do realizador Edgar Pêra, criada a partir da obra de Fernando Pessoa e onde interpreta um dos heterónimos do escritor, Álvaro de Campos.

Recentemente encheu o grande ecrã em A Herdade, de Tiago Guedes, filme que recebeu o Prémio Bisato d’Oro para Melhor Realização, atribuído pelo júri da crítica no Festival de Cinema de Veneza. A interpretação de João, um latifundiário da região portuguesa Ribatejo, valeu-lhe enormes elogios. “Fui criado naquela zona, por isso, regressei às minhas raízes. Brinquei nas lezírias, com as vacas e os cavalos, ia tomar banho ao rio Tejo com os pescadores…”, conta. “Filmar A Herdade foi uma viagem, voltei ao que era, ao lugar de onde venho. Aquelas paisagens e aqueles cheiros são recordações muito fortes, coisas que tinha no corpo e nem sabia. Este filme, sobre uma família que tem de se reconstruir, leva-me para o meio escasso em que cresci e onde fui habituado a lutar por aquilo que desejava e em que acreditava.”

Não foi uma opção óbvia, ser ator. Irmão mais novo de três, numa família ligada à agricultura e ao gado, filho de um talhante e de uma funcionária da TAP, Albano cresceu longe de qualquer ambiente artístico. Quando olha para trás, brinca com o facto de ter sido acólito na igreja como um dos primeiros passos para enfrentar uma plateia – mas foi aos 15 anos que uns amigos o “arrastaram” para um grupo de teatro amador, Os Esteiros, que havia de lhe mudar a vida.

 

Pessoas que despenteiam

“Ainda hoje me move aquilo que descobri quando comecei a representar: uma paixão imensa pela palavra. Ela é nova de cada vez que a digo, desestabilizadora de cada vez que a ponho no corpo.” Por causa dela deixou para trás o basquetebol, que jogou na adolescência, e o curso de Fisioterapia, que ainda frequentou. Quando, sem dizer nada a ninguém, concorreu ao curso de Teatro do Conservatório de Lisboa, foi o primeiro a ser colocado.

Para recordar a sua estreia profissional, recua agora 18 anos – toda uma maioridade: na peça A Floresta, de David Mamet, encenado por Luís Fonseca na Casa Conveniente, interpretava Nick, ao lado da atriz Mónica Garnel. Testemunhas desse primeiro passo como ator são umas botas que ainda hoje conserva. “Por vezes, guardo os sapatos que uso nos trabalhos, acredito que os pés não mentem, por mais que se possa ser falso ou cabotino. Mostram como estava, como andava, que tensões tinha.” Do teatro para a televisão e para o cinema foi um instante. Tem seguido sobretudo quem que o inspira. “Fui encontrando pessoas que me foram ensinando coisas, me foram encaminhando e me foram empurrando para sítios próximos de mim. São elas que me estimulam e me enriquecem. É fundamental termos pessoas à nossa volta que nos despenteiem.” A participação recente na série Sara, realizada por Marcos Martins, foi um desses exemplos em que tudo se conjugou. “Sentia que não estava a trabalhar, mas a divertir-me. Tem uma ironia e um humor negro que nos dá um recuo sobre o que fazemos. Esse raciocínio possibilita-nos outro espaço enquanto espectadores. A Herdade também é assim.” O filme de Guedes voltou a despertar nele a paixão pelo cinema. “Foi um verdadeiro banquete. O cinema fascina-me por ser das poucas plataformas que pode imortalizar um ator. Fixa pessoas naquele momento, naquelas circunstâncias, naquelas dificuldades.”

No entanto, por mais voltas que dê, é ao teatro que acaba por ir parar. “Tem-me salvo a vida”, confessa, “sempre me acalmou imenso fazer teatro. Aprendo mais ali, absorvo mais coisas, consigo educar-me de outra forma. Tem uma qualidade de comunicação que o cinema e a TV não têm. O corpo fala de outra forma, a voz vive de outra forma.”

 

Caminho sem fim

Quem conhece Albano Jerónimo e o vê em palco pode pensar que não é o mesmo. Simpático e afável, interpreta, muitas vezes, papéis que são o exato oposto disso – figuras negras, psicopatas, atormentadas, viscerais. Tem sido esse o universo dos textos trabalhados pela companhia que fundou há dez anos com um grupo de outros criadores, a Teatro Nacional 21, e de tantos personagens que tem aceite fazer. “Tenho um otimismo cético, digamos. Atraem-me os autores mais densos, pesados e com dores incríveis porque a realidade é assim, basta abrir um jornal, o mundo está nessa vibração. Tento criar naquilo que temos e aquilo que temos não é muito promissor… Isso leva para ambientes grotescos, ruidosos, sujos, primários. Mas também acredito no ser humano, talvez por isso ainda continue a escolher esses textos.”

Existe uma urgência em Albano, quando fala do que faz. Seria impossível não o imaginar em cima de um palco ou num ecrã. Viciado confesso em trabalho, admite que ter sido pai há sete anos contribuiu ainda mais para essa vontade inesgotável de fazer sempre mais e melhor. Trabalhei para o que fui conseguindo. Tenho feito tudo numa espécie de mergulhos de fé, momentos de decisão em que abraço o que tenho pela frente. A minha educação tem a ver com isso: agarrar-me ao que tenho. Perdi o meu pai aos dez anos e isso levou-me a desacreditar e a ter uma maior necessidade de me conhecer. Um dos meus irmãos dizia-me: ‘Se tens dúvidas, informa-te, lê’.” Albano assim fez. Foi aumentando os seus conhecimentos do mundo e aquilo a que chama o seu “alfabeto”, que lhe permite comunicar cada vez mais e melhor.

Para o ator, o trabalho, tal como a vida, é um processo. “Sinto-me numa caminhada permanente, que me dá a possibilidade de me reinventar. Gosto de me dar ao luxo de recomeçar. As personagens que interpreto operam uma metamorfose no meu corpo. E o meu corpo será sempre incompleto e imperfeito. Representar acaba por ser existir nessa imperfeição. O meu trabalho assenta sobre a imperfeição. Gosto de rugas, falhas, coisas inacabadas. Interessa-me ir tentando. O caminho e o esforço para chegar a algum lado são o que me fica no corpo.” Por isso, dispensa perfeições – logo ele, com o nariz torto e um metro e 90 de altura. “O que nos diferencia é aquilo em que somos imperfeitos.”

fb.com/albanojeronimoofficial \\\ teatronacional21.pt

 

por Gabriela Lourenço /// foto Nuno Beja

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