A vertigem de prever

on Oct 1, 2019 in Bagagem de Mão | No Comments

Da astrologia à economia liberal.

Prever ou adivinhar os acontecimentos futuros foi o dom de que desde sempre se vangloriaram aqueles que, supostamente bafejados por sopro divino, conseguiram a pulso ocupar posições de poder ou de autoridade. Truques que se tornaram clássicos eram usados para impossibilitar a verificação de que os factos profetizados aconteciam – desde a escuridão e os múltiplos sentidos da resposta dos oráculos até ao horizonte temporal das pretensas previsões, por norma muito para além da vida dos presentes.

Mas a habilidade dos seres humanos é imensa, sobretudo se aplicada a artes e técnicas inerentes à esfera da comunicação. Há quem tenha o dom, isso sim, de sossegar e confortar as angústias e as incertezas dos semelhantes com uma palavra oportuna. A habilidade está em saber detetar um caso “maduro” de desassossego e aflição, em que o espírito crítico pareça envergonhado, e em saber exercer então o papel de “intermediário” do Além.

A astrologia teve uma enorme influência nos finais da época medieval, gozando de uma proximidade e influência notáveis junto dos poderosos e dos afortunados nos casos que criavam maior ansiedade e incerteza. Que consistiam sobretudo no controlo da riqueza através de estruturas familiares e da sucessão dinástica. Mas os astrólogos estavam bem equipados tecnicamente: a astrologia era então altamente matematizada e baseava-se em muitos séculos de observações empíricas sobre o estado dos céus. Só que o mundo não funcionava assim… a Terra move-se!

A teoria e a prática dos economistas neoliberais envolve conhecimentos e competências bem estabelecidas, conforme salientam os autores do livro Does Capitalism Have a Future? (Immanuel Wallerstein e outros, Oxford University Press, 2013). Encontra-se altamente matematizada e baseia-se num historial detalhado das realidades da vida económica e política dos países ocidentais nos últimos 200 anos. Mas, tal como no passado, também este nosso modo de vida capitalista é palco de grandes angústias que se ligam a decisões de investimento muito arriscadas, à volatilidade dos mercados financeiros, à separação entre a economia real e a finança. É preciso pois quem conforte as almas dos grandes investidores, quem descortine as novas (ou velhas) grandes oportunidades de negócio.

É o que fazem os consultores económicos e financeiros dos governos, dos grandes grupos e das organizações internacionais. A teoria económica neoliberal rodeia as suas conjeturas de mais equações, usa algoritmos e bases de dados mais poderosos, tornando a sua linguagem incompreensível, mesmo para os próprios, como se de um impenetrável mistério se tratasse. Mas pagam-se a peso de ouro, como novos intermediários do Além, esse eldorado onde a alta finança reinará e todas as comunidades no nosso planeta se lhe submeterão. Só que o mundo não funciona assim… a cultura é o único motor da esperança no futuro. Ao separar a cultura da economia, relegando-a para o poço das inutilidades, iniciaram a sua própria sepultura. A vida não é uma equação, nem um programa, muito menos uma simulação.

 

por João Caraça

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