Afonso Reis Cabral – O escritor e os instintos

on Feb 1, 2019 in Embarque Imediato | No Comments

Afonso Reis Cabral foi o mais jovem autor a vencer o Prémio LeYa, um dos mais importantes em Portugal. As traduções em Espanha e Itália estão a chegar. E o seu mais recente romance é igualmente espantoso.

Houve aquele dia em que Afonso, sentado no banco traseiro do carro da família, torturou os pais com as suas dúvidas de adolescente em relação ao futuro. Pesavam na mesma balança duas possibilidades: poeta ou escritor? “Aquilo angustiava-me de verdade [risos] e os meus pais, com alguma paciência e boa vontade, explicavam que ser poeta é assim, ser escritor é assado.” Para quem escrevia poesia desde os nove anos (nasceu em 1990), fazia sentido que aos 12 começasse a traçar caminhos, tal como fez sentido que aos 15 publicasse o seu primeiro livro, Condensação, de poesia, e poucos anos depois fosse o mais jovem autor a ganhar o Prémio LeYa com o romance O Meu Irmão. Se o mundo literário se alvoroçou com os 24 anos de Afonso, a este surpreendeu o espanto. “Como já escrevia desde os nove, aquilo era, e é, a minha vida, não era novidade. Talvez um pouco por imaturidade fiquei surpreendido [com a estranheza dos outros].”

O tempo encarregar-se-ia de lhe responder às dúvidas. “Depois do livro de poesia comecei a escrever contos, coisas pequenas.” Publicou um conto no extinto jornal O Primeiro de Janeiro, “mas sempre com a ideia de escrever um romance”. Tinha 21 anos, um mestrado a meio, um emprego em part-time e uma bolsa de investigação quando começou a escrever O Meu Irmão. “De – morou bastante tempo por causa disso.” Em maio de 2014 concorreu ao LeYa, atribuído pela holding editorial homónima, uma das maiores em Portugal (com presença no Brasil, Angola e Moçambique), e seis meses depois o seu mundo deu uma volta, até cair no lado certo.

Trineto de Eça de Queirós, Afonso recusa que a vocação para a escrita lhe esteja impressa no ADN, mas assume que “do ponto de vista familiar é um dado a ter em conta”. “Pessoal e intimamente é algo de que me orgulho, embora não tenha qualquer responsabilidade por isso.” Até porque, “mais determinantes do que a vocação ou eventual talento, é o trabalho a sério. Escrever, reescrever, conceptualizar. É mais do que uma coisa que nasce de geração espontânea”.

 

A Humanidade

Nos seus livros há a história, mas também, e sobretudo, tudo o que esta esconde, o que se pode escrever nas entrelinhas ou o que se escreve para lá das aparências. “O que interessa é a humanidade por detrás das circunstâncias”, diz, num tom de voz em que raramente se ouve ainda o sotaque do Porto, cidade onde cresceu. “Gosto que os livros, que supostamente são sobre outra coisa, afinal não sejam.” É por isso que O Meu Irmão parece ser sobre uma deficiência, mas é “muito mais sobre a inveja que o narrador tem em relação ao irmão, por, paradoxalmente, o irmão [que nasceu com síndrome de Down] já ter a vida feita, ser tratado, acolhido”. Acontece o mesmo com Pão de Açúcar, o mais recente romance. A trágica história verídica de Gisberta, uma transsexual, é quase um pretexto para escrever sobre a transformação que se dá no grupo de 13 menores (no livro reduzidos a seis personagens) desde o momento em que a conhecem até a agredirem e assassinarem. “Embora seja um caso real, é muito mais sobre o que leva a isso, sobre a reação dos rapazes, que eu conjeturo e transformo em ficção.”

Também o atrai o desafio de “conseguir entrar em realidades” que não são as suas, como aconteceu neste segundo livro. É difícil ler Pão de Açúcar e não ceder à tentação de perguntar ao escritor, que temos à nossa frente, o que é que naquelas páginas é realidade, o que é ficção. Mas seria como perguntar a um mágico como faz um truque. “Depois estraga-se o encanto do livro, estraga-se a magia”, reconhece Afonso.

Encontrei Afonso num dos poucos momentos que a promoção de Pão de Açúcar lhe deixou livre nos últimos meses de 2018. Ele repousa as mãos sobre a mesa, no meio destas uma chávena de café vazia. Veste um casaco de cabedal castanho sobre uma camisola de lã verde. Quatro anos depois de termos dito e ouvido “É tão novo”, mantém o ar de rapaz, a melena de cabelo castanho que teima em cair sobre os olhos pequenos, e uma certa candura na voz, que não deixa antever os demónios que povoam o mundo dos seus livros.

