A educação futura

on Apr 1, 2018 in Bagagem de Mão | No Comments

Será que os mercados se preocupam com ela? Ou interessa-lhes só a “aquisição de competências”?

A rapidez com que as transformações se sucedem nas nossas sociedades, nomeadamente em resultado da revolução tecnocientífica (provocando novas interações e mútuas influências entre ciência e sociedade) e da revolução digital que se lhe seguiu (motivando a necessidade de se saber interpretar corretamente não só os textos como também – e sobretudo – as imagens), fez com que se criasse um sentimento de urgência em relação ao acesso, ao alcance e à qualidade da educação, a todos os níveis.

A educação é o melhor mecanismo de aprendizagem intergeracional que os seres humanos inventaram no decurso da sua evolução. A memória, a cultura e as aspirações de um mundo melhor são os conteúdos essenciais deste modo de comunicação que justificam os avanços e os recuos civilizacionais. No entanto, muitas e continuadas controvérsias têm acompanhado os desenvolvimentos das práticas educativas, desde a legitimidade da sua apropriação por seitas ou pelas elites até às razões da segmentação da sua qualidade, donde emergem e se perpetuam a exclusão e a desigualdade. Em termos globais, continua a verificar-se uma baixa mobilidade social entre gerações. Assim, há que equacionar o quadro da futura educação, sabendo bem que a pior situação é a que resulta do caminhar para o futuro de olhos bem fechados, como se houvesse uma fatalidade a comandar a história dos humanos. Condorcet afirmava há pouco mais de 200 anos que “os progressos das ciências asseguram os progressos na arte de educar e que estes subsequentemente aceleram os progressos das ciências”. Acreditava que a educação era o mecanismo central de aperfeiçoamento dos seres humanos. E pensava que não havia limites para as nossas esperanças, tal como escreveu no seu memorável Quadro dos Progressos do Espírito Humano. Porém, muita água passou sob as pontes desde então. Será que os mercados se preocupam com a educação? Ou interessa-lhes, fundamentalmente, a “aquisição de competências”?

Na esfera política e no espaço dos media a educação continua a ser considerada uma “prioridade”. Mas bem sabemos como as pressões sociais empurram antes as finanças públicas para as áreas da saúde, da habitação, do emprego… Para debater este paradoxo realizou-se recentemente em Roma uma conferência internacional sobre “Future Education”, organizada conjuntamente pela World Academy of Art and Science, pela Universidade Roma Tre e pelo World University Consortium. Além de nela se afirmar que a existência de “tempo” é onde se encontra a essência da liberdade, tornou-se claro como a futura educação terá de assentar na observação, na interrogação, na imaginação e, sem dúvida, na experimentação, bem como no saber ler e “escrever” imagens digitais. Os fatores determinantes da futura educação serão certamente a curiosidade e a abertura, as relações interpessoais e a complexidade. Será desta maneira que se poderá educar com vista a viver uma vida com sentido, a exercer livremente a cidadania, a obter os meios de subsistência.

 

por João Caraça

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