A nova Dama de Xangai
Numa altura em que se abrem as portas da Expo 2010 de Xangai, a cosmopolita cidade chinesa mostra porque exerce um fascínio especial em todos os que se cruzam com ela.
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Alguém que frequentemente viaja até à China disse-me um dia que, naquele país, as cidades crescem a uma velocidade vertiginosa, sempre sob a mesma batuta: a modernização da malha urbana, e por consequência dos seus hábitos culturais, aliada a uma estranha apetência pela substituição do que é antigo pelo novo. “Vai o mais depressa possível se queres ver a velha China!”. A perspectiva de não conseguir encontrar num futuro próximo a arquitectura típica da era imperial, com as suas ruelas ladeadas de casas tradicionais, começou a tornar-se demasiado inquietante. Por isso, tive que apanhar o avião.
À primeira vista, Xangai é uma gigantesca metrópole rasgada por grandes avenidas, onde se cruzam, aos milhares, as massas do império amarelo. O modernismo das construções, o reflexo das nuvens nos grandes edifícios espelhados, o tráfego intenso a circular ordeiro pelos muitos viadutos e os ecrãs gigantes onde se mostram os últimos gadgets ou conquistas desportivas são o cartão de visita de Xangai.
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Foi pois num ambiente que já de si respirava ritmo e mudança que descobri uma cidade onde era notória a labuta intensa da construção civil, prolongando-se noite fora apesar dos meses que ainda faltavam para a abertura da Exposição Universal. Para os seus cidadãos, talvez se tratasse apenas de mais uma fase de desenvolvimento da urbe que há cerca de 25 anos era pouco mais do que um porto industrial sombrio. Hoje, Xangai é uma cidade imensa, iluminada e audaz, com mais de 20 milhões de habitantes e quatro mil arranha-céus.
Como em todas as metrópoles que nos ofuscam num primeiro instante, foi percorrendo as ruas que encontrei as suas peculiaridades e aquilo que melhor a caracteriza. Uma megacidade que em simultâneo é uma aldeia. Uma terra de contrastes, entre o Oriente e o Ocidente, entre o antigo e o moderno, entre o sofisticado e o artesanal. Em poucos locais será possível sair de uma tranquila casa de chá milenar e apanhar o Meglev, comboio magnético que nos transporta a 400 km por hora.
Cedo percebi portanto que o cartão de visita inicial de Xangai tinha um lado oculto. E não admira que, ao recordar a cidade, seja de imediato assaltada pela imagem de uma ruela com casas tingidas pelo passar do tempo, onde dois amigos jogavam gamão sentados em sofás queimados pelo sol, com um arranha-céus como pano de fundo.
Todas as surpresas
Conhecer Xangai é surpreendermo-nos a cada esquina. A cidade é atravessada, de oeste a leste, por uma avenida que é a espinha dorsal da malha urbana. Nanjing Lu, a maior rua comercial da China há mais de 100 anos, continua a ser destino inevitável para quem seja atraído pela mistura de marcas internacionais e lojas especializadas em artigos tão diversos como relógios, sedas, pedras preciosas ou material electrónico. Por ser parcialmente pedestre, Nanjing Lu tem movimento constante. Dia e noite. Evitei perder-me com as compras – missão quase impossível – e preferi aventurar-me pelas magnéticas ruas transversais com o seu comércio tradicional, óptima comida de rua e recorrentes vislumbres do submundo da contrafacção.
A meio da avenida encontra-se a People’s Square, um parque denso no coração da cidade em torno do qual se encontram as principais instituições políticas e culturais do país. É também aqui que se encontra o fenómeno mais recente da revolução cultural chinesa, o imperdível Museu de Arte Contemporânea de Xangai (MoCA), primeira instituição independente dedicada à arte contemporânea na imensa China.
Sigo para sul, até à French Concession, bairro que me fora aconselhado como boa zona para ficar. Facilmente se percebe porquê. Na vizinhança que resistiu a crescer em altura, as ruas são frescas e ladeadas por árvores, ficando longe do ritmo frenético das grandes avenidas, o que atraiu a massa criativa da cidade. Perco-me depois em Taikang Road, antigo bairro fabril com mística especial. Por entre um emaranhado de travessas com fachadas de tijolo encontram-se cerca de 200 lojas, cafés e galerias que juntam pessoas de 20 nacionalidades diferentes e os tradicionais habitantes locais. A vivência da população residente dá um toque de realismo a este quase SoHo, onde cenários tipicamente populares coabitam com as últimas criações de estilistas, pintores, fotógrafos ou designers.
Artistas e grilos
Tempo para uma pausa! No número 118 da Rui Jin Road, procuro o Face, etiquetado como o bar mais charmoso de Xangai. O ambiente, decoração, cores e odores reflectem a interculturalidade dos seus frequentadores, cujo quotidiano se divide entre o comércio internacional e o gosto pelo design. O bar ocupa uma antiga Villa construída em tijolo nos anos 20, no bairro onde, em tempos, imperava o estilo colonial inglês. À volta da mesa de snooker, um grupo de traders portugueses põe-me a par de outros locais da moda e dos hábitos da geração mais nova.
Chegado o fim da tarde, sou avassalada pelos odores fabulosos que se desprendem dos restaurantes de cozinha internacional situados perto do Face – o tailandês Lan Na Thai, o indiano Hazara e o marroquino El Wajh. “Em Roma sê Romano” é uma máxima transversal a todas as minhas viagens, por isso saio em busca de um restaurante local. A gastronomia chinesa é demasiado boa para não se degustar todos os dias.
Com o estômago aconchegado, parto depois à descoberta do Art District de Xangai. Sinto a efervescência criativa assim que entro na Moganshan Lu, rua de armazéns abandonados e de paredes altas grafitadas a separar uma antiga zona industrial daquele que é um dos destinos de eleição para quem quer espreitar o que de mais recente se faz em pintura, escultura, fotografia ou instalação. A M5O é um complexo de galerias de artistas contemporâneos com ambiente e estética ao estilo da lisboeta LX Factory. Ou vice-versa. Tal como a Factory 798 em Pequim, a M50 é um espaço interessante para sentir a fértil criatividade chinesa. Deu os primeiros passos na década de oitenta com debates sobre o papel das artes na era de Deng Xiaoping, sendo hoje palco da nova geração de artistas, catapultados nacional e internacionalmente.
Da cultura das galerias para a cultura das ruas com cheiro oriental, prendem-me o olhar alguns aspectos inusitados: porque carga de água andam tantas jovens chinesas de peruca? E porque saem à rua tantos chineses de pijama? Que lhes terá passado pela cabeça, para terem um mercado de rua inteiramente dedicado ao comércio de grilos, com direito a DVD sobre as façanhas dos pequenos insectos?
Em Xangai, as pessoas vivem muito a cidade. Jamais esquecerei as manhãs tranquilas de Tai Chi em Fuxing Park, ou as danças de salão em pequenos espaços verdes. Principalmente, a movida no Bund, marginal onde sobressaem edifícios de arquitectura europeia dos anos 30, reminiscentes da era colonial. Ali afluem chineses de todo o país e turistas do mundo inteiro, atraídos por Pudong e pelos seus edifícios iluminados – como a Oriental Pearl TV Tower (a mais alta da Ásia com 468 m de altura) ou a Jin Mao Tower – que representam numa escala sobre-humana o sucesso económico da China. A partir do Bund, observam-se as mais variadas embarcações deslizando pelo rio Huangpu. Neste postal ilustrado vivo, passeia-se, namora-se e projectam-se os sonhos que se pensavam impossíveis.
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por Teresa Madeira
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