Há quatro anos o júri do Prémio LeYa escolheu O Meu Irmão de entre 361 originais de autores de 14 países, elogiando-lhe a forma “objetiva” e a “violência” como trabalhou a realidade e o modo como o escritor obriga quem o lê a investir “numa leitura que nos confronta com a dificuldade de um mundo impiedoso”. E este mundo cruel e implacável acentua-se em Pão de Açúcar, onde a doçura do título – que é também o nome do edifício onde morreu Gisberta – se opõe ao horror do caso. Em 2006 Afonso tinha a mesma idade que a maior parte dos adolescentes que agrediram a transsexual brasileira, uma sem-abrigo que se havia refugiado num edifício de construção embargada. “O livro parte desse espanto, da idade deles, de haver um grupo de três rapazes que ajuda a Gisberta e passado semanas estão matá-la. Isso im – pressiona mais do que a transfobia, que evidentemente lá está, mas é outra coisa.” Afonso tem uma memória vaga desses dias de 2006, das notícias que fizeram o cabeçalho de jornais, mas nunca antes se tinha debruçado seriamente sobre o assunto, até que, ao ler uma notícia sobre os dez anos que passaram desde a morte de Gisberta, pensou, “quase instintivamente, isto tem que ser um romance”.

 

A inspiração trabalha-se

Encontrámo-nos num café de bairro, onde a gentrificação ainda não entrou, velhas cadeiras, velhas mesas, velhos clientes, um relógio de pêndulo e uma televisão sem som. Era em cafés como este que Afonso escrevia, mas também em bibliotecas ou em casa sozinho, antes de começar a partilhar, com alguns amigos, um apartamento convertido em escritório ali para os lados do Beato, na parte oriental de Lisboa. Aconteceu no início de 2018, quando decidiu abandonar a segurança de um emprego como editor e dedicar-se inteiramente à escrita. Foi por isso que escreveu Pão de Açúcar de uma assentada, abraçando uma vida de pura “rotina, daquela rotina mais chata”. Senta-se em frente ao computador pelas nove da manhã e, exceto a pausa para almoço, mantém-se defronte ao ecrã até ao cair da tarde. “Não há qualquer glamour. É trabalho de rotina, mas para mim, isso é importante, porque ajuda à criatividade. Aquela coisa de estar a apanhar a criatividade do ar para mim não resulta. Como a sorte, a criatividade e a inspiração também se fazem.” Há dias melhores, outros piores e nos dias em que não corre bem e a página continua em branco, Afonso volta atrás, arruma, revê. No caso de Pão de Açúcar foram precisos sete meses, a escrever oito horas por dia. “Se em todas essas horas houvesse sempre inspiração teria escrito num mês ou dois.”

Afonso é lisboeta no cartão de cidadão, mas foi no Porto que cresceu e estudou, até regressar a Lisboa para se licenciar em Estudos Portugueses, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas na Universidade Nova. Tinha 18 anos quando começou a fazer revisões, porque era “importante trabalhar e estudar ao mesmo tempo e conseguir ir pagando contas”, mas também porque esta poderia ser a porta de entrada no mundo da edição e dos livros, aquele que mais se adequava à sua licenciatura. Mais tarde foi editor na Presença, de onde saiu para se dedicar à escrita. Continua a trabalhar como editor em regime de freelancer para a Imprensa Nacional-Casa da Moeda e como consultor editorial da Gradiva.

Na cabeça já há tema para o próximo livro: uma viagem de camião TIR que fez à Alemanha, à boleia, quando ainda era adolescente, e que repetiu aos 25 anos, já a pensar que ali poderia haver uma história. Mas, como aconteceu nos dois primeiros livros, a viagem é apenas um pretexto: “Preciso de uma história mais estruturada dentro disso, porque o interesse não é a viagem em si. Será outra coisa qualquer, isso é que ainda não encontrei”.

Afonso, 28 anos, resistiu à prova de fogo da publicação do segundo livro, e espera agora para “ver quantos livros a vida” lhe trará.

leya.com

 

por Hermínia Saraiva /// foto Egídio Santos

Arquivos

Por aí

Pão de Açúcar é o mais recente romance de Afonso Reis Cabral. O primeiro, O Meu Irmão, está traduzido para italiano na editora Nutrimenti, e prepara-se a edição em espanhol. Siga o autor: bit.do/reiscabral.

web design & development 262media.com

A UP Magazine colocou cookies no seu computador para ajudar a melhorar este site. Pode alterar as suas definições de cookies a qualquer altura. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização.