Pedro Ayres de Magalhães – A poesia sem fronteiras

em Aug 1, 2012 in Talento em Português | No Comments

Há 25 anos que os Madredeus cantam em português por todo o mundo. Uma música muito própria. Um tanto folk, um tanto erudita. Uma identidade única forjada em torno de Pedro Ayres de Magalhães.

 

 

Vinte e cinco anos depois do primeiro disco e dos primeiros concertos, Pedro Ayres de Magalhães, o fundador do grupo, tem razões para estar satisfeito. “O mais importante foi nunca termos repousado sobre os louros. Podemos fazer uma coisa longa ou episódica. No meu caso, quis sempre fazer um projeto a longo prazo, um grupo português que chegasse ao mundo inteiro… Mesmo antes dos Madredeus já achava que isso era possível.” Quando, no final de 1987, deram os primeiros concertos – um no Porto e outro em Lisboa – já tinham mais de dois anos de trabalho em conjunto. “O Madredeus foi sempre um projeto que precisou de tempo, de planeamento, de discussão. Só assim conseguimos sempre ter um som original, fazer bons discos, e espetáculos ainda melhores do que os discos.”

Ao longo desse quarto de século os membros do grupo foram mudando. Só Pedro Ayres de Magalhães ficou. Ele, e a música dos Madredeus. Uma sonoridade tão própria que se identifica imediatamente. E, apesar de cantarem em português, isso nunca foi um obstáculo para ultrapassarem fronteiras e serem ouvidos da Ásia às Américas. “Reconheço que a nossa música é sempre um pouco estranha para quem a ouve pela primeira vez. Não é fado. Não é folk. Parece um recital de poesia… Leva algum tempo até as pessoas entrarem, mesmo em Portugal. Mas esse é um tempo que se partilha com a audiência e há um momento em que o público está a perceber tudo… e se emociona com a interpretação musical.”

Compositor e poeta, Pedro define-se como autor: “Acho que sou mais um autor do que um artista”. Durante anos, passou mais tempo em quartos de hotel e em aviões do que em casa e, ainda assim, nunca deixou de escrever e de compor. “Mesmo em viagem estávamos sempre a tocar, sempre a ensaiar e a inspiração surgia nessas alturas. Por isso, nunca fez muita diferença estar em casa, em Lisboa, ou num quarto de hotel em Tóquio ou em Buenos Aires. Não há nada mais inspirador do que estar a tocar, porque isso nos dá novas ideias. A guitarra está sempre comigo, esteja onde estiver, e muitas vezes entretenho-me a escrever músicas novas.”

 

O encanto do palco

“Os concertos são o meu descanso”, garante. Estar em cima do palco com a sua guitarra clássica é sempre um prazer. “É um banho de energia! Por isso, tivemos sempre muito cuidado com os sítios onde nos apresentamos.” E têm tocado nas melhores e mais bonitas salas de espetáculos do mundo. É preciso silêncio para os ouvir. Silêncio e tempo. Para estar duas horas num concerto. Nunca têm multidões à sua espera. “Tocamos em salas com dois ou três mil lugares. Esse é o nosso ambiente ideal. E é raríssimo irmos a festivais, porque também não é o espírito da nossa música… há sempre outros barulhos, outros ruídos”, reconhece Pedro.

Editar um disco por ano não faz parte das suas preocupações. Em vinte e cinco anos como líder – Pedro não gosta do título, prefere que lhe chamem fundador do grupo – fez cinco tournées mundiais, todas muito demoradas, que se estenderam por dois ou três anos. “É o contrário do showbiz. Nunca voltamos à mesma cidade com o mesmo reportório. Cada tournée é diferente das anteriores. Com outras músicas”, diz.

Saíram de Portugal logo com o primeiro espetáculo para irem tocar a Itália e nunca mais pararam. “Era um caso sério! Éramos todos muito novos, eu era o mais velho do grupo e, de repente, tínhamos uma agenda muito profissional que nos dizia que daí a um ano estaríamos a tocar na Bulgária ou na Colômbia…” Durante anos, Pedro Ayres de Magalhães passou mais tempo a viajar com o Madredeus do que em casa. “Não via os meus amigos, não estava com a família, mal parava em casa… Foi muito duro mas muito bom. Afinal, estava a fazer o que queria, aquilo de que mais gostava”, reconhece. O ritmo de concertos aumentou depois de terem feito a banda sonora do filme Lisbon Story, de Wim Wenders, em 1994. “Deve ter sido o filme sobre Lisboa mais visto em todo o mundo e é claro que isso nos deu uma enorme visibilidade.”

Dez anos depois dos primeiros concertos, alguns dos membros do grupo saíram. “Nunca por desentendimentos. Mas porque queriam fazer coisas diferentes. Queriam ter carreiras a solo, casar, passar mais tempo em Portugal… mas nunca saiu ninguém em rotura com os outros. Aliás, hoje, olhando para trás, percebo que nunca houve nada de grave entre os membros do Madredeus. As raras vezes em que discordámos foi sempre por coisas sem grande importância e que se resolveram.” O primeiro a abandonar o projeto foi Rodrigo Leão. Depois, saíram Francisco Ribeiro e Gabriel Gomes. Nos dez anos seguintes o grupo tem uma nova formação, com a entrada de Carlos Maria Trindade, José Peixoto e Fernando Júdice. Do núcleo original ficam apenas Pedro Ayres de Magalhães, na guitarra, e a vocalista Teresa Salgueiro.

 

A nova voz

Em 2006, José Peixoto, Fernando Júdice e Teresa Salgueiro saem do grupo para novos projetos. “Ainda havia muita coisa para fazer nos Madredeus, não havia razão nenhuma para acabar um grupo que ainda tinha tanto caminho pela frente”, garante Pedro. É nesse interregno que funda com Carlos Maria Trindade a Banda Cósmica: “Era um projeto com dez músicos, cinco cantoras e que incluía músicos brasileiros e africanos”. Editaram três discos e deram centenas de concertos. Pelo meio, Pedro Ayres de Magalhães ainda tem tempo para ser um dos grandes impulsionadores do Resistência, projeto em que se junta a Tim, dos Xutos & Pontapés, Olavo Bilac, dos Santos & Pecadores, e Miguel Ângelo, dos Delfins. Mas nunca parou de escrever e de compor músicas de um reportório que é único e se chama Madredeus. “Quando a Teresa saiu não pensámos em substituí-la imediatamente, pensámos, sim, em procurar vozes”, explica. Foi um processo demorado que só ficaria decidido em 2011 com o aparecimento de Beatriz Nunes. “A Beatriz apesar de ser muito nova, já fez o curso de canto clássico, está a estudar jazz e era disso que o Madredeus precisava agora”, explica. Para celebrar 25 anos de existência, o grupo tem disco novo e nova tournée. Chamaram-lhe Essência. São doze canções das várias turnés anteriores, com arranjos novos e um espetáculo diferente. Do Madredeus fazem também parte Jorge Varrecoso, António Figueiredo e Luís Clode.

Pedro Ayres de Magalhães sabe que o seu público tem, maioritariamente, entre 40 e 50 anos. Que vai ao concerto e, muitas vezes, leva os filhos. Sabe, porque lhe dizem. Em cima do palco olha para a plateia no seu todo. “Não consigo olhar para alguém em particular ou ficar a ver quem são as pessoas que estão sentadas à minha frente. Isso desconcentra-me!” Vinte e cinco anos depois do primeiro concerto, a 20 de novembro de 1987, no Auditório Carlos Alberto, no Porto, Pedro Ayres de Magalhães e o Madredeus andam outra vez um pouco por todo o mundo, com concertos marcados até ao fim de 2013.

 

por Maria João Vieira

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Os discos

A música dos Madredeus foi editada em 40 países. Têm discos à venda em locais tão diferentes como Estados Unidos, Canadá, Irlanda, Reino Unido, Arábia, Áustria, Bélgica, República Checa, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Holanda, Hungria, Itália, Noruega, Polónia, Portugal, África do Sul, Espanha, Suécia, Suíça, Turquia, Japão, Nova Zelândia, Hong-Kong, Indonésia, Malásia, Singapura, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Índia, Argentina, Brasil, Chile Colômbia e México.

Concertos em 2012

Em 2012 deram três concertos em Portugal – no Porto, Lisboa e Caldas da Rainha. Já tocaram em Londres, Istambul, Hungria, Eslovénia e França. A partir de agora, para os ver e ouvir, só em algumas salas da Europa:

Outubro

9 – Konzerthaus – Viena, Áustria
10 – Philaharmonie – Luxemburgo, Luxemburgo
14 – Glocke – Bremen, Alemanha
16 - Haus der Kulturen der Welt, Berlim, Alemanha
18 – Fabrik – Hamburgo, Alemanha
20 – Philharmonie – Colónia, Alemanha
27 - Konzerthaus Dortmund – Dortmund, Alemanha
30 - AVO Sessions – Basileia, Suíça

Novembro

1 – Prinzregententheater – Munique, Alemanha

Dezembro

3 – Capitole – Gent, Bélgica
4 - Stadsschouwburg – Antuérpia, Bélgica

Outras músicas

A carreira musical de Pedro Ayres de Magalhães começou em 1976, como baixista do grupo Faísca, considerado o primeiro grupo punk português. Segue-se o grupo Corpo Diplomático e, depois, no início da década de 80, o Heróis do Mar, um grupo pop-rock fundado com alguns dos músicos com quem trabalhara no Corpo Diplomático, que já na altura era diferente de tudo o que até então existira em Portugal. No Madredeus toca, desde sempre, guitarra clássica.

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